cionalmente ou não, redimensiona a representação da Padeira de Aljubar- rota, nosso enfoque volta-se, em um primeiro momento para esta figura e, por isso, interessa-nos lembrar que, definida pelo Dicionário de narratolo-
gia de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes como “categoria fundamental
da narrativa”8, a personagem é, neste caso, o leitmotiv do romance e,
por conseguinte, perceber a configuração que a autora traz em termos de diferenciação para Brites constitui o que este ensaio pode apresentar de contribuição. Estudada desde os postulados de Aristóteles, que definiu teoricamente o herói das epopeias, esta categoria da narrativa vem sendo observada por diversos teóricos em variados aspetos: por Hamon, pelo viés semiológico, por Vladimir Propp pelo seu caráter funcional, por Grei- mas pelo seu caráter semântico-estrutural, conforme aponta Carlos Reis em paráfrase à obra já menconada. Além desses, há outros teóricos não mencionados aqui por não ser este o espaço para uma revisão sobre as teorias da personagem de ficção.
É, entretanto, através da tipologia estabelecida por E. M. Foster que a personagem recebe uma classificação que baliza suas funções, perfor- mance e relações numa narrativa. Mas, evidentemente, com o passar do tempo, os estatutos e conceitos anteriormente definidos na Literatura vão-se modificando e, conforme mudam-se os olhares, acrescentam-se no- vas afirmações teóricas. Assim, com mudanças significativas na forma do romance, o nouveau roman em muito atenuou a importância da persona- 8 Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, Dicionário de narratologia 7.a ed., Coimbra, Almedina, 2007, p. 314.
gem, chegando mesmo a decretar-se uma crise daquele, o que também alterava o estatuto desta linha de pensamento defendida por Sarraute e Robbe-Grillet, segundo afirmativa de Carlos Reis9
Visto que trataremos especificamente da personagem romanesca, o que buscamos neste item é apenas tecer algumas considerações, a título de introdução, sobre o que afirmam alguns estudiosos do tema, pois, ob- viamente, o estudo da personagem a ser tratado teoricamente seria pauta de todo um ensaio. É certo que variadas, e em grande quantidade, são as diversas visões acerca dessa categoria da narrativa. As narrativas históri- cas, por exemplo, trazem como personagem figuras históricas ou lendárias, surgidas a partir de um fato histórico, como a Padeira de Aljubarrota, enquanto as narrativas de ficção apresentam personagens criadas pelos autores, dentro do conhecido contrato mimético postulado por Aristóteles. Outrossim, convém-nos lembrar que cada corrente literária vai vincular o objeto de estudo à teoria que defende de modo a configurá-lo para que se ajuste a tal corrente teórico-crítica, o que significa que a semiologia, a psicanálise, a sociologia, dentre outras mais áreas de estudos serão norteadoras da visão de cada teórico-crítico em seus respectivos estudos sobre a personagem:
Na obra de síntese A personagem (1998), Pierre Glaudes e Yves Reuter apresentam a panóplia de estudos semióticos-narratológicos, psicológicos e sociológicos existentes sobre a personagem roma- nesca: os primeiros albergam a narratologia, a axiologia e a tipo- logia; os segundos, a psicologia analítica, a antropologia do ima- ginário, a patografia freudiana, a psicobiografia, a psicocrítica, o texto-análise, a psicanálise dos quase-objectos e a psicocognição (que se divide em diferentes modelos cognitivos de leitura e de escrita); e finalmente, os estudos sociológicos da literatura, sócio- crítica, estética da recepção, sociologia do campo literário e pes- quisa empírica10
Portanto, nosso estudo está pautado tanto nos autores já citados (Reis e Lopes), como também no ensaio que retoma alguns dos principais pro-
9Cf. op. cit.
10Cristina da Costa Vieira, A construção da Personagem Romanesca: processos defi-
cessos de elaboração desta categoria da narrativa, da autoria de Cristina da Costa Vieira: A construção da personagem romanesca11.
Para além disso, e visto buscarmos aliar os estudos narratológicos às questões de gênero, lembramos que é de grande importância observar que a Padeira de Aljubarrota, como protagonista de lendas e romances está representada de uma forma na qual masculino e feminino se con-
jugam, levando-nos a perceber a necessidade de sobrevivência em um
ambiente onde a fragilidade não tinha sequer direito à voz, lembrando o quão opressora foi a Idade Média para o universo feminino, permitiram a Brites de Almeida entrar para o imaginário sobre os mitos portugueses, se não como figura histórica, pelo menos como figura lendária. Neste sentido, dar voz à própria Brites, que não assume o rosto no momento da narrativa como sendo a padeira, mas que conta a um estranho numa noite escura em uma floresta a sua própria história, é um artifício narrativo que uma autoria feminina não faz despropositadamente, assim acreditamos. Ao observarmos o contexto contemporâneo – a situação vivenciada por tantas mulheres no mundo atual, países em que o feminicídio acontece em altos índices e a violência contra a mulher ainda predomina, muitas vezes em sociedades ditas evoluídas ou países chamados de emergentes – constatamos que o recurso utilizado é convergente ao que se passa no mundo real. Muitas vezes a mulher, para falar sobre si, ainda neces- sita estar escondida nas sombras, ou seja, a Brites do romance de Nery está em uma situação ficcional que, não obstante, reflete uma situação do mundo real, é uma metáfora da condição feminina, a de não poder gritar e reivindicar livremente seus direitos e fazer ecoar bem alto sua voz e suas reivindicações.
Outrossim, retomando a importância do romance histórico na litera- tura portuguesa, constatamos que Alexandre Herculano, romancista que desempenhou importante papel em relação ao romance histórico tradici- onal, não deixou passar incólume a figura da Padeira, quando da com- pilação das Lendas e narrativas: “não seremos nós que desterraremos para o mundo dos phantasmas [sic] a famosa Brites d’Almeida, forneira d’Aljubarrota. Deixaremos os leitores ajuizarem da realidade, ou não re-
alidade da sua existência [..]”12 Tal atitude é validada pela inserção da
Padeira como personagem de A abóbada13, integrando o volume acima
mencionado.
É interessante observar que não apenas no conto de Alexandre Her- culano, a figura de Brites de Almeida é evocada para fins de confirmação do sentimento português nacionalista. Um estudo de Maria Cristina Go- mes Pimenta14 dá-nos conta que, em diversos momentos da História de
Portugal nos quais se fez necessário evocar com vigor o sentimento na- cionalista, a imagem desta valente mulher foi trazida à tona como se de uma figura histórica realmente se tratasse.
Ao levarmos em consideração que a Padeira está tanto no imaginário da cultura quanto na literatura, não podemos deixar de considerar fulcral o modo como ela é retomada por Júlia Nery, pois consideramos que esta autora não se limitou apenas a uma releitura, mas que a faz de modo crítico e trazendo para sua obra aspectos que são abordados pela crítica feminista e, por conseguinte, seu texto ganha dimensões que vão além de um romance histórico como os de muitos autores do gênero masculino que não incorporaram ainda a necessidade de redimensionar o espaço dado à figura feminina e o que se tem propagado em torno de lutas para espaços, voz e igualdade de condição da mulher, aqui representada tanto pela autora quanto pela personagem por ela elaborada.