A graduanda em questão não fez somente o Pré-Projeto no primeiro ano e depois o Projeto para o TCC, mas no decorrer desse tempo participou de Iniciação Científica, doravante IC, desenvolvendo estudos sobre o tema HQs. Assim, o Projeto para o TCC da P1 é também extensão de seus projetos de IC realizados durante a graduação. Com relação à estrutura do projeto, há mudanças em sua organização. É possível observar que a estrutura apresentada em seu Projeto para o TCC é a mesma dos planos de pesquisa de IC enviados ao CNPq16, os quais contêm na primeira página o título, dados do aluno, orientador, e linha de pesquisa, na sequência são apresentados caracterização e justificativa, (na qual é requisitada a fundamentação teórica), objetivos, metas, metodologia, resultados esperados, indicadores de resultados, repercussão e impacto dos resultados, referências e cronograma.
Em comparação com a estrutura do Pré-Projeto, o primeiro fator que se nota na organização do texto diz respeito à apresentação. No Pré-Projeto a capa com os dados do texto principalmente título e autora aparecem nas páginas finais, enquanto que no Projeto para o TCC a P1 consegue situar melhor o leitor em seu texto apresentando os dados da apresentação na primeira página.
16 O modelo planos de IC vigentes na instituição onde a pesquisa foi desenvolvida encontra-se disponível na página: <https://sistemas.uepg.br/producao/pro-reitorias/propesp/pesquisa/pibic/index.php>.
Ao observar o texto, na introdução inicialmente aparecem marcas teóricas que a P1 usa. Além disso, no decorrer dessa etapa, comparando novamente ao Pré-Projeto, há uso de embasamento para respaldar os posicionamentos e as concepções defendidas pela acadêmica sobre o assunto.
(8)
É notória a respeitabilidade e o interesse exploratório que o gênero
discursivo histórias em quadrinhos – HQs (LUYTEN, 2000; ANDRADE; ALEXANDRE, 2009; PATO, 2007; RAMOS, 2009; VERGUEIRO, 2007) está despertando nas políticas governamentais e nas pesquisas universitárias. (P1, Projeto para o TCC - Caracterização e Justificativa).
(9)
Instiga-nos pensar que os quadrinhos, especificamente os da Turma da
Mônica do cartunista Mauricio de Sousa, são lidos e estudados, dentro e fora do ambiente escolar, sem direcionar o olhar,mais detidamente, para traços de identidade (BAUMAN, 2005; HALL, 2006; RAJAGOPALAN, 2003; GUIDDENS, 2002) e pragmáticos (OTTONI, 1998; RAJAGOPALAN, 1988, 1999; 2002; Mey, 1998; AUSTIN, 1962) presentes no texto e no suporte. (P1, Projeto para o TCC - Caracterização e Justificativa).
Há também o uso mais acentuado de termos mais rebuscados do que em relação o Pré-Projeto o que faz refletir sobre a técnica usada pela P1, e já mencionada, de anotar palavras novas advindas de leituras e usá-las em seu texto.
(10)
Interligar a vertente supracitada e identidade, questão que atualmente está
“sendo extensamente discutida na teoria social” (HALL, 2006, p.7) é
vislumbrar uma pesquisa ampla, a qual ultrapassa os limites dos requadros
e mergulha numa realidade em que esses elementos são constantemente
norteadores das posturas do cotidiano. (P1, 2010, Projeto para o TCC,
Caracterização e Justificativa).
Com relação aos objetivos, nesse texto a P1 subdivide-os em geral e específicos, diferentemente do Pré-Projeto no qual apresentou apenas um objetivo sem subdivisão. Outro fator que chama atenção encontra-se presente na metodologia.
(11)
Partimos da tese de que “o discurso, combinado com aspectos do corpo
(semiose), também contribui para construir formas de ser, identidades sociais ou pessoais” (MAGALHÃES, 2004, p. 122). (P1, Projeto para o TCC - Metodologia).
Nesse trecho, a P1 apresenta a hipótese que defende na pesquisa embasando-a. A seguir ela procura especificar como a pesquisa será feita:
(12)
Vislumbra-se que a pesquisa seja realizada por meio de análises
(textualmente orientada) e observações de alguns dos principais estudos já
existentes e autores da área, articulando com um resgate histórico do gênero histórias em quadrinhos e alguns dos seus suportes, por exemplo, gibi e mangá (HQs japonesa), com a caracterização dessa modalidade textual/
discursiva e exame de textos. (P1, Projeto para o TCC - Metodologia).
Ao relatar como será realizada a pesquisa, a P1 acaba não especificando detalhadamente quais serão as etapas a serem seguidas nessa análise. Ainda na metodologia é possível observar a maneira como a P1 marca sua subjetividade no texto seguindo as normas da impessoalidade que muitas vezes a escrita acadêmica solicita:
(13)
Defende-se que é patente a possibilidade de uma pesquisa direcionada para
abordagens identitárias e pragmáticas das HQs, linhas teóricas que
auxiliarão para a construção da leitura e investigação aprimorada do gênero quadrinhos, dentro e fora do universo pedagógico, resultando numa maior conhecimento do texto..(P1, Projeto para o TCC - Metodologia). No trecho (13) a P1 posiciona-se, mostrando a ideia que defende, no entanto, ela usa aspectos mais formais da linguagem como o recurso de impessoalidade. Nesse sentido, para Fairclough (2001a, p.540) a “formalidade é um aspecto penetrante e familiar de restrições [...]. Formalidade é uma propriedade comum em muitas sociedades e discursos de elevado prestígio social e de acesso restrito”.
Com essa certa formalidade a P1 mostra estar um nível mais elevado, o nível universitário, o qual é considerado um dos níveis de alto prestígio em relação à legitimação do conhecimento, e retratado por ela por meio da escrita acadêmica. Assim, com a prática dessa especificidade em sua escrita parece haver a tentativa de legitimação por parte da P1 em mostrar que faz parte das práticas e do discurso prestigiado do meio acadêmico. Outra forma de observar essa formalidade e, portanto, a elevação de nível em relação à linguagem e ao conhecimento é retratada, como já citado anteriormente, na leitura dos textos acadêmicos da P1 realizada pela mãe.
Ao mesmo tempo, como forma de sanar preceitos regidos pela comunidade acadêmica, a P1 ressalta os resultados que poderão ser alcançados com sua pesquisa na comunidade acadêmica:
Visamos também à publicação dos resultados dos estudos, como principal
indicador dos resultados do trabalho. (P1, Projeto para o TCC - Indicadores de Resultados).
(15)
Reiteramos que: a) a publicação dos resultados; b) a divulgação e discussão
dos trabalhos em eventos da área; c) as trocas de saberes entre grupos de
professores formados e em formação e pesquisadores são as principais maneiras de configurar repercussões ou resultados. (P1, Projeto para o TCC - Repercussão e Impactos dos Resultados).
No ambiente universitário, principalmente o que se relaciona a pesquisas, um dos modos de validação e valorização dos estudos e das pesquisas é a divulgação destas por meio, principalmente, de publicações e participação em eventos. A P1, como aluna que durante a graduação participou de IC, sabe desses requisitos e deixa-os marcados em seu projeto como forma de mostrar que pretende atender as exigências e participar do meio acadêmico por meio disso.
Com relação a como foi a participação em IC e as motivações que fizeram com que a P1 desenvolvesse pesquisa ela relata;
(16)
O que me interessava em fazer projeto era, dentre outras coisas, a evolução
acadêmica, profissional e pessoal; era o ir além da sala de aula, aprender e
conhecer mais. (P1, Entrevista 1 – Questão 16).
Como já dito, as decisões tomadas sejam elas em âmbito individual ou coletivo são movidas por interesses e, portanto são políticas. A acadêmica relata que seu interesse está relacionado à evolução para aprender e conhecer mais. Em outras palavras, o sujeito ao adentrar determinado meio pode se enquadrar às normas institucionais ao fazer escolhas e possuir interesses políticos com objetivos em seu benefício. Assim, há uma relação de política mútua. De um lado a universidade com poder maior prescreve convenções e estruturas para alcançar objetivos regidos por seus interesses. Do outro, o acadêmico se submete a essas normas e convenções para satisfazer seus interesses individuais. Há, portanto, ao mesmo tempo o jogo de forças e de interdependência, pois a universidade contribui para que a graduanda alcance seus objetivos e ao mesmo tempo a acadêmica ajuda a validar, legitimar as normas da instituição.
Ainda em relação à contribuição dos projetos para sua formação a P1 retrata a importância:
(17)
A participação no projeto faz o meu diferencial dentro e fora da universidade”. (P1, Entrevista 1 – Questão 18).
Este posicionamento proporciona uma reflexão pelo mesmo viés. Participar do meio acadêmico por meio de diversas ações pode trazer resultados à acadêmica para assim cumprir seus objetivos de formação profissional. Nesse sentido, é possível observar que ela consegue fazer parte da estrutura política e social que a universidade pede para assim alcançar seu almejado diferencial.