Uma das maneiras de exemplificar o poder que as políticas linguísticas exercem sobre a escrita pode ser observado na escrita acadêmica, a qual é institucionalmente convencionada, portanto, marcada por um poder político que dita certos preceitos. Assim, nessa sessão, objetivo deixar em evidência que políticas linguísticas estão envoltas, entre outras, por questões de identidade, linguagem e escrita. O ambiente universitário, por meio da escrita acadêmica é um exemplo pelo qual se pode perceber a normatização da escrita, relacionada a interesses institucionais permeados pela política de homogeneização deste instrumento da linguagem justificado como forma de organização com vistas muitas vezes a interesses comuns.
Observa-se assim, que o enquadramento à escrita acadêmica depende das práticas sociais nas quais se envolvem os sujeitos imersos neste contexto. Em meio a essas práticas e a essa adaptação que o sujeito necessita para escrever academicamente é possível perceber o cunho político em dois pontos.
Primeiramente uma política institucional, que coloca as convenções para a escrita acadêmica de um poder maior, o meio universitário, para o menor, o sujeito acadêmico. Essas convenções podem ser implementadas tanto por órgãos com poder legislatório como pelos sujeitos de fazem parte do meio universitário, tais como professores, orientadores, equipe de coordenação de curso e alunos já inseridos no ambiente.
A seguir uma política individual, de interesse e escolha do sujeito universitário/graduando, no sentido de aprender, de se tornar membro e se enquadrar à escrita convencionada. Essa segunda questão política de interesse relacionada ao sujeito, pode, muitas vezes, não ser uma questão pacífica. A escrita acadêmica pode ser vista também como uma imposição de convenções ao sujeito, o qual pode voltar seus interesses para o não enquadramento devido também às dificuldades que encontra em adequar-se, e estabelecer uma relação contraditória, assim como em suas identidades,
como exposto por Coracini (2003), visto que a escrita também é estabelecida, construída e reconstruída socialmente.
Portanto, as relações políticas, especificamente em relação à linguagem, funcionam por meio da existência de relações de poder.
As análises desses discursos [institucionais e não-institucionais], das interações entre sujeitos e grupos sociais diversos, permitem explicitar as efetivas ações políticas que regulam as relações entre língua e sociedade, as relações de poder que estão implícitas nas políticas linguísticas. (TORQUATO, 2010, p.23, grifos da autora).
A mesma autora ainda defende a ideia de que as políticas linguísticas devem se pautar em uma perspectiva de linguagem como ação social, pois as ações do discurso são eminentemente ações políticas. Nesse sentido, entendo que a perspectiva performativa da linguagem, assim como muitas outras perspectivas as quais no momento não cabe citar, é também uma visão política.
A escrita acadêmica é uma exemplificação da relação entre escrita e políticas linguísticas. Reforço que nela, como em outras atividades da linguagem, e principalmente em relação a identidades, percebe-se que a política permeia muitas vezes de maneira camuflada e outras muitas de maneira claramente exposta, todo o desenrolar social e as ações, escolhas e decisões.
Com esse poder institucionalizante da universidade que a escrita acadêmica carrega em suas manifestações, para Nogueira (2005), ela pode se distanciar das experiências linguísticas dos sujeitos. Deste modo, ela pode se tornar uma produção artificial na tentativa do cumprimento de preceitos estabelecidos.
Em nome da imparcialidade científica ficam de fora, na produção do saber linguístico, as emoções, os interesses, os impulsos, a experiência de viver na linguagem, dando a entender que aquilo que o pesquisador da linguagem faz na academia, a ‘ciência da linguagem’, não tem relação com sua experiência pessoal na linguagem. Reforçando a tradição filosófica ocidental é estabelecida a divisão entre a nossa cognição, o nosso lado conceitual formal e racional em contraste com o nosso lado corporal, material e emocional. (NOGUEIRA, 2005, p.15).
Vendo por esse lado, a escrita acadêmica pode não ser uma escrita libertadora, mas, na maioria das vezes, uma escrita controladora, opressora que manipula na tentativa de encaixar às suas formas e fórmulas. Assim, de acordo com a ressalva de Rajagopalan (1998, p.33) de que “nem todas as coletividades são igualmente ‘naturais”,
a escrita acadêmica pode se tornar uma prática social e universitária artificial, a qual o sujeito produz apenas como forma de reprodução e enquadramento às convenções da academia. Ao mesmo tempo, nessa tentativa de adequação a esses preceitos o sujeito universitário pode, mesmo que involuntariamente, adquirir características desse meio, remoldando e reconstruindo suas identidades e, por conseguinte, sua escrita.
Nesse sentido, liberdade identitária na academia, e particularmente na escrita acadêmica, (assim, como em outros meios e práticas sociais) pode tornar-se uma ilusão, ou uma pseudo-impressão, visto que há tentativa de moldar os sujeitos para atender às demandas institucionais. E os sujeitos que melhor se enquadram serão os que se sobressaem.
A partir das presentes explanações, entendo a escrita acadêmica como uma forma de mostrar as ações das políticas linguísticas no sentido de interesses institucionais para os individuais na tentativa de fazer com que o sujeito compactue com a estruturação social e política da universidade; e no sentido de interesses individuais para os institucionais, no qual há o interesse, ou não, do sujeito em se adaptar e fazer parte do meio e das práticas sociais universitárias. Desse interesse podem derivar as escolhas por uma escrita que liberta ou oprime. Se há a restrição, por parte do sujeito ou do ambiente social, a seguir somente as normas, ela oprime, mas se o sujeito vai além disso utilizando as normas institucionais para chegar onde quer, para alcançar seus objetivos, ela pode libertar.
Por fim, considerando que é difícil haver a instituição de regras sem o enquadramento por parte do sujeito como forma de validá-las, para concluir essa parte teórica e passar para as explanações metodológicas trago o questionamento: Na academia, o sujeito faz somente o que lhe interessa, ou é conduzido pelas politicas linguísticas universitárias a atender os interesses deste poder maior?