Helena, em entrevista, nos contou que durante a graduação e na pós-graduação nada se comentou sobre a inclusão de estudantes com necessidades educacionais especiais.
anos na carreira de professora, Helena nos disse que por volta dos anos de 2006 e 2007 (não soube dizer a data com exatidão) teve em suas turmas, na cidade de Água Boa/ MT, dois estudantes surdos (uma menina e um menino). Disse que antes destes estudantes nunca teve contato com Libras e que durante o ano trabalhou sozinha com eles, sem a ajuda de um intérprete de Libras/Português. Seu pensamento no início foi “não vou ensinar nada”, mas com o tempo conseguiu se aproximar e em suas palavras:
(...) e assim... eu peguei uma amizade muito grande... principalmente a menina... o menino nem tanto né... mas ela ia lá em casa pra jogar vôlei... pra jogar bola né... e pra ficar conversando... daí eu acabei entendendo um pouquinho mais.
Contou-nos que esse primeiro contato com os estudantes surdos permitiu aprender um pouco da Libras, mas que pela falta de prática acabou esquecendo muito do que aprendeu. Nesse primeiro momento utilizou majoritariamente a língua portuguesa escrita para se comunicar e aprender Libras com aqueles estudantes.
Helena buscou em 2011, provavelmente por ter neste ano as alunas surdas Lúcia e Susana em uma de suas salas de aula, capacitação em Libras disponibilizada na formação continuada. Este curso foi ministrado por Marta, intérprete de Libras/Português que trabalhou no terceiro ano com as duas alunas surdas Lúcia e Susana, com caráter introdutório à Libras, trabalhando principalmente com vocabulário de situações cotidianas, pouco voltado para a Física ou Ciências Naturais.
Apesar de cursar aquele curso de Libras e a vivência, anos antes, com os estudantes surdos, Helena acredita não serem seus conhecimentos nesta língua suficientes para estabelecer diálogos apenas utilizando a Libras. Por outro lado, prefere trabalhar sozinha em sala de aula, sem a presença da intérprete, pois permitiria se aproximar das estudantes surdas ao invés de ser intermediada pela intérprete. Helena contou que no início do ano houve demora na contratação da intérprete e isto a forçou se comunicar diretamente com elas, e para isto contou com a ajuda dos colegas de sala, principalmente de uma das colegas34 que conseguia se
34 Helena acredita que esta estudante aprendeu muito pela convivência com as estudantes surdas durante os três anos do Ensino Médio.
comunicar em Libras com Lúcia e Susana.
Perguntamos, ainda, se durante as aulas as estudantes surdas questionavam sobre o conteúdo, seja diretamente ou indiretamente, e Helena afirmou que pouquíssimas vezes algo lhe foi perguntado em sala, mesmo que por meio da intérprete. Como exemplo, Helena citou que durante a explicação sobre a regra da mão esquerda35, as estudantes demonstraram grande interesse e questionaram como
funcionava.
Para Helena as relações das alunas surdas com os colegas em sala de aula não eram ruins e as estudantes sempre se sentiram bem em sala, o problema, segundo ela, é que as estudantes surdas não compreendiam a matéria, pois apresentaram baixo desempenho principalmente nas avaliações escritas. Ela acredita que as estudantes vieram dos anos anteriores com uma base conceitual muito fraca e estima não ter conseguido trabalhar nem cinquenta por cento do esperado.
Para compreender melhor a questão da avaliação das estudantes surdas questionamos quais os mecanismos de avaliação e como eles são aplicados em sala de aula. Em resposta Helena disse que a avaliação se compõe de provas escritas, trabalhos, experimentos, relatórios de experimentos e tarefas de casa. Helena comentou que as avaliações escritas não são diferenciadas em nível de dificuldade, mas que no caso das estudantes surdas elas sempre realizaram as avaliações em dupla e com o uso do livro texto, e em determinadas situações também em horário extra-aula. A respeito das tarefas, Helena mencionou que as estudantes surdas sempre tentam fazer, mesmo não acertando ou apenas copiando a resposta do final do livro, e que isto garante (e aos demais estudantes) dois pontos da nota do bimestre.
Também questionamos Helena sobre a influência da escola nas avaliações e ela respondeu que todas as vezes no conselho de classe há a orientação para que os professores aprovem os alunos incluídos no sistema regular de ensino, mesmo que estes não tenham obtido rendimento mínimo exigido pela escola. Quando questionada o porque desta orientação ela disse não saber e reforça dizendo que
35 A regra da mão esquerda constitui de uma representação vetorial da interação entre a força magnética, campo magnético e corrente elétrica, com a finalidade de facilitar a visualização da direção e sentido da força magnética resultante da interação dessas grandezas físicas – representa um produto vetorial.
sempre se fala: “não... o aluno é de inclusão... como é que você vai reprovar ele?”. Nestas circunstâncias, Helena duvida se esta é uma forma de incluir uma pessoa, pois, além de existir esta tendenciosa aprovação, ela observou que as estudantes surdas Susana e Lúcia se sentem em sala de aula “como uma pessoa fora
da casa”, além de ressaltar que os demais estudantes possuem ritmo de trabalho
diferente.
Por outro lado Helena disse que entende a inclusão sob dois pontos de vista: um deles, o positivo, estaria relacionado ao acesso à escola, à educação, ao mesmo ambiente escolar que as pessoas ouvintes frequentam; o outro, o negativo, devido as inúmeras dificuldades – dentre elas: a dificuldade com Matemática, a necessidade maior tempo de trabalho e a presença de um intérprete – eles acabam não conseguindo construir conceitos adequados do ponto de vista acadêmico. Em suas palavras:
(…) a gente faz meio que de conta que... que ocorreu uma inclusão... que eles aprenderam... que eles passaram... mas na verdade isso é muito vago né... não se consegue atingir acho que nem cinquenta por cento do que se pretendia.
Ainda questionamos Helena como esta forma de trabalho influencia os próprios estudantes surdos e o restante da turma. Em resposta Helena disse que as estudantes acabam não tendo muito compromisso, pois sabem que no final serão aprovadas na disciplina e, então, elas acabam não cumprindo os horários e nem sendo assíduas. Quanto aos outros colegas, eles aparentam não se incomodar com estes privilégios, abordando a questão da inclusão através do apelo emocional, com o uso de afirmações do tipo “(...) ah professora... mas também... imagina eles não
sabem falar... não sabem ouvir... não sabem... não imagina... se coloque no lug/[lugar
deles]”, ou ainda “(...) ah não professora... passa eles também... imagina quanta
dificuldade... imagina se você não escutasse direito... imagina como é que seria... tem que passar eles mesmo professoras”.
Outro agravante à inclusão, segundo Helena, está relacionado à mediação do conhecimento pela intérprete. Helena acredita que o processo de interpretação faz com que muitas informações se percam, principalmente pela dificuldade que a intérprete apresenta com Matemática e com os conceitos físicos. E por não conhecer
bem a Libras, Helena diz não saber o que é interpretado e nem de que maneira são realizadas as discussões com as estudantes surdas. Por outro lado ela comenta que em diversos momentos, no contra-turno, a intérprete a consultava, questionando se da forma com estava explicando era correto, ou pedia auxílio com pesquisas na
internet sobre os conteúdos e trabalhos.
Quando questionada se recebeu orientação ou se foi lhe ofertado cursos que tinham o foco para o ensino de Física para surdos, Helena disse que não, que não houve nenhuma orientação ou cursos ofertados além do curso de Libras realizado na formação continuada. Ao ser questionada se buscou subsídios teóricos a respeito de inclusão e surdez ela também disse que não.
Por fim, Helena advoga que, para melhorar a inclusão dos estudantes surdos, primeiro se deveria mudar a maneira de avaliá-los, deveriam ser avaliados da mesma forma que qualquer outro estudante, ao invés de facilitar e haver obrigação de se atribuir a média ao estudante que não alcançou desempenho mínimo requisitado. Inclusive vê essa tendenciosa aprovação e as avaliações facilitadas como os principais motores de dificuldades para estes estudantes quando concluírem o Ensino Médio e ingressarem em uma universidade ou no mercado de trabalho, pois esses tipos de trabalhos não mais serão feitos e as cobranças serão maiores. Além disso, acredita firmemente que os professores deveriam ser melhores qualificados para que não necessitassem da presença do intérprete e assim conseguirem uma melhor troca de significados na interação direta com os estudantes, mas que para isso, segundo ela, a escola toda deveria ser bem capacitada.