D. LES PRATIQUES DENONCEES
3. L’ ACCORD INTERVENU ENTRE I NFOGREFFE ET L ’INPI
Na entrevista, Polly contou que devido ao tema do seu trabalho de conclusão de curso necessitou conhecer a Libras, que na época da sua graduação somente veio a ser incluída na grade curricular no último semestre do curso. Ela conseguiu participar de um curso destinado aos professores da rede pública e realizado pela Secretaria de Educação de Sinop. Este, então, se constituiu seu primeiro curso de Libras. Posteriormente participou de outro curso, vinculado à
Unemat, em um programa de cursos abertos à comunidade sinopense disponibilizado pelo Projeto Universidade Popular (Unipop). Apenas no último semestre do curso é que Polly teve em sua grade curricular a disciplina de Libras e, segundo ela, deixou muito a desejar, pois neste estágio, contou que conhecia mais sobre a língua dos surdos que a professora que ministrava a disciplina.
Polly trabalha como intérprete há três anos, sendo os dois primeiros anos em escolas municipais e o terceiro na escola em que realizamos a pesquisa. Ela nos contou que de início não desejava ser intérprete, pois observava constantes conflitos entre professores e intérpretes geradas por incompreensão das responsabilidades de cada profissional em sala de aula. De um lado os professores se sentiam intimidados pela presença de outro profissional em sala de aula, de outro, a responsabilidade de ensinar os conteúdos acabavam sendo deixadas ao encargo do intérprete.
Primeiramente, Polly pretendia ser professora regente de uma turma com alunos surdos, como o que realizara na pesquisa para sua monografia. Em especial, desejava trabalhar com a alfabetização, com o ensino de língua portuguesa e língua de sinais para surdos, pois isto se constituíra a indagação de sua pesquisa monográfica.
Polly comentou que quando apareceu oportunidade de trabalhar como intérprete ela resolveu tentar, mas no início não foi fácil, principalmente por conta daqueles conflitos entre professores e intérpretes. Polly começou a trabalhar na Escola Nilza por volta de junho de 2011, o que representam dois bimestres letivos que Pedro ficou em sala de aula sem um profissional fluente em Libras, e ela disse que, por não iniciar as atividades desde o início do ano, não tinha condições de exigir dos professores o planejamento das aulas com certa antecedência para que pudesse estudar, não somente os conteúdos, mas também os sinais (Libras) específicos do assunto. Esta é uma das grandes dificuldades apontada por Polly, principalmente quando o conteúdo a ser interpretado é muito complexo.
Além de encontrar dificuldades com relação ao planejamento das aulas, Polly mencionou que não houve nenhum trabalho em conjunto com os professores, quer seja na elaboração do planejamento das atividades ou no acompanhamento do trabalho realizado com Pedro no atendimento contra-turno às aulas. Polly ressaltou
que possui um diário com o registro de tudo que foi trabalhado com Pedro, mas nenhum professor buscou saber sobre os avanços ou de que maneira estas atividades eram realizadas. Para ela, isto foi mais um fator que causou dificuldades no trabalho e que, segundo sua concepção, demonstra o despreparo dos professores frente a proposta de inclusão dos estudantes surdos. Ainda a este respeito, Polly contou que houve um professor que lhe disse não se sentir bem com a presença de Pedro em sala de aula.
Polly mencionou que há, ainda, um contraste entre o que deveria ser o trabalho do intérprete e o que acaba se tornando na prática. O intérprete, segundo ela e referenciando-se na legislação, se define como mediador entre duas línguas diferentes, devendo apenas traduzir e interpretar nas duas línguas. Entretanto o que acaba ocorrendo em sala de aula é que o intérprete assume o papel do professor, explicando o conteúdo sozinho.
Polly disse que aquelas dificuldades de relacionamento com outros profissionais se somam a outras relacionadas aos conteúdos, principalmente os que se distanciam da sua área de formação (área das ciências humanas), e ao tempo da sala de aula que acaba sendo pequeno para ela compreender o assunto e interpretar para o estudante surdo. Justificou, assim, a importância de saber com antecedência os assuntos das aulas, para que pudesse estudar.
A respeito da Física, Polly contou que quando estudava no Ensino Médio não tinha muitas dificuldades com o conteúdo, mas que entende que a dificuldade atual com a Física está em interpretar os conceitos para o estudante surdo, pois, segundo ela, existem muitas palavras semelhantes e sinais que ainda não conhece, além de em determinadas situações usar sinais que às vezes não condizem com os conceitos físicos.
Neste contexto, Polly acredita que incluir significa desenvolver ferramentas para que as pessoas possam ser autônomas e capazes de desenvolver as atividades diárias como qualquer outra pessoa e assim garantir seu espaço na sociedade. Para melhorar este atendimento ao surdo e garantir uma melhor inclusão Polly disse que seria importante que existissem materiais didáticos com um enfoque visual, que apresentassem um número grande de imagens que mostrassem os detalhes, pois,
segundo ela, quando os detalhes são mencionados em texto não remete ao surdo um significado. Em exemplo ela diz: “(...) é mais difícil dele entender e de/ diferenciar...
por exemplo... a história da Grécia e a história da Roma... é muito Difícil né... são povos do passado nome36”.
Da perspectiva de Polly, a iniciativa da SEDUC de incluir os estudantes surdos no ensino regular é uma obrigação legal, pois o estudante surdo tem o direito à educação e a escola deve atender o melhor possível esses estudantes. Neste sentido, ela entende que em termos legais a escola está preparada para receber os estudantes surdos, pois dispõem de um intérprete, mas que na prática é necessário mais do que isso, é importante, segundo ela, que os professores estejam preparados e capacitados a receber estes alunos.
A respeito do estudante surdo Pedro, para quem interpreta, Polly disse que ele apresenta muita dificuldade de leitura e escrita, justificando que isto é decorrente de a Língua Portuguesa não ser a língua materna dos surdos. Para ela, Pedro encontra as mesmas dificuldades de aprendizagem que uma pessoa estrangeira enfrenta ao aprender o Português. Acentuando esta dificuldade ela comentou que os pais de Pedro não são fluentes na Libras e pouco conversam com ele, seja em Libras ou em Português escrito. Além disso, ela tem a percepção de que Pedro às vezes não compreende os sinais que ela usa nas aulas, indicando que ele também apresenta dificuldades em se comunicar em Libras.
Na época da entrevista Polly disse que Pedro, por ser muito tímido, tinha poucos amigos, e destes não estavam incluídos as duas estudantes surdas do terceiro ano. Além disso, Polly disse que Pedro apresenta uma deficiência intelectual leve e acredita que isto, associado à má qualidade da educação básica recebida e ao fato de Pedro estar em sala sozinho, sem outro colega surdo, também influencia na sua aprendizagem.
Polly acredita que Pedro se sente sozinho em sala de aula, pois pouco conversava com os colegas ouvintes. Segundo ela, a interação com outras pessoas ouvintes melhorou com a participação no grupo de teatro e que isto, associado às atividades experimentais realizadas nesta pesquisa, o aproximou das outras
estudantes surdas (Susana e Lúcia) do terceiro ano. A aceitação de Pedro no grupo de teatro é maior, no entendimento de Polly, porque os meninos que participam do teatro são homossexuais e, portanto, mais sensíveis, já que ambos buscam de alguma forma uma inclusão social. Já o contrário ocorre em sala de aula, Polly afirma que observou muito preconceito e que isto acabou distanciando Pedro dos demais alunos ouvintes da sala. Além da existência de preconceito existem intrigas sobre alguns privilégios que Pedro recebe dos professores, em suas palavras:
“(…) eu vejo é assim... a questão dos alunos ficar falando “ah... por que o Pedro pode ter mais tempo pra fazer o trabalho?… Por que o Pedro pode isso? Porque o Pedro pode aquilo?” ou se não eles acham que eu ajudo o Pedro a fazer as atividades”.
Ao ser questionada sobre as dificuldades que Pedro poderia encontrar ao concluir o Ensino Médio e o que poderia ser feito para melhorar a inclusão destes estudantes, e assim minimizar as dificuldades, Polly disse que os surdos ainda encontram um mercado de trabalho restrito às empresas que possuem mais de cem funcionários, pois são legalmente obrigados a contratar pessoas com necessidades especiais, e que, portanto, não possuem um suporte adequado para entrar no mercado de trabalho. Como ação que deveria ser feita, Polly acredita que seria muito importante a implementação em Sinop de um lugar que seja um ponto de referência para os surdos e para os profissionais da educação.