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SAINT-JEAN, CLASSIFICATION PAR MRC
A noite está tépida. O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exótica gostaria De recortar um pedaço do céu Para fazer um vestido. (JESUS, 2001, p.28)
Carolina Maria de Jesus no seu livro: Quarto de despejo: diário de uma favelada empresta sua poesia e visão da realidade para pensarmos juntos a liderança feminina presente em Conceição das Crioulas, “a vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro” (JESUS, 2001, p.147).
A questão de gênero na reflexão de Maria Jorge está sempre presente na literatura, e nas reuniões com a comunidade, “o mito da fundação de Conceição das Crioulas já vem acompanhado de uma história de liderança. Excepcionalmente uma liderança de mulheres, as seis crioulas” (LEITE, 2011, p.2). Quando à discussão é o direito à ocupação, certificação e legalização do território, e à defesa da dignidade quilombola, mulheres e homens juntos mostram que o interesse da coletividade extrapola a questão de gênero.
A tradição oral é enfática em apontá-las como mulheres fortes e resistentes, que, desafiando os padrões sociais da época, exerceram grande influência sobre seu grupo, na coordenação dos trabalhos, no plantio e colheita do algodão, no firme propósito de adquirirem a posse legal da terra, através da compra. (LEITE, 2011, p.4-5)
Na construção discursiva dos historiadores da comunidade, foram seis mulheres negras: Chica Ferreira, Mendencha Ferreira, Francisca Presidente, Matilde, Romana e Germana as responsáveis pela fundação de Conceição das Crioulas, esse discurso está presente na memória e na história oral da comunidade. Surge aqui como uma importante questão a posição do feminino na fundação e manutenção do território, em uma sociedade marcada pelo machismo, e comandada pela lógica patriarcal, do poder masculino.
A tomada da terra pelas seis crioulas em 1802 contraria a historiografia oficial que por muito tempo negligenciou esse fato histórico de superação da escravidão, quando mulheres sem escolarização formal, através da fé e devoção à santa padroeira do quilombo Nossa Senhora da Assunção, e do trabalho na lavoura plantando, colhendo e vendendo algodão tempos a fio conseguiram organizar política e socialmente um dos mais importantes quilombos da história brasileira. Essas mulheres pioneiras de Conceição das Crioulas no inicio do século XIX, para Givânia Maria “inauguram um modelo de feminismo e de gestão territorial com as mais contraditórias condições pelo sistema vigente” (SILVA, 2012, p.64). O anseio
de liberdade, a resistência ao regime escravocrata em vigor no país, a ousadia de organizar com povos indígenas com os quais dividiram parte do território e suas próprias vidas, ressaltam a liderança feminina desta comunidade peculiar.
As mulheres arrendaram a terra, trabalharam na plantação, colheita e manufatura do algodão e pagaram a dívida, vendendo e comercializando o fruto de seu trabalho. A história de Conceição das Crioulas está intrinsecamente identificada na ação das seis negras pioneiras, fundadoras da comunidade, que com a colaboração de homens e índios resistiram em seu território, aos ataques de grileiros, latifundiários e especuladores imobiliários.
Além das primeiras pioneiras outras lideranças femininas se destacaram na defesa dos interesses do território e da dignidade quilombola, e que estão hoje materializadas nas bonecas pretas, homenagem às mulheres marcantes na história de luta e resistência de Conceição das Crioulas. Esta homenagem produziu seis objetos artísticos de representação, onde cada modelo foi esboçado e produzido artesanalmente com a fibra do caroá, e que hoje espalha com orgulho a arte da comunidade além da caatinga cercada de xique-xiques, pelo Brasil inteiro e imenso e no estrangeiro, promovendo a dignidade de sua história.
O artesanato, riqueza cultural e material de Conceição das Crioulas, materializada em bonecas representando mulheres do quilombo, homenagem e reconhecimento ao trabalho de cada uma na busca de conquistas que cada uma dessas mulheres evidenciou, nas áreas da saúde, da educação e da cultura popular, demonstram mais um exemplo do papel desempenhado por mulheres altivas e destemidas frente aos desafios da atualidade.
Outra personagem marcante na luta e defesa da comunidade é a Agostinha Cabocla, identificada como uma autêntica mestra griô8. Agostinha foi uma líder incontestável na defesa do Sítio Paula e das terras das crioulas, onde a tradição oral lhe confere uma posição central no enfrentamento político, na disputa da terra com os latifundiários, contrários à comunidade quilombola.
A mestra Agostinha Cabocla está sepultada no quintal de sua residência no sítio Paula, em Conceição das Crioulas, seus familiares e lideranças do quilombo o fizeram atendendo o seu último desejo, de repousar no território que tanto amava, onde lutou por ele e se defendeu de intrusos fazendeiros gananciosos, que
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Mestres griôs são contadores de histórias, que detém o conhecimento das injustiças, sofrimentos, alegrias, conflitos, lutas, mitos, crenças e glórias de seu povo. É um educador popular que aprende, ensina e se torna a memória viva da tradição oral.
expulsavam das terras seus legítimos proprietários, no local da sua sepultura foi construída uma capela, tornando-se um lugar sagrado.
Conceição das Crioulas é uma comunidade quilombola, fundada quando ainda prevalecia no Brasil o regime escravocrata, onde dizem os historiadores locais que seis mulheres negras se rebelaram contra o regime vigente e fugiram da escravidão e fixaram morada no sopé da Serra de Umãs, em um território equivalente a ‘três léguas em quadra’, distante aproximadamente 600 quilômetros da capital Recife. A região é habitada desde o início por negros e índios no semi-árido do sertão central pernambucano.
Na historiografia de Vânia Rocha Fialho sobre o início da comunidade tem-se o seguinte relato: “as seis crioulas arrendaram uma área de três léguas em quadra e foram pagando com o trabalho de fiação do algodão que vendiam em Flores, município situado nas proximidades” (SOUZA, 2002, p.124). As trocas comerciais com moradores de cidades vizinhas ao quilombo refuta a ideia do senso comum, sobre o isolamento das comunidades negras, ainda desmente o mito da aversão ao trabalho, foi precisamente o labor que deu origem a Conceição.
Com a produção artesanal do algodão as seis crioulas e seus descendentes conseguiram se tornar donas das terras. Hoje Conceição das Crioulas é composta por aproximadamente 750 famílias espalhadas em vinte sítios. A permanência na comunidade está marcada por intensos conflitos com fazendeiros da região, que ao longo dos tempos e com a proteção legal corruptos locais expulsavam de suas terras seus legítimos donos. Sobre o recorte temporal da ocupação do território encontrei a seguinte afirmação:
Tal época referida como período do rei, o pagamento da referida renda deu às crioulas o direito de adquirir o título de suas terras. As crioulas receberam essas terras em 1802; sua escritura tinha 16 selos, trazia o carimbo da Torre. (SOUZA, 2002, p.124)
A região, como se disse, já era ocupada pelos índios Atikum, com quem os moradores da comunidade e seus descendentes passaram a conviver. A investigação realizada com esse grupo étnico, e o discurso dos moradores da comunidade confirmam essas informações, a ideia da compra da terra, a escritura com 16 selos estão presentes na memória e nas falas dos historiadores do quilombo.
O desejo de viver em terras livres, contrariando o regime da época, o regime escravocrata, pode ter sido o eixo que moveu e deu força para as mulheres (as seis primeiras negras) e
continua animando, por meio da história, os processos educativos e organizativos da comunidade ainda hoje.
(SILVA, 2012, p.20)
A arte enquanto área do conhecimento, espaço no qual realizei minha formação e onde inscrevo minha vida, entende a questão do feminino, como uma conquista do protagonismo das próprias quilombolas na luta diária por liberdade, conceito onde encontrei seu significado profundo na interação e intervenção em Conceição das Crioulas, que nos ensina que: “a busca da liberdade e a conquista das crioulas foram processos de superação dos limites, geográficos, organizativos, de gênero e racial” (SILVA, 2012, p.64).
O feminino está essencialmente ligado ao discurso de fundação e à identidade de Conceição, numa opinião que destoa da posição do feminino naturalizado e cristalizado no senso comum, orientado pela lógica machista, patriarcal, do poder masculino. Neste sentido, Maria Aparecida de Souza diz: “Tomar o feminino como referente é construir relações sobre outras bases que não a do masculino universal, é recusar erigir modelos que definem todas as outras construções como diferentes” (SOUZA, 2010, p.7). Na fala, na memória e na identidade dos moradores de Conceição das Crioulas persiste essa questão do feminino que destoa da opinião naturalizada do senso comum, machista e patriarcal e que corresponde à própria história da comunidade onde as mulheres assumiram as dinâmicas sociais mais esclarecidas, de organização e de luta.
Com o trabalho de campo realizado fiquei com uma percepção concreta da luta das mulheres pela dignidade quilombola e pelo direito definitivo de seu território, pautas urgentes desta população, e ainda, das experiências positivas deste povo sofrido do sertão, do pioneirismo feminino de organizar uma comunidade em um tempo marcado pelo machismo, o que demonstra também rebelião ao estabelecido.
...pertence à natureza da sombra a característica de desaparecer lodo que é atingida por essa luz intensa; nisso reside a sua diferença em relação à canonização institucional e à transmissão mediática.
(PERNIOLA, 2006, p.10)
Arte como cultura, no contexto quilombola, procurava mostrar a narrativa positiva dos valores estéticos e poéticos de um povo, que por mais de trezentos anos foram escravizados no Brasil, e na atualidade nos ensina a pensar os dilemas da criação artística, e ainda, o que é resistir, e conquistar a liberdade. Na atitude das seis negras percebemos a superação de gênero, a sua mão e a consolidação de uma população.
O estudo que fiz em Conceição das Crioulas mostrou-me a imagem de seis mulheres superando a escravidão, possibilidade remota para o ano de 1802, com fé e trabalho essas mulheres romperam com o que estavam para elas estabelecidos. Procurei também, uma ação de resistência política, busca da liberdade e superação dos dogmas hegemônicos da arte contemporânea.
Pensar que há quase três séculos mulheres negras analfabetas, jamais conseguiriam dar passos tão largos só é possível reconhecendo a capacidade de superação da população negra frente a todos os obstáculos impostos desde sua chegada ao Brasil até os dias de hoje. (SILVA, 2012, p.64)
Para não cair no discurso da felicidade, e da louvação ingênua; a comunidade quilombola de Conceição das Crioulas conseguiu dar passos largos, mas, isso não elimina os problemas atuais, como a não regularização do território, dificuldade de acesso, ou o exemplo da estrada de acesso ao quilombo que teve varias promessas de pavimentação sem a sua efetivação, e a falta de água potável e tratada para consumo doméstico, enfrentados por moradores e visitantes do quilombo e em muitos casos residências inadequadas.
O que pretendo dizer sobre a arte como cultura, é que ela ambiciona observar em cada um dos seus sinais tudo aquilo de que uma cultura é feita – conhecimento, novidade, ditado, adágio, aforismo, axioma, tecnologia, criação, diálogo, hospitalidade, afeto, fé, encanto, laser, brincadeiras, festa de igreja o desconhecido, a fugacidade e a eternidade da caatinga, ou seja, a arte como cultura contempla e compreende o campo da natureza e da criação humana, como já escreveu Vitor Martins:
Precisamente isso: que ela, a Arte, pretende ver em cada um dos seus gestos tudo aquilo de que uma cultura é feita – tradição, inovação, pensamento, saber, educação, terapia, amor, magia, dádiva, cuidado, respeito, trabalho, prazer, festa, eternidade, efemeridade, êxtase, técnica, arte,
infância e tudo o mais. (MARTINS, 2007, p.85)
A investigação e as intervenções artísticas que promovi nas terras das Crioulas fundamentaram-se em diferentes fontes: documentos escritos livros e artigos, para entender a justificativa ideológica do regime escravocrata vigente no Brasil por mais de três séculos, e a memória da comunidade para perceber o sofrimento da opressão, do preconceito e do racismo. Procurei pensar as artes visuais em um quilombo, a partir do legado, da luta, da resistência, da coragem das mulheres negras de
Conceição.
A arte contemporânea instala-se, soberana e autoritária, na trajectória humana que conforma a abundância de poucos perante uma absoluta e larga maioria multilada das suas potencialidades, por condenada ao trabalho e dependente do consumo. (PAIVA, 2009, p.39)
Pode-se afirmar que a arte que estava defendendo em Conceição das Crioulas não priorizava o mercado e a fama, mas sim o sensível, a política, a discussão de gênero, e do feminino na comunidade tradicional, procurava uma construção partilhada e coletiva sem reivindicação de autor e autoria.
O que estava precisamente investigando em Conceição das Crioulas era a negação da arte alienada, fechada para o mercado e como legitimação do poder hegemônico, ambicionava uma arte de ambiência, de intervenção na realidade quilombola, uma arte que investigassem as impossibilidades contemplativas. Criação sem nenhuma presunção de genialidade. Não almejava repetir os cânones das artes clássicas que fogem da realidade concreta. Voltei-me completamente para o dia-a-dia de Conceição das Crioulas a procurar a invisibilidade da ação criativa.