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A democracia política produziu dissenso e, por sua vez, este permitiu a construção e o aprofundamento do espaço público. Os debates em torno da questão democrática travados entre os intelectuais avançaram também no sentido de favorecer a intensificação de um diálogo cada vez mais profícuo entre a academia e a sociedade. Comprimida entre dois contextos políticos diversos, a comunidade docente em trânsito passou a ser requisitada por diferentes grupos sociais, políticos, empresariais e, pelo próprio Estado, a desempenhar novos papéis. Isso implicou uma carga de novos desafios em torno da vida acadêmica: como conciliar uma carreira cada vez mais exigente, burocratizada e repleta de responsabilidades administrativas, educacionais e de pesquisa com a oferta das mais diversas demandas externas? Qual seria o papel da

universidade pública e do intelectual que nela trabalha para a comunidade docente pertencente à Faculdade de Filosofia?

A redemocratização atingiu fortemente o trabalho acadêmico ao apresentar possibilidades amplas de participação dos intelectuais na vida pública. Além disso, a democracia política embaralhou as certezas que existiam durante o consenso imposto pela ditadura, o que levou as forças progressistas a providenciarem a reorganização de seus espaços de atuação.

As histórias de vida acadêmica, bem como a análise dos memoriais de “titulatura” pesquisados, possibilitaram explorar e problematizar como as preferências teóricas e as atividades acadêmicas desenvolvidas pelos docentes dialogaram ao longo do tempo, muitas vezes, através da atuação na política acadêmica, ou, simplesmente, desenvolvendo pesquisas e apresentando posicionamentos críticos diante de problemas relativos à sociedade ou, ainda, desempenhando atividades político-partidárias. A participação dos intelectuais no debate em torno das perspectivas democráticas e a possibilidade de uma participação mais efetiva trazia em sua essência uma nova questão: qual seria o papel desempenhado pelos intelectuais em uma democracia política? Haveria um padrão de comportamento ideal defendido pelos docentes para os intelectuais?

Em se tratando de professores titulares, todos vivenciaram amplamente as várias etapas burocráticas e teórico-intelectuais da atividade acadêmica. No entanto, é preciso reconhecer a existência de ênfases diferentes que marcaram cada história profissional individualmente. Em algumas carreiras identificou-se uma maior propensão e afinidade com questões próprias ao meio acadêmico stricto senso e suas variantes políticas internas, outras, foram marcadas mais determinantemente por atuações para além dos muros da universidade com finalidades políticas explícitas. Em ambos os casos foi necessário observar as diferentes dimensões do político e suas implicações na construção do trabalho e da carreira docente.

Algumas trajetórias acadêmicas possuem relações mais enfáticas com temáticas públicas e, até mesmo, com a participação efetiva dos professores seja na política partidária, seja ocupando cargos no governo. Em outras, percebe-se uma tendência mais fortemente voltada para a produção científica e para o estabelecimento de outras maneiras de dialogar com a sociedade. O objetivo desse capítulo é justamente o de colocar à prova tais tentativas de catalogação, problematizando o conjunto de trajetórias

de vida acadêmica pesquisadas, procurando compreender a relação que os docentes possuem em relação à universidade pública, com o Estado e com o mundo político partidário.

Via de regra, as atividades acadêmicas desempenhadas pelos docentes em questão foram e continuam sendo avaliadas pelos seus próprios pares e pelas agências de financiamento. Portanto, a pesquisa jamais pretendeu questionar a produção acadêmica desses docentes seja em relação a sua periodicidade ou quantidade, trabalho este já realizado pelas agências competentes. A presente investigação esteve preocupada em avaliar e compreender a relação estabelecida por esses professores em relação à comunidade e como mediaram a relação entre universidade pública e espaço público. Diante desse fato, as entrevistas permitiram acompanhar as principais inquietações desses docentes em relação às próprias carreiras e, a partir daí, foi possível apreender algumas considerações a respeito do papel dos intelectuais circunscritas a alguns problemas, a saber:

1) O significado e a importância da questão da autonomia intelectual;

2) A relação dos docentes com o Estado e com cargos nas esferas de governo; 3) A participação em partidos políticos.

Em muitas entrevistas a questão da autonomia intelectual seguramente foi o tom vital imprimido pelos docentes na reorganização das trajetórias apresentadas em forma de narrativa. Alguns professores foram enfáticos em ressaltar que nunca admitiram qualquer ingerência externa sobre o seu trabalho de criação intelectual, fosse na universidade ou fora dela. A condição de funcionário público de carreira permitiu a construção de uma autonomia intelectual responsável pela livre definição de suas trajetórias. Essa nova função interferiu diretamente na forma como esses intelectuais se relacionaram com o Estado, com as diversas esferas de governo, os partidos políticos e a própria vida acadêmica. Como uma das hipóteses dessa pesquisa, acredita-se que a estabilidade propiciada pela carreira consolidada entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, foi responsável pela estruturação de um novo perfil docente caracterizado por uma sólida e consistente independência profissional.

Uma análise que queira vasculhar as relações existentes entre o trabalho científico e as questões políticas não pode aceitar um sistema de interpretação fechado. Deve-se

atentar para as imbricações particulares, caso a caso, entre as perspectivas teóricas e políticas envolvidas. Faz-se necessário ampliar, portanto, a noção de engajamento e de atuação política, afinal, a figura do docente é indissociável da do cidadão, como advertiu Florestan Fernandes.