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› Sébastien Lapaque

Dans le document Sommaire novembre 2016 (Page 142-152)

A criação de um teatro na então cidade de “São Salvador”, em 1806, quando ainda não se cogitava a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, “[...] aponta para a existência de uma ‘política cultural’ mais cosmopolita do governo local” (ROBATTO, 2003, p. 5). Reflete uma mentalidade dos membros da elite da sociedade colonial da Bahia, alinhada com correntes do pensamento iluminista presentes nas iniciativas do governo Pombalino em Portugal (1750-1777). O teatro da corte era de uso exclusivo da nobreza, e os teatros públicos se justificavam pelo

[...] esplendor e utilidade, que resulta a todas as nações do estabelecimento dos teatros públicos, por serem estes, quando bem regulados, escola, onde os povos aprendem as máximas sãs da política, da moral, do amor da pátria, do valor, do zelo, da fidelidade, com que devem servir aos seus soberanos: civilizando-se e desterrando insensivelmente alguns restos de barbárie, que neles deixarão os séculos infelizes da ignorância. (BENEVIDES, 1883 apud ROBATTO, 2003, p. 5).

Figura 6 - Theatro São João - Praça Castro Alves (início século XIX)

Foto: Geraldo Ataíde.

Situado na cidade de Salvador, o Theatro São João da Bahia foi o primeiro grande teatro de ópera do Brasil, “[...] palco principal da representação dos valores culturais, estéticos e políticos da elite de uma das principais cidades das Américas ao início do século XIX.” Uma “[...] testemunha e agente das mudanças que ocorreram nesta sociedade em um período

decisivo para a consolidação do Brasil enquanto nação independente.” (ROBATTO, 2003, p. 1).

Localizado na atual Praça Castro Alves, onde foi construído posteriormente o Palácio dos Esportes, o Theatro São João possuía uma arquitetura no estilo Luís XVI, sendo inaugurado em 13 de maio de 1812, aniversário de Dom João VI. Foi “[...] a primeira grande obra da arquitetura civil de função pública de Salvador, cidade cercada de construções religiosas e militares”, e também “[...] a primeira grande casa construída no Brasil com a finalidade de ser um teatro”. (SAMPAIO, 2005 apud ANDRADE, 2012, p. 416).

O Theatro São João, apesar de ser um equipamento público, possuia uma gestão e uma organização administrativa e financeira realizadas pela iniciativa privada, a qual o Governo fiscaliza. Infelizmente, um incêndio destruiu o Theatro São João em 1923, abrindo uma lacuna de aproximadamente 46 anos, até que o Teatro Castro Alves fosse inaugurado na Praça do Campo Grande. Neste hiato, entre 1921 e 1967, algumas iniciativas de projetos de implantação de um novo teatro público aconteceram, todavia, sem sucesso. Além do Theatro São João, há o registro de outro teatro de grande porte: o Politeama Baiano, de propriedade privada, que existiu em Salvador entre o final do século XIX e o início do século XX. Neste local, atualmente encontra-se o Instituto Feminino da Bahia.

Com o desaparecimento do Theatro São João e do Teatro Politeama, Salvador ficou sem um espaço de grande porte para receber grandes espetáculos locais ou produções de outros estados, ao contrário do que ocorreu nas principais capitais brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Manaus, Porto Alegre e Fortaleza, que possuíam espaços apropriados para receber concertos, recitais e peças teatrais.

Em 1947, o recém-empossado governador Octávio Mangabeira encampa a ideia de construir um moderno teatro de grande porte, no mesmo terreno do Campo Grande para o qual tanto o Governo do Estado quanto a Prefeitura de Salvador vinham elaborando estudos há pelo menos dez anos. Uma campanha deflagada pelos artistas, pelos intelectuais e pela população foi apoiada pelo então deputado estadual Antonio Balbino, que em 1948 encaminhou à Assembleia Legislativa o Projeto de Lei 432, pedindo a construção urgente de um teatro de vulto em Salvador. (TEATRO CASTRO ALVES, 2005, p. 21).

Foi Anísio Teixeira, secretário de Educação e Saúde do Estado da época, quem idealizou um programa para um equipamento cultural concebido para receber as artes cênicas, música e dança, ao tempo que conciliava entretenimento, cultura e formação artística, no âmbito do projeto Educação pela Arte. O próprio nome escolhido para o equipamento, Centro Educativo de Arte Teatral (CEAT), já destacava que, mais do que um conjunto de salas para

apresentação de espetáculos, se tratava de um centro de formação artística – ou, na visão ufanista do governador, um “[...] conjunto educacional, digno de uma cidade que se preza de ter sido o berço da nação.” (MANGABEIRA, 1951 apud ANDRADE, 2012, p. 423). Notamos que o conceito de um centro de referência da engenharia do espetáculo, como existe hoje no TCA, de alguma forma já estava presente no programa elaborado por Anísio Teixeira, no sentido, sobretudo, de entender a importância e o papel da cultura e dos equipamentos culturais no que tange a educação e à formação.

O desejo do governador Mangabeira foi encomendar o projeto desse novo teatro para Diógenes Rebouças (autor dos projetos do Estádio da Fonte Nova, do Centro Educacional Carneiro Ribeiro e do Hotel da Bahia). Mas ele estava sobrecarregado e, na impossibilidade de realizar o projeto, indicou os arquitetos Rocha Miranda e Souza Reis para a tarefa. Coube a estes profissionais a elaboração do primeiro projeto do CEAT-TCA, que previa, além do grande teatro, com 2.400 assentos, um anfiteatro ao ar livre com capacidade para 6.000 pessoas, um Teatro de Comédia, uma boate e a Escola de Arte Dramática.

Apesar do caráter inovador do projeto do TCA no que se refere à forma e à estrutura, a sala principal foi planejada dentro de uma concepção tradicional,

[...] semelhante à maior parte dos teatros construídos no Brasil desde o século XVIII, com um palco italiano separado do auditório pelo fosso da orquestra, pela bambolina e pelos bastidores e com um auditório subdividido em quatro setores, voltados para públicos de diferentes poderes aquisitivos, replicando no teatro a estratificação da sociedade. (ANDRADE, 2012, p. 433).

Figura 7 - Vista interna do TCA antes do incêndio

Tempos depois, o projeto elaborado pelos arquitetos Rocha Miranda e Souza Reis foi abandonado por questões políticas, mas o local destinado ao teatro foi mantido, a Praça do Campo Grande. Nove anos depois, em 1956, após inflamadas polêmicas na cidade, o engenheiro Norberto Odebrecht é encarregado, pelo então governador Antonio Balbino (1955 a 1959), da execução do novo teatro da capital baiana. Em homenagem ao poeta baiano Castro Alves, que tantas vezes recitara e fora ovacionado no antigo Theatro São João, foi dado ao teatro o seu nome. Assim, o novo espaço da cidade de Salvador passa a chamar-se: Teatro Castro Alves.

Norberto Odebretch convidou o engenheiro Humberto Lemos Lopes, seu ex-colega da Escola Politécnica da Bahia, para coordenar o projeto do TCA em parceria com o arquiteto José Bina Fonyat. Em 1957, o projeto recebe uma menção honrosa na I Bienal de Artes Plásticas do Teatro, realizada como parte da IV Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Com a inauguração agendada para 14 de julho de 1958, o Teatro Castro Alves é aberto à visitação pública com uma exposição de fotografias no seu Foyer, em 02 de julho. Contudo, no dia 09 de julho, faltando apenas cinco dias para a sua inauguração oficial, o teatro foi destruído por um incêndio, repetindo a história do Theatro São João. Foi um choque enorme para a sociedade baiana e para o então governador Antonio Balbino, que chegou ao local “de pijama” e viu o teatro quase totalmente destruído pelo fogo. A perícia realizada nos escombros atesta que “[...] um curto-circuito na caixa de luz do palco teria sido a causa da tragédia”. (TEATRO CASTRO ALVES, 2005, p. 24).

Figura 8 - Vista externa do TCA incendiado

Contudo, a classe artística-cultural não abandonou o ideal de um equipamento baiano e, em 1960, em meio às ruínas da sala principal, o diretor teatral Martim Gonçalves, então diretor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, montou a Ópera dos Três Tostões, com cenário da arquiteta italiana Lina Bo Bardi e contando com grande elenco: Helena Ignez, Geraldo Del Rey, Sônia dos Humildes, Jurema Pena, Eugênio Kusnet entre outros. Depois, após o sucesso da Ópera, o mesmo palco incendiado recebe as montagens de Calígula e Por um Triz. Nesta época, Lina Bardi utilizou temporariamente o Foyer da Sala Principal como sede do Museu de Arte Moderna da Bahia, do qual foi diretora de 1960 a 1964.

Figura 9 - Vista interna do Foyer do TCA em 1960

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