Conforme Cardoso, Batista e Graça (2016, p. 374), a identidade profissional é “um processo que se desenvolve durante toda a vida do indivíduo e que sofre influências internas e externas na interação com o outro”. Sendo assim, vimos anteriormente que a presença dos professores homens na docência com crianças pequenas pode trazer, no ambiente escolar, vários questionamentos tanto por parte da equipe escolar como também das famílias. Assim, muitas vezes, esses profissionais têm que “superar preconceitos a provar diariamente sua competência, ou seja, provarem que são capazes de dar conta do trabalho. Competência esta que a professora do mesmo segmento não precisa provar constantemente em seu trabalho” (FONSECA, 2011, p. 37). Diante do exposto, como ocorre o processo de construção identitária dos professores homens no ambiente de trabalho?
Alguns estudos, tais como Silva (2006), Cardoso (2007), Pereira (2012) e Araújo (2015), auxiliam-nos na compreensão de como os professores homens constroem sua identidade na profissão.
Pereira (2012) buscou compreender como os professores homens constroem sua identidade trabalhando em creches e pré-escolas na rede municipal de ensino da cidade de Guarulhos-SP, e utilizou como eixo de análise a categoria gênero. Ela entrevistou cinco professores e, a partir das histórias de vida dos sujeitos investigados, tentou compreender quem são esses professores e como exercem seu trabalho docente na Educação Infantil.
No que tange aos fatores presentes que corroboram na construção da identidade do professor, Pereira (2012) destacou a formação acadêmica em serviço, a reflexão dos professores no espaço escolar, o estudo, a troca de experiências e a convivência entre outros/as professores/as. Nesse sentido, Pereira (2012) salienta que o estudo realizado com os professores da Educação Infantil evidencia que, conquanto haja a incorporação de aspectos da masculinidade hegemônica, as experiências vivenciadas com as crianças e demais mulheres profissionais no espaço escolar propiciam mudanças relacionadas as próprias subjetividades desses docentes, que se manifestam por meio da narrativa das práticas com as crianças. Contudo, Pereira (2012) afirma que a identidade docente ainda está em construção, dado o contexto histórico da Educação Infantil.
Nessa mesma linha, a constituição da identidade profissional do professor homem investigado por Souza (2010) e que trabalhava na creche foi se construindo a partir das vivências e experiências com os outros profissionais da instituição e da busca do professor em atender às expectativas das famílias no que concerne às condutas desenvolvidas com as crianças no cotidiano da escola, e que, em sua percepção, eram consideradas mais adequadas para o desenvolvimento de um trabalho com crianças. Souza (2010) também demonstrou, a partir dos depoimentos de seu investigado, que o fato dele ser pai contribuía para definir o papel do professor na Educação Infantil e facilitava a relação dele com as crianças.
Já sobre a constituição da identidade de professores homens que atuam nos anos iniciais, Silva (2006) buscou compreender a constituição identitária de três professores homens que trabalhavam nas Séries Iniciais, numa rede municipal de Divinópolis-MG, e como eles lidavam e percebiam o seu corpo na interação com seus alunos. A partir das histórias orais e das observações desses professores no ambiente de trabalho, Silva (2006) construiu e reconstruiu as histórias de vidas dos sujeitos por ele investigados e demonstrou como as suas masculinidades eram construídas na relação com os/as alunos/as e com a equipe da escola. Após discutir densamente sobre as trajetórias de vida dos três sujeitos investigados de sua pesquisa, Silva (2006) destaca que a construção corporal dos docentes é um processo complexo e contínuo, marcado pelas vivências e relações estabelecidas com as famílias, crianças, professores e com outros sujeitos que passaram pelo percurso de suas vidas.
Araújo (2015) também realizou sua pesquisa com um professor atuante nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental em uma escola pública na cidade de Paraíba-PI e investigou os sentidos e os significados que o professor homem produz sobre o exercício docente nos Anos Iniciais e a sua correlação com a constituição da sua identidade.
Por meio da aplicação de entrevista narrativa com um professor, Araújo (2015) chegou a três núcleos de significação: o primeiro, intitulado “ser professor constituído no dilema objetividade e subjetividade”, foi resultante da articulação dos indicadores: ideia de dom e as experiências vividas na infância determinaram a escolha da profissão; formação em múltiplos espaços; o professor sente que foi bem formado para exercer a profissão. O segundo núcleo de significação foram as “relações de amizade e de confiança com os/as outro/as mediando a constituição de bem-estar em relação à profissão”, com seus respectivos indicadores: aceitação do professor pela comunidade; o professor busca fazer amizade e ganhar a confiança dos/as alunos/as; respeito e confiança com os demais profissionais da escola; alcance dos objetivos gerando sentimentos de conquista e realização; indicações de
bem-estar em relação à profissão. Por fim, o terceiro núcleo de significação destacado por Araújo (2015) foi “quando o ser homem prevalece sobre o ser professor: o conhecimento de si e do outro” e seus indicadores: tristeza e desespero nas situações em que o professor se sentiu rejeitado por ser homem; ser homem é um fator que dificulta o ingresso em escolas privadas; cuidados na relação professor-aluno/a; o professor defende sua singularidade entre outros professores homens; reconhecimento de que os casos de rejeição são minoria.
A partir das análises dos Núcleos de Significação, Araújo (2015) esclarece que as zonas de sentidos produzidos evidenciaram que ser professor desvenda um dilema ancorado na objetividade e na subjetividade, em que o professor sente a necessidade de associar a profissão docente à ideia de dom e ao reconhecimento das condições materiais e históricas, e, “ao mesmo tempo, ele nos oferece indícios de que as vivências de uma infância rodeada pelas irmãs professoras podem ter contribuído de alguma forma para a sua escolha profissional” (ARAÚJO, 2015, p. 149).
No segundo Núcleo de Significações, as zonas de sentidos produzidas pelo professor baseiam-se nas relações interpessoais vivenciadas por ele no cotidiano de suas práticas. A amizade e a confiança prevalecem na relação do professor com as famílias e seus/suas alunos/as, e interferem no desenvolvimento do bem-estar e no estado afetivo em relação à profissão docente. Nesse contexto, o professor “conquistando a amizade e a confiança dos/as alunos/as, consegue realizar um bom trabalho sem prejudicar o desempenho curricular deles. Esses resultados geram sentimentos de conquista e de realização que o motivam a prosseguir na docência” (ARAÚJO, 2015, p. 150).
A análise do terceiro Núcleo de Significações, por meio das vivências do professor como também pelas suas significações, revelou que “às vezes, a condição de ser sujeito do sexo masculino prevalece sobre a condição de ser sujeito com formação específica para atuar nesse nível de ensino” (ARAÚJO, 2015, p. 134). O professor se identifica como um sujeito singular e se sente capaz de ter um posicionamento positivo ou negativo frente aos papéis que a sociedade determina como sendo apropriados para o homem professor e para as professoras que trabalham com crianças pequenas. Contudo, Araújo (2015, p. 134) sublinha que
a identidade é constituída na articulação da diferença e da igualdade, assim, Principezinho se reconhece como diferente (conhecimento de si) de outros professores homens (conhecimento do outro). Não obstante, em sua
narrativa, ele reitera que o conhecimento acerca do professor é determinante nas suas condições de ingresso na profissão.
Nesse sentido, compreende-se, de acordo com as argumentações de Araújo (2015), que a identidade do professor constituída pela diferença tem implicações no fato de que ser professor do sexo masculino influencia primeiramente na inserção do professor em escolas particulares, por exemplo. Já a construção da identidade com base na igualdade implica que, quando todos os/as professores/as possuem formação específica para atuar na docência, em um concurso, por exemplo, eles concorrem à vaga democraticamente, sem distinção de gênero. Em síntese, Araújo (2015) ressalta que as zonas de sentidos produzidas pelo professor indicam uma significação da profissão docente como uma tarefa em que o amor é crucial para o exercício da docência, deixando para o segundo plano de suas significações a formação dos/as professores/as e o gênero. As relações de amizade e confiança estabelecidas pelo professor determinam seu modo de sentir, pensar e agir, e expressam sua identidade na personagem de um professor amigo e conselheiro.
Diante do exposto, não podemos dizer que o ambiente escolar esteja livre de tensões e conflitos entre professores e professoras, em que as relações de gênero são representadas e que, certamente, influenciam não apenas nas relações de trabalho, mas, de modo mais amplo, nas vidas dos professores. Cardoso (2007) desenvolveu sua pesquisa com professores homens que trabalham com crianças de 6 a 8 anos na rede municipal de Belo Horizonte-MG, em 2004. Seu trabalho buscou compreender como os professores constroem sua identidade e como eles lidam com as questões de gênero no cotidiano das escolas. O autor argumenta, por meio dos relatos dos professores homens, que eles não identificaram a docência com as crianças pequenas como uma profissão feminina, e que as questões de gêneros estão representadas de forma desigual em relação às professoras mulheres. Desse modo, a maioria dos homens sempre se colocou em posição vantajosa, e se considera independente das mulheres para desempenharem sua função. Outro apontamento feito por Cardoso (2007) são as maiores oportunidades que os professores homens têm de ascensão na carreira, pois ocupam cargos administrativos, de chefia, como uma forma de sair da sala de aula. Sendo assim, alguns professores também relataram a facilidade de migrar da sala de aula para outras funções da escola.
a construção da identidade dos professores pesquisados é marcada pela presença (ou pela ausência) dos homens no Magistério. É preciso considerar que os diversos discursos e as diversas imagens sobre os professores homens que circulam em nossa sociedade, historicamente construídas, norteiam as diferentes experiências desses sujeitos nas escolas em que trabalham.
Nesse sentido, percebemos que os significados de masculinidades e feminilidades atribuídos à docência mediam os sentidos e os significados dos professores homens na docência com crianças pequenas, pois são vários os estereótipos que surgem sobre os homens e as mulheres. Para as mulheres, são atribuídas características como dóceis, afetivas e relacionais e, para os homens, militaristas, racionais e agressivos (VIANNA, 2002), e, consequentemente, essas representações podem interferir nas experiências vivenciadas pelos professores homens no ambiente escolar. Esse quadro pode ter influenciado, quando em interface com as condições salariais pouco atrativas da profissão docente, os resultados sobre os professores homens na região pesquisada, apresentados na primeira seção deste capítulo, destacando a presença/ausência dos professores homens em todos os níveis de ensino da Educação Básica nas cinco cidades investigadas (Mariana, Ouro Preto, Itabirito, Acaiaca e Diogo de Vasconcelos).
Diante da discussão sobre o que dizem as pesquisas acerca das experiências vivenciadas pelos docentes do sexo masculino no exercício profissional na Educação Básica no Ensino Fundamental I, e da construção de um cenário em que apresentamos, de modo geral, os professores homens da região pesquisada, no capítulo seguinte, buscaremos compreender, do ponto de vista teórico, os aspectos que circundam a temática da influência de um “ser pai professor” nas práticas educativas familiares e no acompanhamento da escolarização dos filhos. Na nossa perspectiva, essa influência, já apontada em outros trabalhos e denominada como “efeito pai professor” (NOGUEIRA, M. O 2011, 2013; 2015; NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2017), precisa ser discutida a partir de uma compreensão mais ampla dos estudos do campo da Sociologia da Educação que focalizam a relação entre famílias e escolarização, para que se torne possível a emergência do objeto principal e particular desta pesquisa: as práticas educativas de pais professores homens na vida escolar dos filhos.
2 RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA E OS ESTUDOS SOBRE OS PAIS