4.4 Exemples d’op´ erations r´ ealisables
4.4.2 Rotation d’images
Estrutura das Revoluções Científicas (1962)
A experiência que colocou a questão filosófica da incomensurabilidade teórica às vistas de Kuhn ocorreu em 1947. Nessa data, enquanto cursava a pós-graduação em Física, ele
58 Anos antes, Feyerabend já afirmou: “Suas predileções implícitas em favor do monismo (por um paradigma)
leva-o a uma descrição falsa dos eventos históricos. Você toma por um paradigma (a física clássica, por exemplo) o que, na verdade, é um amontoado de alternativas (ação por contato: Maxwell vs ação à distância: Newton; reversibilidade: Newton vs irreversibilidade: Clausius; a transformação de Galile[u]: Newton vs invariância de Lorentz: Maxwell). O que apenas confirma o que eu disse [anteriormente], ou seja, que você não apenas escreve, e nada mais, mas que você apresenta uma ideologia; e uma ideologia monolítica bastante questionável […] com relação a isso você realmente é bem semelhante àqueles que indicam a história com vistas a justificar seus crimes. Você é um místico, um irracionalista” (PKF 1995 [1], p. 387).
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se envolveu com a preparação de uma disciplina de história da mecânica para estudantes de outras áreas. A matéria foi nomeada O desenvolvimento da mecânica de Aristóteles a Newton e começava com o esclarecimento das leis naturais postuladas na Física do pensador estagirita. Em seguida, discutia a cinética medieval e o a física clássica de Galileu e Newton. A preparação dessas aulas exerceu uma “extrema influência” sobre o pensamento do filósofo. O fruto mais notável desses estudos foi o texto que, cerca de quinze anos depois, apareceria com o título A Estrutura das Revoluções Científicas (KUHN, 2000/2006, p. 348-355). Porém, Kuhn descobrira o termo incomensurabilidade anos antes, quando estudava a explicação pitagórica para a irracionalidade da raiz quadrada: “Aquilo foi extremamente instigante”, ele comentou. “[E]u aprendi aí e nesse momento o que era incomensurabilidade” (KUHN, 2000/2006, p. 359). Contudo, a aplicação da “metáfora matemática” à dinâmica cientifica somente adquiriu um sentido filosófico quando o autor pretendeu explicar a transição da filosofia natural de Aristóteles para a mecânica newtoniana. A Física parecia desprovida de sentido, nada além de um amontoado de “conclusões implausíveis” derivadas de especulações de um “físico terrível” e “ignorante em mecânica”. Porém, Kuhn ponderou:
[E]m vez de ser uma falha de Aristóteles, não seria uma falha minha? Talvez suas palavras não tivessem sempre significado para ele e seus contemporâneos exatamente o que significavam para mim e para os meus. (KUHN, 2000/2006, p. 27).
O testemunho do filósofo mostra que seus estudos tomaram um novo rumo após essa mudança de perspectiva. “Enunciados que antes pareciam erros clamorosos”, ele assumiu, “assemelhavam-se, agora, na pior das hipóteses, a pequenos erros no interior de uma tradição poderosa e igualmente bem-sucedida” (KUHN, 2000/2006, p. 27). Kuhn não usou o termo “incomensurabilidade” até o contexto do A Estrutura das Revoluções Científicas. No entanto, o “impulso prototípico” da versão kuhniana dessa tese, em 1962, partiu da radical reorganização intelectual proporcionada pelo citado incidente aristotélico. Assim, sua definição foi forjada a partir de estudos históricos sobre o avanço científico. “O caminho de Kuhn para a incomensurabilidade aconteceu”, reforça Hoyningen-Huene (2005, p. 151), “mediante seu encontro, semanticamente mediado, com a física aristotélica”. Com efeito, o conceito de incomensurabilidade no A Estrutura das Revoluções Científicas pretende englobar três fatores da relação entre tradições científicas: (i) mudanças semânticas, (ii) incompatibilidades metodológicas e (iii) discordâncias perceptivas.
A incomensurabilidade conceitual apresenta as “mudanças destrutivas” que ocorrem no âmbito semântico. Essas rupturas impedem a compreensão da troca teórica segundo o modelo tradicional da “inclusão lógica” das teorias concorrentes (2.2.1). A transição da física
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de Newton para a concepção de universo einsteiniano é um bom exemplo disso. Kuhn (1962/2001, p. 189) afirma que, nesse episódio, “toda teia conceitual cujos fios são o espaço, o tempo, a matéria, a força, etc. teve que ser alterada e novamente rearticulada”. Qualquer tentativa de dedução de proposições einsteinianas, partindo de parâmetros newtonianos, implica uma “derivação espúria”. É implausível reformular os conceitos clássicos nas bases relativísticas, por exemplo, limitando a aplicação daqueles a baixas velocidades:
[O]s referentes físicos desses conceitos einsteinianos não são de modo algum idênticos àqueles conceitos newtonianos que levam o mesmo nome (A massa newtoniana é conservada; a einsteiniana é conversível com a energia. Apenas em baixas velocidades relativas podemos medi-las do mesmo modo e mesmo então não podem ser consideradas idênticas) […] a transição da mecânica newtoniana para a einsteiniana ilustra com particular clareza a revolução científica como sendo um deslocamento da rede conceitual através da qual cientistas vêem o mundo. (KUHN, 1962/2001, p.136-137).
A incomensurabilidade metodológica assevera que paradigmas conflitantes estabelecem padrões científicos incompatíveis em três níveis inextrincáveis: (1) nos
procedimentos adequados para solucionar uma questão, (2) nas áreas de pesquisa (ou nas “listas de problemas”) consideradas relevantes e (3) nos modelos admissíveis para fornecer respostas. Com a redefinição da compreensão acerca do significado da investigação científica – o que repercute na consideração sobre a própria ontologia de entidades constituintes da “realidade”, alguns problemas perdem importância, desvalorizando imediatamente tanto os métodos usados para solucioná-los como suas possíveis respostas. Um exemplo retirado do próprio texto kuhniano vale de suporte. A química anterior a Lavoisier atribuía especial importância ao problema da “qualidade” das substâncias químicas e das mudanças experimentadas por elas durante as reações. A acidez ou o caráter metálico eram explicados empregando noções como “princípios elementares” daquelas qualidades. Porém, as pesquisas consecutivas eliminaram do campo os “princípios químicos” como o elemento explicativo das “qualidades” das substâncias. Por conseguinte, houve o abandono das explicações disponíveis e das questões propostas à época.
O terceiro tipo de ruptura paradigmática tem relação com a incomensurabilidade
perceptiva. As trocas paradigmáticas ocasionadas por revoluções científicas geram uma mudança drástica na forma como o cientista concebe (instrumental e cognitivamente) o mundo. Utilizando ferramentas e noções novas, pesquisadores adeptos de escolas rivais
observam objetos de pesquisa às vezes incompatíveis entre si. Maneiras originais de compreender o “mundo” e interpretar a natureza permitem que eles apresentem relatos observacionais conflitantes sobre objetos familiares. Além disso, novos fenômenos podem
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emergir dessa mudança de perspectiva. Kuhn foi claro ao sustentar que “os proponentes dos paradigmas concorrentes praticam seus ofícios em mundos diferentes” (KUHN, 1962/2001, p. 190). Porém, ele não defende um construtivismo ontológico segundo o qual o percipiente consegue fazer surgir ou desaparecer fenômenos em seu campo visual, como muitos críticos têm indicado.59 O filósofo mostra que revoluções científicas mudam a forma da “percepção”. Mas ele destaca que essa modificação ocorre internamente aos “compromissos de pesquisa” do cientista. “[F]ora do laboratório”, Kuhn explica, “os afazeres cotidianos em geral continuam como antes” (KUHN, 1962/2001, p. 146). As revoluções científicas derrubam tradições, conceitos, métodos, instrumentos e problemas antigos. Ao mesmo tempo, colocam sob um enquadramento distinto a percepção do objeto objetivado. “Depois de fazê-lo”, lemos, “o mundo de suas pesquisas parecerá, aqui e ali, incomensurável com o que habitava anteriormente” (KUHN, 1962/2001, p. 146). Assim, está certo quando Sankey (1993, p. 760) diz que “a noção de incomensurabilidade de Kuhn envolveu diferenças semânticas, observacionais e metodológicas entre […] paradigmas”.