3.4 Description de haut niveau
3.4.5 Fusion de descriptions
Na detalhada apresentação que fazem do pensamento do físico dinamarquês, Faye & Folse (1998, p. 14) afirmaram que “Niels Bohr foi vago em mostrar como, exatamente, devemos preservar esses conceitos clássicos, um aspecto que críticos têm enfatizado”. Isto posto, é possível imaginar que o tenso desacordo de Feyerabend com relação à concepção bohriana – também centrado naquela exigência de manutenção do vocabulário clássico – surja da constatação de algum tipo de “lacuna” nos argumentos do cientista.5 “A idéia de
complementaridade [defendida por] Bohr teve origem como uma tentativa de projetar uma imagem consistente e completa do comportamento dos sistemas microfísicos”, Feyerabend anunciou na conferência proferida, em 1958, por ocasião dos encontros promovidos pela
Aristotelian Society (PKF/MT, p. 117).6 “Seus argumentos a favor dessa imagem e contra alternativas”, comentam, “são baseados, em parte, em investigações empíricas e, também, em análises filosóficas”. “No presente texto”, ele escreveu, “obrigo-me a explicitar as suposições sobre as quais repousa essa análise” (FEYERABEND; McKAY, 1958, p. 75).
São “duas idéias filosóficas simples e gerais” que, na visão de Feyerabend, constituem o escopo filosófico das concepções físicas de Bohr. Em primeiro plano, há a afirmação de que as experiências são organizadas segundo propriedades categoriais que têm um primado sobre aquelas: “[N]enhum conteúdo pode ser apreendido sem um arcabouço formal”, sentenciou Bohr (1949/1995, p. 81).7 Mas, em particular, temos interesse em discutir
os inconvenientes metodológicos e as inconsistências históricas aparentemente conjugados àquele pressuposto bohriano de manutenção do vocabulário clássico na descrição dos eventos quânticos. Afinal, tal debate parece preparar as linhas gerais da crítica feyerabendiana à
concepção reducionista do progresso científico que compõe o núcleo a tese da incomensurabilidade em 1962.
5 Tal suspeita não é improvável. Feyerabend estudou detalhada e exaustivamente, ao longo de toda sua produção,
os tratamentos de questões epistemológicas realizados nas bases do princípio de complementaridade. Algumas das principais publicações se encontram em PKF/PP1, p. 23-24; PKF 1960, p. 222-232 e PKF 1961. Considerações posteriores acerca da teoria atômica podem ser vistas em PKF/CA, p. 217-237.
6 Esse trabalho não foi explorado por Silva (1996), Preston (1997) ou Oberheim (2005).
7 Partindo disso, Feyerabend conclui que um dos pontos de partida da epistemologia bohriana retoma um tópico
classicamente vinculado à filosofia de Kant, o qual afirma logo na abertura da Crítica da Razão Pura que nosso conhecimento empírico se apresenta como um composto das impressões recebidas pelos sentidos e das estruturas
a priori que a nossa faculdade cognoscitiva lhes adiciona. Não nos deteremos na análise dessa primeira suposição do pensamento de Bohr – a qual Feyerabend diz “estar bem disposto a acompanhar” (PKF/PP1, p. 22). Daremos atenção especial a esse “caráter onipresente” das teorias na seção 2.2.2.
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Existe um argumento falibilista e um argumento histórico no núcleo dos ataques de Feyerabend à resolução bohriana de que “a descrição de todos os dados deve ser expressa em
termos clássicos” (BOHR, 1949/1995, p. 50). No primeiro, a objeção central concerne ao entusiasmo excessivo quanto às potencialidades explanatórias dos conceitos clássicos. Feyerabend entende que, para o cientista dinamarquês, “os princípios fundamentais da física clássica são absolutamente corretos”. Assim, o objetivo da ciência seria “encontrar as forças apropriadas para a explicação […] do comportamento de um sistema mecânico” (PKF 1961, p. 385). Por isso, o físico insistia na “impossibilidade de inventar um novo esquema conceitual que substituirá os conceitos clássicos no domínio quântico” (PKF 1961, p. 387). Mas esse conjunto de noções pode “levar à estagnação e ao dogmatismo” no terreno da física. Assim, sob um ponto de vista falibilista, é preciso recusar a existência de elementos teóricos (conceitos, leis, postulados etc.) assumidos como imbatíveis no âmbito gnosiológico.8 “Como oposto ao positivismo”, Feyerabend afirmou em 1958, “não admit[o] qualquer sentença dogmática ou incorrigível no campo do conhecimento” (PKF/PP1, p. 36). “Com respeito às teorias”, ele diz, “é preciso destacar que não apenas somos capazes de usá-las para fim de predição e descrição, mas que também podemos inventá-las” (PKF 1961, p. 387). Apostando no “engenho” dos cientistas em formular de hipóteses científicas – sendo isto uma arma poderosa contra qualquer espécie de dogmatismo na ciência – o filósofo recusa o privilégio de algum grupo de termos no que tange à descrição de experiências físicas. “Como nosso argumento é bastante amplo”, ele conclui, “parece aplicar-se também aos conceitos clássicos” (PKF 1961, p. 389).
O argumento histórico mostra que o rompimento conceitual com padrões terminológicos estabelecidos conduziu a mudanças importantes no campo da ciência. Recheando sua convicção falibilista, Feyerabend lembrou que a substituição da física e da cosmologia antigas pela física moderna de Galileu e Newton aniquilou o único aparato conceitual disponível à época. Isto é, a mecânica inercial derrubou a base “inamovível” dos princípios da teoria cinética aristotélica (2.2.2.1). “O que era preciso [para realizar tal mudança teórica]”, o austríaco nos ensina, “não era o aprimoramento dos conceitos aristotélicos; mas uma teoria inteiramente nova” (PKF 1961, p. 387-388). A transição da mecânica newtoniana para a teoria relativística einsteiniana também sugestiona o valor da formulação de teorias incongruentes com hipóteses estabelecidas. A validade epistêmica das
8 Oberheim (2005, p. 376) resume a postura de Feyerabend nos lembrando que “apenas porque os conceitos
clássicos foram bem-sucedidos no passado, e porque nesse momento nos parece ser difícil, ou mesmo impossível, imaginar como os substituir, não se segue disso que a estrutura clássica não poderia ser superada”.
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novas propostas não se relaciona com sua consistência lógica ou permanência conceitual9 relativamente às noções precedentes:
Pois podemos encontrar uma teoria cujo aparato conceitual, quando aplicado ao domínio de validade da física clássica, seria tanto compreensível como útil, sem coincidir com ela. Tal situação não é incomum. [Por exemplo,] os conceitos da teoria da relatividade são suficientemente ricos para permitir-nos estabelecer todos os fatos que foram anteriormente abordados com o auxílio da física newtoniana. Não obstante, esses dois conjuntos de categorias são completamente diferentes e não compartilham relações lógicas um com o outro. (PKF 1961, p. 388).
Tendo isso em vista, conclui-se que a exigência bohriana de preservação do vocabulário clássico carece suporte epistêmico ou histórico. O “princípio da complementaridade” das descrições dos fenômenos apenas apresenta relevância se pudermos “falar de experiências bem definidas apenas na estrutura de conceitos ordinários” (BOHR, [1937] 1998, p. 87). Contudo, não existem conceitos irretorquíveis no domínio do conhecimento, conforme defende o argumento falibilista. Além disso, episódios científicos progressivos derivaram da redefinição do aparato conceitual tradicional, conforme ajuíza o argumento histórico. O suposto “caráter infalível” dos termos clássicos ilustra, pois, a vigência de elementos dogmáticos no coração da interpretação bohriana da mecânica quântica. O requisito de manutenção dos termos clássicos é metodologicamente nocivo porque impede o surgimento de alternativas à interpretação complementar da microfísica. Mas a exigência bohriana também é desamparada historicamente, afinal avanços teóricos genuínos não respeitaram o ditame de preservação do aparato conceitual estabelecido. Enfim, na leitura de Oberheim (2005, p. 376), Feyerabend atacou nessas duas frentes o “conservadorismo injustificado” de Bohr.
O termo “incomensurabilidade” ainda não havia aparecido nos textos de Feyerabend na época desse combate à epistemologia bohriana. Preston (1997, p. 102) diz: “As primeiras ocorrências da idéia de incomensurabilidade (embora não propriamente o termo) nos trabalhos publicados de Feyerabend encontram-se nos artigos sobre a complementaridade”. Porém, o comentador não nos dá maiores informações a respeito dessa ocorrência. Por sua parte, Oberheim (2005, p. 376) afirma que “o argumento de Feyerabend contra a alegação de Bohr se baseou na idéia de que novos conceitos incomensuráveis poderiam ser inventados e um dia poderiam mesmo ser usados para substituir as descrições clássicas”. No entanto, os comentadores não destacam que a reportada “dupla objeção” feyerabendiana inclui um novo procedimento argumentativo: o autor do Contra o Método emprega exemplos históricos de
9 Vemos nisso uma crítica preambular às condição de consistência e condição de invariância do significado que,
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trocas teóricas descontínuas com vistas a sugerir que o avanço científico é compatível com
rupturas lógicas e variações conceituais. De todo modo, ao investigar os fundamentos epistemológicos da concepção bohriana Feyerabend reconheceu situações de fissura formal e terminológica no avanço teórico. Ele vislumbrou, então, que a dinâmica da científica viola as condições de consistência e invariância do significado pressupostas pelos modelos acumulacionistas do progresso gnosiológico. É exatamente para descrever essa situação que, no seminal “Explicação, redução e empirismo”, o austríaco empregará o termo
incomensurabilidade. Assim, devido à falta de apoio textual dessa leitura, questionamos as ideias de Oberheim (2005) quanto à descoberta feyerabendiana da “metáfora matemática” naquela palestra em Askov. Preferimos dedicar nosso último fôlego genealógico à sugestão de que os argumentos que o filósofo emprega contra a epistemologia de Bohr se identificam com o cerne da original contribuição feyerabendiana ao Minnesota Studies in the Philosophy of
Science, editado em 1962.
2.2 RESOLUÇÕES FEYERABENDIANAS SOBRE A DINÂMICA CIENTÍFICA NO