Uma das questões levantadas por vários pesquisadores bíblicos250 é a data da composição da narrativa ou da apropriação da tradição de Rute pelos editores
246 Segundo Athalya Brenner, Rute é aceita em Israel por cumprir algumas exigências que podem ser
tacitamente notadas no texto, as quais incluem sua bondade (Hesed), demonstrada na fidelidade para com sua sogra, uma israelita, e para com sua família, pela disposição de abandonar completamente sua origem familiar, com suas divindades, e adotar o estilo de vida e religiosidade israelitas, favorecendo a ordem social da nação. BRENNER, A., op cit., págs. 197-203.
247 Conforme Athalya Brenner entende-se não serem os midrashes representações de posicionamentos
científicos quanto aos estudos das narrativas bíblicas. Mas uma vez que esta dissertação trata também de interpretações religiosas que afetaram a caracterização das mulheres justamente derivadas das diversas leituras bíblicas do final do período clássico, é importante considerarmos as interpretações midrashicas também. Ibidem, págs. 210-212.
248 BOYARIN, D., “Israel Carnal, Lendo o Sexo na Cultura Talmúdica”, 1994: 35-37. Sobre o valor
dado à modéstia feminina ver também BRONNER, L. L., “Uma abordagem Temática de Rute na Literatura Rabínica”, in BRENNER, A. (org), op. cit., pág. 211.
249 BRENNER, A., op. cit., pág. 218.
250 HALS, R. M., The Theology of the Book of Ruth, SASSON, J. M., Ruth, A New Translation, with a
bíblicos, um elemento que seria esclarecedor quanto à intenção do texto. Mas as dificuldades de se estabelecer esta data talvez tornem a tarefa impossível.
Alguns estudiosos251 a colocam próximo aos acontecimentos narrados em Juízes, ou ainda entre os séculos X e VII A. E. C., baseados em elementos lingüísticos, prosa clássica, perspectivas legais e teológicas. A anarquia e a desintegração social fazem um contraste com a temática do livro que enfatiza o companheirismo feminino, a renovação social, e a ordem familiar como sendo um antídoto para o estado caótico das coisas.
Outros252 a colocam próxima aos acontecimentos narrados em Esdras e Neemias, após o retorno dos exilados da Babilônia para a Judéia. Esta data para a narrativa de Rute seria um argumento a favor daqueles que defendem que essa serviria como um argumento a favor de uma maior tolerância para com o elemento estrangeiro253, e feminino.
Alguns pesquisadores supõem haver remanescentes de traços aramaicos, e elementos como Antigüidade dos costumes (Rt 4:7), discrepâncias em relação à lei de Deuteronômio 25, e o “universalismo contra o nacionalismo”, que justificam esta data mais recente para o livro de Rute. 254
Calum Carmichael255 comenta que:
“... a narrativa de Rute e seu tempo enquadram-se ao drama da escolha entre a monarquia inspirada no modelo das nações idólatras vizinhas a Israel e o governo por colegiado de líderes tribais como estava estabelecido no tempo dos Juízes”.
Rute, segundo o mesmo autor, serve de base para inspirar e justificar a instalação da monarquia judaica sobre Israel e especialmente para justificar Davi como cabeça desta monarquia, uma vez que ele é descendente de moabitas, os quais se tornam inimigos de Israel.
O que restava ao editor da tradição de Rute era justificá-la perante a nação e dar a ela contorno aceitável ao monoteísmo sacerdotal que exercia domínio político sobre Israel.
251 Ibidem, ABD.
252 Ibidem.
253 EMERTON, J. A., op. cit., págs. 409-410. Ver também BRENNER, op. cit., pág. 105.
254 Sobre o conflito de datas ver também BRENNER, A., “Rute a partir de uma leitura de Gênero”, op.
cit.
A autoria do texto também se torna problemática e a discussão desta questão é bastante pertinente aos interesses desta dissertação.
Goitein256 sugere que o livro tenha sido escrito por uma mulher idosa, talvez Noemi, por tratar de interesses femininos, com ênfase na própria Noemi e não em Rute.
Meyers257 também crê na autoria feminina para a narrativa de Rute. Uma das evidências em que Meyers se baseia está no uso da expressão “bet’em”, “casa da mãe”, por Noemi ao sugerir que suas noras deveriam retornar para sua família de origem. Uma autoria masculina, segundo ela, nos moldes da tradição literária israelita, talvez não se referisse à casa da mãe, mas à casa do pai, o
“bet’ab”.
Carol Meyers258, afirma: “o androcentismo dominante da Escritura é
quebrado pelo ginocentrismo de Rute”.
Meyers comenta que Rute, bem como Ester, são os dois únicos livros da Bíblia que levam nomes de mulheres, mas Rute se diferencia deste último por se tratar quase que inteiramente de Histórias de mulheres buscando resolver à sua própria maneira, problemas de mulheres.
Ester, mesmo sendo a heroína da narrativa, está envolvida em interesses nacionais predominantemente masculinos, e compartilha seus atos com Mardoqueu.
Em Rute, porém, os homens não são valorizados, existindo em papéis secundários, ou até representados negativamente como tendo abandonado sua terra e morrido prematuramente, não deixando descendentes, ou recuando do seu dever de resgatador.
Percebe-se, pela quantidade de diálogos, que toda a narrativa é dominada por mulheres, que compõem a maior parte das falas.
O diálogo de Boaz com Rute é secundário259 para a narrativa, e ele nem se quer chega a ser visto falando com Noemi, que encabeça toda a trama.
256 GOITEIN, S. D., Iyyunim ba-miqra, pág. 252, nota. In BRENNER, A., op cit., pág. 12.
257 MEYERS, C., “De Volta para casa: Rute 1:8”, e a “Definição do Gênero do Livro de Rute”, in
BRENNER, A. (org), op. cit., págs. 20, 112-150.
258 Ibidem.
259 “LaCoque salienta que o aparecimento de Boaz não interfere no papel central da dupla Noemi-
Rute. Depois do casamento, a história continua a girar ao redor de Rute e Noemi, e não de Rute e Boaz, e o papel de Boaz como pai de Obed é virtualmente ignorado... O midrash sobre Rute considera Boaz secundário: “Ele morre no dia imediato ao casamento” (Ruth Zuta 55; Lekah Tov [Ruth] 4,17).
Apesar de seu diálogo carregado de determinação e autoridade no portão da cidade junto aos anciãos, no final ele desaparece, voltando-se a narrativa para Rute que gera um filho (homem) para Noemi, que o adota, e também para as vizinhas, mulheres, que atribuem nome ao menino, observado a partir do versículo 14, do capítulo 4 de Rute.
Em algumas ocasiões Boaz, tece elogios, faz recomendações com respeito à moça para que seus servos a protejam, faz com que lhe providenciem água, e a coloca entre as demais moças que trabalham para ele.
Os interesses especiais de Boaz por Rute estão claros nessa narrativa e há a intenção do narrador em preparar a justificativa para que Rute seja vista como digna de pertencer à nação por seus atributos como mulher de valor suficiente para ser aceita em Israel.
A linguagem do narrador nos versículos 11 e 12 do capítulo 2 soam como que profecia. Ele prediz como seria o final da vida de Rute enquanto uma heroína para a nação, acentuando sua conversão ao Deus de Israel (“Seu Deus será o
meu Deus...”), o abandono de sua terra natal, e de seus vínculos familiares de origem, para assumir sua nova identidade e papel social, o que é um conceito essencial para sua plena aceitação.
Senão por outro motivo, a hipótese da autoria feminina do texto parece plausível por refletir a mulher de uma perspectiva bastante favorável.
Por outro lado, tal hipótese é pouco sustentável se considerar-se que o livro talvez seja produto de literatura masculina por refletir uma disciplina patriarcal uma vez que está voltado para questões de genealogia e herança.
De qualquer maneira, ainda não se pode aceitar com segurança uma ou outra autoria, mas pode-se aceitar o fato de que se trata da busca, pelo menos por parte do editor bíblico, de fortalecer a ordem social e justificar o desenvolvimento das genealogias que envolvem o estabelecimento da dinastia davídica, como pode-se
LACOQUE, A., The Feminine Unconventional: Four Subversive Figures in Israel’s Traditions, Minneapolis, Fortress Press 1990: 111. In BRENNER, A., “Rute, a partir de uma leitura de gênero”, pág. 112, nota 1. Se o midrash dá esta interpretação à saga de Rute, significa que no tempo dos midrashistas, e para estes, a mulher era tida em melhor consideração mesmo que apresentando comportamento suspeito. A morte de Boaz colocada logo após o casamento talvez indique que os midrashistas consideravam a possibilidade de que Rute já estivesse grávida após seu encontro com Boaz na eira, que é a única ocasião em que a Bíblia se refere a um encontro com conotações sexuais entre os dois.
depreender pela genealogia apresentada em Rt. 4: 18-22, que deve ser considerada um acréscimo posterior.
Está explícito na narrativa que o editor pretendia, como nos casos da filha de Ló e de Tamar, registrar os desenvolvimentos genealógicos, e justificar que a presença do elemento moabita na tradição da ancestralidade de Davi era justificável no caso de Rute, porque ela preenchia os requisitos para ser aceita em Israel apesar de sua origem.