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B Une fête interne devenue institutionnelle

Carmichael312 faz referência à estreita conexão que existiria entre um elevado senso de identidade nacional e uma preocupação para com o status da mulher por parte do legislador bíblico. Para este, quase todas as leis envolvendo as mulheres, partem de reflexões, e estão relacionadas a situações em que a mulher recebe tratamento humilhante por parte de grupos estrangeiros, cujos comportamentos podiam ser identificados como sendo comuns também aos patriarcas.

Comenta Carmichael313:

“Não somente que os ancestrais eram algumas vezes a causa inicial do tratamento humilhante, mas mulheres estrangeiras foram vistas sendo maltratadas por eles (por exemplo, Labão interpretou assim a atitude de Jacó para com suas filhas Raquel e Lia)”.

Carmichael considera que o ambiente a partir do qual provém à ótica do legislador é de considerável intercâmbio cultural. Sua percepção está profundamente marcada por uma apreensão quanto à questão da moralidade sexual, o que é perfeitamente explicável em um ambiente onde o homem jovem é o foco das atenções, porque ele é indispensável como agente econômico e de preservação social em uma cultura patriarcal, num regime econômico de pequena escala.

Submerso em sua própria cultura, que por sua vez está no meio de outras culturas, é de se esperar que ele esteja preocupado com as implicações dos incidentes envolvendo a mulher nas tradições que contam as interatividades de seu povo com seus vizinhos.

Considerando a carga de elementos sexuais envolvendo as relações de seus epônimos com esses vizinhos e o risco para a identidade nacional resultante dos casamentos exogâmicos, os elementos morais e o status da mulher tornam-se extremamente relevantes para o legislador bíblico.

312 Carmichael, op. cit. pág. 7. 313 Ibidem.

Apesar do caráter androcêntrico encontrado nos textos legislativos da Bíblia Hebraica, um exame mais detalhado de seu conteúdo revelará que, na verdade, estes levam a uma melhora na condição da mulher, se comparar o status desta, com o que se encontra no mundo externo ao do povo bíblico.

Carmichael314 comenta o seguinte sobre a ótica do editor bíblico quanto à mulher:

“Um dos objetivos por trás do trabalho do editor, é elevar o status e a dignidade da mulher, um elemento acompanhado pelo senso acurado de nacionalismo israelita. O editor não está reformando a sociedade na qual ele vive e que (numa perspectiva moderna), é caracterizada por ser restritiva e até repressiva com relação à mulher. Na verdade ele está consciente quanto ao tratamento humilhante dado a ela em Gênesis e quer determinar os erros em questão e fazer mudanças, de acordo com o que pareceria mais adequado em seu tempo”.

Essa afirmação de Carmichael revela um aspecto interessante que pode ser notado por meio da observação mais acurada quanto à forma de abordar certos elementos das tradições nacionais israelitas.

Pode-se notar na evolução das leis de Israel sua tendência à preservação da mulher enquanto ser humano, em que se procurava garantir a ela, mesmo que escrava, por exemplo, o direito de tratamento igual ao do homem escravo, como se vê em Ex. 21: 26-29.

A esposa também era elevada à igualdade em relação ao homem no que diz respeito à honra devida aos pais pelos filhos, como observado em Ex. 20: 12:

“Honra teu pai e tua mãe...”.

Outros fatores de equivalência entre homens e mulheres podem ser observados em algumas das leis relacionadas às práticas de cultos. Associações com atividades de feitiçaria e prostituição ritual são igualmente descritos como proibidos para ambos os sexos, com pena de morte aplicável tanto aos homens quanto às mulheres.

Práticas sexuais vistas como ilícitas, tais como zoofilia e homossexualismo (segundo a legislação bíblica) também implicavam em pena de morte aplicável a ambos os sexos.

314 Carmichael, op. cit., pág. 3

O principal objetivo implícito no papel sexual da mulher, gerar filhos e cuidar deles, é altamente valorizado na legislação e nas narrativas bíblicas.

No entanto, não há menção de que seu papel sexual devesse se restringir ao interesse em gerar filhos, embora este seja objeto de grande ocupação dos textos bíblicos e recomendado a todos, homens e mulheres, como um sinal da aprovação por parte da divindade bíblica.

Os textos legislativos da Bíblia Hebraica não se ocupam da libido feminina, nem para limitá-la, nem desvalorizá-la. Todos os seus parâmetros estão ligados ao âmbito doméstico, quase sem qualquer preocupação quanto a como, em que quantidade ou para que propósitos a atividade sexual entre marido e mulher devesse ser exercida.

Ao contrário, se levar-se em consideração o que é mostrado em outros contextos como Cantares e Provérbios, a sexualidade feminina era extremamente valorizada para os fins a que se destinava dentro do ambiente conjugal.

Encontra-se em algumas narrativas bíblicas, exemplos de que o tratamento dispensado à mulher evolui ao longo do tempo. Pode-se notar esta evolução entre as narrativas do próprio livro de Gênesis.

Mesmo nas narrativas escolhidos para a presente dissertação encontra- se exemplo deste processo evolutivo.

No caso das filhas de Ló, nota-se uma diferença no tratamento dispensado à mulher, quando se observa o momento em que seu pai as oferece a uma turba de depravados para que fizessem o que bem lhes parecesse. O que segue no texto é a intervenção de anjos no sentido de poupá-las milagrosamente de qualquer agressão, caracterizando que, diferentemente de seu pai, a divindade as valoriza a ponto de dispensar-lhes um milagre para sua salvação.

Elas também são resgatadas da destruição de Sodoma pela intervenção dos anjos, e seus pretensos maridos não (se bem que são sodomitas e não israelitas), o que evidencia uma distinção no tratamento dispensado às mulheres em relação a seus homens.

No desenvolvimento da trama, nota-se, como já observado, a intenção do redator bíblico de deixar registrado que as mulheres foram mais espertas, mais interessadas em manter a continuidade da humanidade, ressaltando uma maior

sensibilidade feminina quanto ao dever de cumprir o primeiro mandamento dado aos homens de povoar a terra, ou pelo menos quanto à continuidade da família ou clã.

O sucesso final das filhas de Ló atesta que havia uma consideração por parte do editor bíblico para com o direito da mulher quanto ao levirato, sistema de casamento já comentado nesta dissertação.

Ló ocupa para com suas filhas o papel de goel, aquele que deveria resgatá-las provendo para elas maridos para gerarem descendência, como já visto, o que justifica a iniciativa das filhas de Ló.

Comparando essa narrativa a que se encontra no capítulo 38 de Gênesis, em que se lê sobre a tradição de Judá e Tamar, nota-se traços da evolução do tratamento para com a mulher ao ouvir-se da boca de Judá a declaração de que sua nora era mais justa que ele mesmo. Trata-se do reconhecimento por parte de um patriarca de que uma mulher estrangeira o superou moralmente. Isso está no texto apesar da aparente prostituição de Tamar.

Quando se confronta estas narrativas com o que se encontra no livro de Rute, nota-se uma evolução ainda maior quanto à condição da mulher na Bíblia Hebraica. Rute é uma estrangeira, reconhecidamente de moral elevada, esperta, fiel e que deixa sua terra por amor à sua sogra e ao povo desta.

No final da narrativa de Rute (4:7-8), lê-se que o resgatador tira a sandália do pé e a entrega a Boaz, o que é um símbolo de confirmação de negócio conforme uma tradição.

Ocorre que a tradição dos “pés descalçados”, como se viu no capítulo que trata sobre Rute, está ligada justamente ao direito de casamento por levirato garantido à mulher, e refere-se a uma sentença de exposição pública de um ato vergonhoso cometido por um homem contra uma mulher, mencionada em Dt 25:5- 10, quando este se recusa por qualquer motivo a cumprir seu dever.

Se por um lado a lei bíblica é até mesmo repressiva para com a mulher, a ponto de garantir ao marido o direito de, em suspeitando de traição, levá-la ao sacerdote, para que realizasse um ritual de magia para confirmação de tal suspeita (Nm 5:11-31), por outro garante à mulher o direito de resgate, que é uma obrigação do homem para com ela.

O homem será livre de qualquer punição se desconfiar de sua mulher, mesmo que sem fundamento, mas não será livre de punição se não cumprir seu papel

de resgatador para com a mulher que esteja sob seus cuidados. Isto mostra que mesmo nas narrativas e novelas encontra-se certa evolução no tratamento para com a mulher.

As mortes de Er e Onan, talvez por negarem progenitura a Tamar por ser ela de ascendência canaanita, é sugestiva quanto ao direito de gerar garantido à mulher.

O livro de Rute é simbólico quanto à evolução da sensibilidade para com a mulher demonstrada na Bíblia, e mostra de maneira prática a melhora no tratamento dado a ela nas tradições de Israel.

Segundo um comentário de Carmichael315, importante para os interesses desta dissertação, os textos gregos não apresentam a mesma evolução. Alguns mitos gregos envolvendo mulheres, como por exemplo, Efigênia e Clitenestra, revelam pouco ou nenhuma evolução da consciência quanto a seu valor pessoal.

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