Este, a cuya cumbre excelsa gozando sacros indultos,
ni aire agitado profana, ni rayo ofende trisulco; Sor Juana Inés de la Cruz
A última parte da obra Neptuno Alegórico intitula-se Explicación del arco. A composição textual exclusivamente escrita em versos integra a estrutura artística do arco laudatório e é dividida em um mini-prelúdio e oito estrofes que se combinam. Essas unidades textuais se identificam com a parte escrita em prosa e com as oito telas pintadas em forma de argumentos que narram as virtudes do Marquês-Neptuno, bem como com os conselhos oferecidos a ele no Arco Triunfal, Neptuno Alegórico, Océano de Colores, Simulacro Político. As telas apresentadas em Razón de la fábrica alegórica e Aplicación del arco se assemelham à Explicación del arco. A epígrafe, composta pelos versos de Sor Juana, presentes na mini-introdução de Explicación del arco, ressalta a grandiosidade do Arco Triunfal, assemelhando-o ao Olimpo104. Essa retomada do arco no prelúdio que antecede as estrofes reflete desdobramento a partir do que fora apresentado na estrutura inicial da obra: título longo e mini-introdução prelúdica que ressalta o costume das divindades egípcias em adorar seus deuses com o uso de imagens.
Explicación del arco, em suas oito estrofes, apresenta uma espécie de espelhamento sarduyano que se combina com as oito telas-argumentos por meio de um jogo de pintura e reflexo descritivo. Antes de adentrar a esse prisma de combinatória intencional, direta e criativa, é necessário fazer a leitura das estrofes de Explicación del arco, “[...] esta composición labiríntica, de sintaxis y metáforas retorcidas” (A. LEONARD, 1976, p. 254), que se exibem em hipérbatos e imagens relacionadas com a prosa descrita para composição das telas desenhadas anteriormente. Em toda a estrutura em estrofes de poética de Explicación del arco (I, II, II, III, IV, V, VI, VII, VIII), escrita em sete e onze sílabas entremeadas que compõem a silva do arco, a monja, em tom de apontamento descritivo, escrito-visual, que ora interpela diretamente ao novo 104
Salceda (2004) apresenta essa ideia em nota à Neptuno Alegórico: “El Arco goza del mismo privilégio del Olimpo” (SALCEDA apud JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p. 626).
governante, ora não, apresenta, outra vez, as suas telas emblemáticas por meio construções poéticas exuberantemente intelectuais e extravagantemente eruditas. Passa- se à leitura da primeira estrofe:
I
Aquel lienzo, Señor, que en la fachada
corona airosamente la portada, en que émulo de Apeles
con docta imitación de sus pinceles al mar usurpa la fluxible plata que en argentadas ondas se dilata;
en cuyo campo hermoso está copiado el Monarca del Agua coronado,
a cuya deidad sacra pone altares el Océano, padre de los mares, que al cerúlo tridente
inclina humilde la lunada frente; y el que fue con bramidos terror antes
a los náufragos tristes navegantes, ya debajo del yugo que le oprime, tímido muge y reverente gime,
sustentando en la espalda cristalina tanta de la república marina
festiva copia, turba que nadante al árbitro del mar festeja amante, y en formas varias que lucida ostenta,
las altas representa virtudes, que en concierto eslabonado
flexible forman círculo dorado que sirve en un engace y otro bello de esmaltada cadena al alto cuello:
un bosquejo es, Señor, que con torpeza los de vuestra grandeza
blasones, representa esclarecidos de timbres heredados y adquiridos, pues con tan generosas prontitudes
os acompañan todas las virtudes, que estáis de sus empresas adornado,
cuando más solo más acompañado.
(JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p 404-405)
Sor Juana começa a reapresentar gradativamente os oito lienzos de Neptuno Alegórico em forma poética. Em I, primeira estrofe, composta por trinta e quatro versos, pode-se dizer, estão grande parte dos elementos já apresentados em Argumento del primer lienzo em cuja composição a criadora da loa festiva mistura prosa, versos e descrições
emblemáticas a serem pintadas. Na estrofe I, a sequência de orações subordinadas adjetivas escritas em forma de hipérbatos homenageia a primeira tela e os elementos que nela aparecem de forma iconográfica, por meio de descrições, mas com algumas novas combinações imagéticas, para compor a cena de homenagem, desta vez, pintada por Apeles, um dos pintores mais famosos da Antiguidade. O apelo explícito aos pincéis corrobora a noção de pintura iconográfica, resgatando a imagem emblemática proposta no primeiro quadro. Sor Juana descreve a primeira tela, em forma de versos, interpelando o Marquês e apontado para a obra afixada na fachada o Arco Triunfal.
Sor Juana, com a expressão Aquel lienzo, referindo-se à tela I, interpela o Marquês, Señor, iniciando a série de descrição imagética. Na descrição, há a tela que coroa elegantemente a fachada; o Monarca da Água coroado, cuja divindade sacra põe altares o Oceano, pai dos mares; está, ainda, a afirmação de que a tela surge ostentando as altas virtudes de Neptuno. Ao longo da obra, a poeta vai entrelaçando essas duas imagens por meio de virtudes que se assemelham e formam um só ser. Ao final da estrofe, a afirma a escritora barroca ser a tela I um croqui que desenha todas as virtudes do Marquês. Argumento del primer lienzo e Explicación del arco I tratam da combinação de argumentos, descrições de imagens e versos que contribuem para a construção da imagem de Neptuno, na obra Neptuno Alegórico. Essa imagem se confunde com a imagem do Excelentíssimo vice-rei, pois a autora trata de cifrar e unir as duas facetas em uma intenção comunicativa que se inicia desde o começo da obra e vai até a descrição em versos de Explicación del arco cuja intenção alegórica é a de que o Marquês de Laguna é representado pelo deus Neptuno.
A segunda estrofe, composta de dezesseis versos, corresponde à outra possibilidade de leitura do Argumento del segundo lienzo. De igual modo descritivo, explicita a composição poética na qual a autora aponta para a tela de número dois, afixada na fachada do Arco Triunfal. Os dezesseis versos seguem a estrutura da primeira estrofe, escrita em forma de silva, cujos versos de sete e onze sílabas se apresentam alternados aleatoriamente. Outra vez, a poeta barroca exagera na composição dos hipérbatos que apresentam não só subordinações adjetivas, como também substantivas. Sor Juana refere-se ao segundo lienzo como En el otro, interpelando o marquês, Señor, e apontando a posição do arco que inicia sua série de justaposição de encadeamento sintático exuberante. Assim, realiza a composição:
II
En el otro, Señor, que a mano diestra en aquella anegada ciudad muestra
cuánto puede incitado el poder de los dioses irritados,
se ve la reina de los dioses, Juno, el socorro impetrando de Neptuno, que hiere con el ínclito tridente
al que retrocedente cerúleo monstruo ya con maravilla
al límite se estrecha de la orilla. Y no menos, Señor, de vuestra mano la cabeza del reino americano,
que por su fundamento a las iras del líquido elemento
expuesta vive, espera asegurada preservación de la invasión salada.
(JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p. 405)
A segunda estrofe (re)descreve o Argumento del segundo lienzo, que desenha Juno, guiada no ar por dois leões, pedindo socorro a Neptuno para a cidade de Inaco. A poeta autora do Arco indica, En el otro, Señor, a imagem da cidade inundada, reflexo da irritação dos deuses juntamente com a imagem da rainha dos deuses, Juno. Diante da súplica da deusa, Neptuno acalma o cerúleo monstruo, o mar. Sor Juana acrescenta, novamente interpelando ao vice-rei, afirmando que não menos, Señor, da mão de Neptuno sai a cabeça do reino americano, que, por seu fundamento às iras do líquido elemento exposta, espera assegurada preservação da invasão salgada. A cabeça do reino americano pode ser a Cidade do México (SABAT RIVERS, 1983), que, por seu desenvolvimento geográfico, cultural e político, era a maior cidade americana do século XVII. Comparando as proposições imagéticas, Argumento del segundo lienzo e Explicación del arco II, pode-se confirmar a combinação quase idêntica, em forma descritiva, reinventada por Sor Juana para recompor de maneira exclusivamente poética o conteúdo emblemático delineado no quadro dois da obra Neptuno Alegórico, cujos perigos da“ invasão salgada” correspondem aos perigos de inundações da Cidade do México.
A terceira estrofe, composta de vinte e dois versos, cuja silva redesenha a terceira tela de Argumento del tercero lienzo, tem como motivo as inundações. O
encadeamento dos versos revela coordenação sintática desenvolvida em forma de hipérbatos cuja descrição aponta para a Ilha de Delos, errante peregrina, que surge como expressão apositiva, motivo-símbolo de instabilidade natural. Na estrofe poética, Sor Juana começa chamando ao novo governante, Allí, Señor, para a movimentação da Ilha. Passa-se à leitura dos versos de alusão à Ilha de Delos:
III
Allí, Señor, errante peregrina,
Delos, siempre en la playa cristalina con mudanza ligera,
fue de su misma patria forastera; pero apenas la toca
el Rector de las Aguas, cuando roca
ya en fijo centro estriba, de ondas y vientos burladora altiva;
que a bienes conmutando ya sus males, patria es de los faroles celestiales: en quien Méjico está representada,
ciudad sobre las ondas fabricada, que en césped titubante
ciega gentilidad fundó ignorante; si ya no providencia misteriosa émula de Venecia la hizo hermosa
porque pudiese en su primera cuna consagrarse al Señor de la Laguna;
en quien, por más decoro,
nace en plata Dïana, y Febo en oro, que a vuestras plantas postren a porfía cuanto brilla la noche y luce el día.
(JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p 405-406)
O chamamento da autora é de altivez e indicação à Delos, que, segundo a descrição, a Ilha, sempre na praia cristalina, apresenta mudanzas ligeras, ou seja, mudanças sutis, e que fora ela, de sua mesma pátria, forasteira: “Delos era peregrina en su propia patria a causa de su movilidad” (SABAT RIVERS, 1983, p.19). Embora a Ilha seja errante, apenas a toca o Reitor das Águas, para que passe a ter fixidez. Sor Juana ocupa-se em estabelecer relações entre Delos e a Cidade do México, por haver sido a cidade colonial edificada sobre as águas. Termina a poeta a estrofe expressando a relação entre ouro e
prata, Sol e Lua, Febo ou Apolo e Diana, como alusão à riqueza de ouro e prata da Cidade do México: “ya nos referimos antes a la creencia antigua de que el Sol (Febo o Apolo) engendra el oro, y la Luna (Diana) la plata. Aquí la ciudad de México simboliza la entonces Nueva España, tan rica en plata y oro” (SALCEDA, apud JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p. 627). A descrição em versos não contempla Latona, nem Asteria, figuras femininas que compõem a cena do terceiro quadro, mas a autora mantém a ideia da Ilha de Delos como cifra da Cidade do México, tão exposta a catástrofes e, ao mesmo tempo, tão rica em recursos naturais para cuidar de suas causas de inundação.
A quarta estrofe, escrita em trinta e dois versos, reflete a descrição do Argumento del cuarto lienzo. A silva, assim apresentada, estrutura-se poeticamente como as demais, contudo difere das anteriores em um primeiro aspecto: a poeta não inicia seus versos interpelando o Senhor novo governante. Os versos compostos, predominantemente de orações adjetivas, revelam encadeamento sintático que formam hipérbatos. A estrofe se conecta com Argumeto del cuarto lienzo que reflete a temática da luta entre gregos e troianos. Leia-se a estrofe:
IV
Allí se ven los griegos inhumanos dando alcance a los míseros troyanos, que del futuro engaño presagientes de los griegos ardientes
sienten en las centellas del acero anuncios del incendio venidero
y eligen el seguro
en la interposición del alto muro, que de sonoras cláusulas formado,
y luego desatado al son de disonante artillería,
soltó discordia lo que ató armonía. Allí el hijo de Thetis arrogante al de Venus combate, y fulminante
tantos le arroja rayos, que, en pálidos desmayos
ya el troyano piadoso,
casi a Lavinia hermosa sin esposo dejara, y en un punto,
si de nube auxiliar en seno oculto no escondiera su bulto
y burlara el deseo
del atrevido hijo de Peleo,
el Padre de los Vientos poderoso, cuanto más ofendido más piadoso:
que tiene la Deidad por alto oficio oponer a un agravio un beneficio. Lo cual en vos se mira ejecutado,
pues no soborna el mérito al agrado, sino que, por mil modos,
sois como el Sol benigno para todos.
(JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p 406-407)
Na estrofe, a poeta Sor Juana descreve dois exércitos que estão representados por gregos e troianos. A imagem revela a construção do muro de Troya ao som da lira de Apolo (SALCEDA, 2004), além de apresentar as genealogias dos heróis Aquiles, filho de Tétis e Enéas, filho de Vênus. Segundo a descrição de Sor Juana, Aquiles é arrogante e Enéas, piedoso. Na cena, aparece Lavínia, que, juntamente com Enéas, fundou a nova Troya, Roma/Itália. Para Salceda (2004), é natural que Enéas seja considerado como Rey de Roma e aponta que “todo eso forma el asunto de La Eneida, la gran epopeya de Virgílio, aqui designado por su cognomen (tercer nombre) latino: Publius Virgílio Maro” (SALCEDA apud JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p. 628). O deixar a Maro, Virgílio, sem assunto consiste em que, se houvesse fracassado Enéas em sua missão em combater a Aquiles com a nova Troia, não haveria matéria de poesia para A Eneida. A estrofe ressalta a virtude e a importância do novo rei saber conduzir guerras, mas também não ser arrogante como Aquiles e ser piedoso como Enéas. Essa descrição está presente em forma de emblema no quarto quadro em que se pinta Neptuno auxiliando Enéas.
A quinta estrofe, formada por dezesseis versos, obedece ao mesmo rigor da anterior quanto a não interpelação do Marquês de Laguna em sua estrutura inicial, embora o faça ao final da estrofe. Sor Juana Inés de la Cruz reescreve em forma de versos cuja sintaxe revela uma intercalação de orações adjetivas em forma de hipérbatos que descrevem o Argumento del quinto lienzo. Sem o chamamento inicial direto ao senhor Marquês, a poeta do Arco Triunfal aponta para o tabuleiro, e diz que En el otro tablero, surge a empresa do herói verdadeiro o espumoso deus, ou seja Neptuno. A
estrofe realiza releitura da presença dos Centauros no quinto quadro de Razón de la fábrica alegórica. Passa-se à leitura:
V En el otro tablero,
empresa del que es héroe verdadero
el espumoso dios, a quien atentos obedecen los mares y los vientos,
a los Centauros doctos – que del fiero Alcides no el acero
con que la clava adorna de arrogancia
huyen, sino el furor de la ignorancia, cuya fiereza bruta
ofende sin saber lo que ejecuta –, dulce les da acogida,
con una acción salvando tanta vida.
Viva gallarda idea de la virtude, Señor, que en vos campea:
pues con piadoso estilo sois de las letras el mejor asilo.
(JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p 407)
A fuga dos Centauros da fúria do feroz Alcides é o tema poético. Os doutos Centauros fogem e pedem proteção a Neptuno. Na estrofe, Sor Juana ressalta que os doutos fogem mais da ignorância, cuja ferocidade bruta ofende sem saber o que executa, do que da arrogância. A poeta escreve que Neptuno, doce, lhes dá acolhida, com uma ação, salvando tanta vida, por meio da sabedoria e das letras, reforçando que, das letras, Neptuno é o maior abrigo. Em Argumento del quinto lienzo, Sor Juana, descrito na quinta estrofe em versos, pinta a importância que o vice-rei deve dar à ciência e ao conhecimento por meio da metáfora da sabedoria cifrada nos Centauros, os primeiros mestres. O tema da sabedoria é recorrente na vida e na obra da poeta barroca, desde as lições de alfabetização “roubadas” da irmã, aos escritos da Carta Athenagórica, cuja defesa ao conhecimento é latente, e à escrita de Primero Sueño, poema pela busca intelectual ao conhecimento pleno.
A sexta estrofe, construída por vinte oito versos que compõe a silva poética realiza a descrição de Argumento del sexto lienzo. A sequência de orações adjetivas escritas em forma de hipérbato obedece ao rigor formal das estrofes anteriores, oferecendo sintaxe labiríntica e exuberante. Os versos desta sexta composição retomam
a ideia-chamamento inicial direcionado ao Conde de la Cerda, apresentando o apontamento seguido do apóstrofe, Allí, Señor, aponta a monja para o quadro que trata da importância e do respeito que possui o Delfín, embaixador do casamento de Neptuno e Anfitrite, para o Monarca das Águas. Indica a monja no quadro:
VI
Allí, Señor, en trono transparente
constelación luciente forma el pez que fletó – viviente nave –
del náufrago Arïón la voz süave que en métrica dulzura
el poder revocó a la Parca dura:
que a doloroso acento lamentable ni es sordo el mar, ni el hado inexorable;
y elocuente orador, Tulio escamado, el cuello no domado,
el desdén casto de Anfitrite hermosa,
en la unión amorosa del que reina en los campos de Nereo,
redujo al dulce yugo de Himeneo; a cuyo beneficio el siempre augusto remunerador justo,
de nueve las más bellas del luminoso número de estrellas,
asterismo le adorna, tan lucido que el mar, que le fue nido, ya al brillante reflejo
digno apenas se ve de ser espejo. ¡Qué mucho, gran Señor, si fue Neptuno
prototipo oportuno
de vuestra liberal augusta mano, con que imitando al numen soberano,
castigáis menos que merece el vicio y dais doblado premio al beneficio!
(JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p. 407-408)
O Delfín é descrito como símbolo da eloquência por haver convencido a Anfitrite que se casasse com Neptuno. A constelação de que se fala na estrofe é repetição da imagem estrelar proposta para homenagear Delfín no céu. Sor Juana compara o Delfín a Cicerón, Tulio escamado, mesmo o golfinho não possuindo escamas. Sobre isso, Salceda (2004) afirma que “la erudición de nuestra poetisa aquí falla: los delfínes como
cetáceos carecen de escamas; ella parece creer que son peces” (SALCEDA apud JUANA INÉS DE LA CRUZ, OC, TOMO IV, 2004, p. 628). Convida a poeta à cena que descreve, o sexto quadro de Razón de la fábrica alegórica, Nereo, deus marinho em cujo mar Anfitrite formosa desdenha a Neptuno e também surge Himeneu, deus das festas e cerimônias matrimoniais.
A sétima estrofe, que se apresenta com quarenta e dois versos em silva que alternam aleatoriamente versos de sete e onze sílabas poéticas, a poeta-musa redesenha, de forma descritiva, o mesmo tema de Argumento del séptimo lienzo: a disputa entre Atenas e Neptuno sobre batizar o nome da cidade chamada Atenas. A sequência de versos formados por hipérbatos revelam sintaxe em que se mesclam orações adjetivas, coordenadas e explicativas, cujo início descontinua o chamamento ao senhor vice-rei e novamente a autora da loa festiva aponta a tela. Leia-se, em forma de versos, a disputa entre os deuses Atenas e Neptuno:
VII
El otro lienzo copia belicosa a la Tritonia diosa,
que engendrada una vez, dos concebida
y ninguna nacida, fue la inventora de armas y las ciencias;
pero aquí con lucidas competencias, de la deidad que adora poderosa Océano, del sol tumba espumosa,
a quien con verdinegros labios besa por más gloriosa empresa,
el regio pie que el mar huella salado con coturno de espumas argentado, competidora, pues, y aun vencedora,
a la Gran Madre ahora apenas hiere, cuando pululante,
aunque siempre de paz, siempre triunfante, verde produce oliva, que – adornada de pacíficas señas y agravada
en su fruto de aquel licor precioso que es Apolo nocturno al estudioso –
al belígero opone bruto armado que al toque del tridente fue crïado. La paz, pues, proferida
fue de alto coro, y la deidad vencida del húmedo elemento,
hizo triunfo del mismo vencimiento: pues siendo prole a quien él mismo honora
la hermosísima sabia vencedora,
solamente podía a su propia ceder sabiduría.
Así, Señor, los bélicos ardores que de progenitores
tan altos heredáis, que en vuestras sienes
los triunfantes no caben ya desdenes del Sol, e indignos de formar guirnalda,
a vuestros pies alfombra de esmeralda tejen, porque aumentando vuestras glorias holléis trofeos y piséis victorias.
Este, pues, sólo pudo alto ardimiento