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Rheumatoid arthritis

Dans le document UNIVERSITÉ DE STRASBOURG (Page 34-0)

2. Inflammation

2.1. Inflammatory diseases

2.1.3. Rheumatoid arthritis

A partir dos anos 1970 houve uma reversão no quadro da política habitacional inglesa. Isso porque, o ministro das finanças Anthony Barber, aprovou uma série de medidas para integrar a Inglaterra à Comunidade Econômica Europeia (CEE)68, como a liberalização e expansão do sistema bancário inglês pelo conhecido Competition and Credit Control (1971), onde os bancos poderiam atuar em diversas esferas, inclusive no mercado hipotecário. Como dissemos, o mercado hipotecário era restrito às autoridades locais, de tal modo que caberia ao governo e ao Banco da Inglaterra apenas a responsabilidade por conduzir a taxa de juros do país. Com uma maior liberalização, os bancos aumentariam suas transações de empréstimos e a incumbência atribuída ao Estado passou a ser a de somente administrar a oferta de moeda (CONGDON, 2005).

O crescimento acelerado do crédito bancário aumentou consideravelmente a oferta de moeda e elevou os preços de ativos financeiros das grandes empresas e instituições financeiras. A oferta monetária sem uma regulação apropriada gerou uma ampliação de preços geral – a inflação chegou a 25% em 1975 – elevando, assim, o valor dos imóveis, que já estavam passando por um processo de desregulamentação, dada a descentralização dos mercados hipotecários. Os preços imobiliários passaram do patamar médio de 2.000 libras, em 1960, para 9.000 libras, em 1972, segundo dados da Nationwide – como podemos observar no gráfico 1. O período em que se deu esse processo ficou conhecido como Heath-Barber boom (1972-1975), em referência ao primeiro-ministro Edward Heath e ao ministro das finanças Anthony Barber69.

Para grande parte de teóricos liberais, como Frederich Hayek e seu discípulo – o monetarista Milton Friedman – a crise do fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 na Inglaterra e em vários países se deu devido ao “poder excessivo e monopólico” dos sindicatos e movimentos operários constituídos ao longo dos anos, pois, ao reivindicarem elevações

68 O contexto de destruição e crise na Europa, após o fim da II Guerra Mundial, possibilitou um reordenamento

estratégico entre os países do continente, a partir da década de 1950, que deu origem à Comunidade Econômica Europeia (CEE). A CEE foi concebida com o intuito de criar um ambiente propício à livre circulação de mercadorias, capital e trabalho, que pudessem contribuir para a reconstrução dos países europeus (MOTA, LOPES, ANTUNES; 2010). A CEE deu origem ao Tratado da União Europeia, em 1999.

salariais, corroíam a base de acumulação das empresas, fazendo com que os salários estivessem acima da produtividade do trabalho. Outra justificativa dos teóricos liberais era a de que os movimentos sindicais pressionavam o Estado para que mantivesse seus gastos com políticas sociais – traço marcante dos Anos Dourados –, que, somadas às elevações de salários, provocavam processos inflacionários e estagnação nos países70.

Com a vitória de Margareth Thatcher para o cargo de chanceler em 1979, as políticas habitacionais do país foram reduzidas consideravelmente, pois se passou a pregar a ideia da estabilidade monetária, tornando necessária uma disciplina orçamentária, via redução dos gastos sociais e restauração da taxa natural de desemprego, ou seja, a “criação de um exército industrial de reserva para quebrar os sindicatos”, além de um amplo processo de privatização, incluindo a habitação pública. De acordo com Ball (1983), o investimento em moradias pelas local authorities representava, em 1981, 15% dos investimentos de 1976.

O que fizeram, na prática, os governos neoliberais deste período? O modelo inglês foi, ao mesmo tempo, o pioneiro e o mais puro. Os governos Thatcher contraíram a emissão monetária, elevaram as taxas de juros, baixaram drasticamente os impostos sobre os rendimentos altos, aboliram controles sobre os fluxos financeiros, criaram níveis de desemprego massivos, aplastaram greves, impuseram uma nova legislação anti-sindical e cortaram gastos sociais. E, finalmente – esta foi uma medida surpreendentemente tardia –, se lançaram num amplo programa de privatização, começando por habitação pública e passando em seguida a indústrias básicas como o aço, a eletricidade, o petróleo, o gás e a água. Esse pacote de medidas é o mais sistemático e ambicioso de todas as experiências neoliberais em países de capitalismo avançado (ANDERSON, p. 13; 1995).

Podemos observar, portanto, que o compromisso com o emprego foi abandonado e a taxa de desemprego cresceu substancialmente na região do Reino Unido, como podemos observar no gráfico 2 abaixo.

70 Existe um debate muito grande a respeito do esgotamento do funcionamento de Bretton Woods. Um dos

destaques dessa análise é a teoria da regulação francesa, que tem como grandes expoentes Michell Aglietta e Robert Boyer. A escola da regulação analisa os limites do modo de produção fordista e a crise que se encadeia a partir dos anos 1970, e coloca que esta se deu devido a um esgotamento deste paradigma tecnológico-industrial fordista, devido à incapacidade de se obter ganhos de produtividade – imprescindíveis para a manutenção do ciclo virtuoso dos Anos Dourados. Para uma análise completa da teoria, ver BOYER, 1990.

GRÁFICO 2: TAXA DE DESEMPREGO,REINO UNIDO,1971-1985, EM %

Fonte: OECD, Main Economic Indicators/ Elaboração própria.

Segundo Richmond (2014), a primeira medida que mudou a questão habitacional da Inglaterra no governo Thatcher foi o Housing Act, em 1980, que previa o direito de inquilinos de comprarem as casas em que viviam e depois as venderem, caso quisessem (right to buy). Mais de 2 milhões de inquilinos adquiriram as casas em que moravam. De acordo com Watson (2009), a partir do governo Thatcher, houve uma mudança cultural na percepção da casa própria, que passou a ser entendida como investimento, capaz de gerar riqueza privada, gerando, assim, um impacto importante na estrutura de preços do mercado imobiliário britânico. Essa ideia foi ainda mais aprofundada com o processo mundial de financeirização, a partir dos anos 1990, e foi, provavelmente, baseada no American Dream dos EUA da casa própria71.

Um dos grandes discursos para a implementação da medida adotada pela primeira- ministra foi o de que a habitação social era uma barreira à mobilidade espacial e, consequentemente, à máxima mobilidade do trabalho. Isso se deve à noção neoclássica que se tinha de que a migração é um fator muito importante para a carreira individual das pessoas, de tal modo a conseguir diminuir diferenças regionais nos salários e no desemprego (VAN HAM et al., 2010). Em outras palavras, ao ‘libertar’ o mercado imobiliário, o mercado de trabalho também poderia ser livre.

71 Fix (2011) aponta que a casa própria fazia parte do sonho americano e da ideologia da “homeownership society”

A autora aborda, inclusive, os problemas advindos dessa ideologia. 3,4 3,7 2,7 2,6 4,1 5,4 5,8 5,7 4,7 5,8 8,8 10,1 10,8 10,9 11,2 0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 T ax a d e d esem p reg o ( em %)

Frequentemente o investimento ocorre onde há pessoas qualificadas que desejam trabalho. Mas deve haver alguma mobilidade. Se hoje as pessoas não estão dispostas a se mover como fizeram seus pais, a economia não pode prosperar (THATCHER, 1980; apud VAN HAM et al., 2010 – tradução nossa)72.

Além disso, o governo passou a pressupor que as despesas do Estado com política habitacional eram muito altas e, deste modo, ao repassar os imóveis à iniciativa privada, os custos do Estado iriam cair, assim como haveria uma maior eficiência, barateando os custos das moradias. Esse discurso de apoio ao setor privado não foi novidade apenas na Inglaterra. No caso dos EUA, por exemplo, como aponta Fix (2012), a partir dos anos 1990, as empresas da construção residencial (homebuilding) passaram por um processo de forte reestruturação produtiva, via fusões e aquisições, que garantiram um grande poder de definição de preços.

Ball (1983) aponta que o right to buy representou a concessão de isenções fiscais aos inquilinos com maior capacidade de pagamento, de tal modo que se constituiu uma perda da receita do governo com aumento de benefícios fiscais para os novos proprietários, o que demonstra uma contradição.

Essa questão da mobilidade espacial mostrou uma outra face desse processo de liberalização do mercado imobiliário. Enquanto nos anos 1930-1940 havia uma preocupação com a qualidade das habitações, nos anos 1980 a qualidade dos novos imóveis foi muito insuficiente, em termos de distância dos grandes centros e de padrões estruturais (BALL, 1983; p. 4).

A medida adotada por Thatcher ocorreu em um momento de alta inflação na Grã- Bretanha, conforme podemos observar no gráfico 3. Em um cenário de altas taxas da inflação – chegou a 26,9% em agosto de 1975 e 21,8% em maio de 1980 – e somadas à redução de empregos e salários, podemos supor que a maioria das famílias que passaram a exercer o right to buy eram aquelas com rendas maiores e com maior capacidade de pagamento das parcelas dos financiamentos.

72 “Frequently investment goes where there are skilled people wanting work. But there must be some mobility. If

today people aren't willing to move as their fathers did, the economy can't thrive” (THATCHER, 1980; apud VAN HAM et al., 2010).

GRÁFICO 3: INFLAÇÃO (RPI) EM 12 MESES,REINO UNIDO,1970-1999

Fonte: ONS/Elaboração própria

À medida que a compra de imóveis por inquilinos aumentava, os preços das casas seguiam no mesmo sentido. Segundo dados da Nationwide (gráfico 1), os preços cresceram 56% entre 1979 e 1989. O pico dos preços das casas estava acompanhado de uma alta taxa de desemprego no Reino Unido de 7,3% – 1,6 milhões desempregadas em 1989. Ball (1983) reafirma este aumento considerável dos preços dos imóveis, especialmente os dos aluguéis:

Em 1980/1 foram solicitados [pelo governo] aumentos médios de 32% nos aluguéis; em 1981/2 foram para 39%; e, a partir da primavera de 1982, aumentaram outros £ 2,50 por semana. Com essa escala de aumento, a partir de abril de 1979, os aluguéis médios não-renovados mais do que dobraram em três anos (BALL, 1983; p. 8 – tradução nossa)73.

No entanto, apesar da política ter sido voltada para a aquisição da casa própria, vários proprietários compraram os apartamentos e os alugam, ainda hoje, por um preço bastante elevado.

A partir de 1986, a desregulação do sistema financeiro inglês foi bastante intensa, denominado, inclusive, como big bang, que estimulou a especulação através da prestação de hipotecas. “Esta rentabilidade foi amparada pelo fracasso de sucessivos governos durante 30

73 “In 1980/1 average rent increases of 32 per cent were sought, in 1981/2 they were 39 per cent; and from spring

1982 they rose by another £2.50 a week. With this scale of increase average unrebated rents more than doubled in three years from April 1979” (BALL, 1983; p. 8).

0 5 10 15 20 25 30 d ez /7 0 jan /7 2 fev /7 3 m ar /7 4 ab r/ 7 5 m ai/7 6 ju n /7 7 ju l/7 8 ag o /7 9 set /8 0 o u t/8 1 n o v /8 2 d ez /8 3 jan /8 5 fev /8 6 m ar /8 7 ab r/ 8 8 m ai/8 9 ju n /9 0 ju l/9 1 ag o /9 2 set /9 3 o u t/9 4 n o v /9 5 d ez /9 6 jan /9 8 fev /9 9 Em % Período

anos para promover os níveis de construção de moradias proporcional ao crescimento da população. Mais dinheiro fluiu para uma oferta estática de habitação, levando os preços imobiliários a subir inexoravelmente” (RICHMOND, 2014).

O programa de liberalização defendido pelo governo Thatcher tinha como um de seus objetivos incentivar a concorrência de preços, inclusive no mercado imobiliário. Supunha-se que havia interesses de monopólio que deveriam ser combatidos. Além disso, ao haver uma desregulamentação financeira, haveria um encorajamento suficiente aos empresários financeiros para introduzir produtos de investimento inovadores (WATSON, 2009).

Watson (2009) argumenta que as mudanças financeiras ocorridas no Reino Unido, especialmente em relação ao mercado hipotecário, alteraram consideravelmente a trajetória de preços dos imóveis. Isso porque, com a desregulamentação e o right to buy houve a criação de mais e mais potenciais proprietários, com a justificativa de gerar riqueza no país.

Este cenário de desregulamentação foi acompanhado pelo aumento de preços dos imóveis, de queda dos salários e da renda das famílias da Inglaterra. A partir do governo Thatcher, a Inglaterra passou por uma série de mudanças nas relações de trabalho, que submeteram o trabalho ao mercado – movimento este que vinha ocorrendo no mundo todo.

As mudanças produtivas e no mercado de trabalho trouxeram o discurso – seguido por Thatcher – de que uma maior flexibilização do trabalho entre setores geraria menores custos às empresas. Esse processo se deu devido a três fatores essenciais, segundo Beynon (2003). O primeiro se refere às transformações nas estratégias das grandes corporações, à concentração de oligopólios globais e a constituição da empresa rede (se referem a redes produtivas globalmente hierarquizadas e com dispersão espacial dos elos de cadeia), que afetaram as relações de trabalho, já que, ao se dispersarem entre os países, houve também um processo de espraiamento da mão de obra pelo mundo. Esse processo se deu em conjunto com a política cambial que favoreceu uma reorganização industrial norte americana e que transferiu, progressivamente, muitas empresas para o leste asiático. O segundo fator diz respeito à importância que agências multilaterais passaram a ter sobre as decisões econômicas dos países, que afetam as relações de trabalho, como recomendações de políticas monetárias restritivas e corte dos gastos, que acabaram por deteriorar ainda mais as relações trabalhistas. Por fim, o último fator corresponde às mudanças estratégicas dos Estados-nações e os partidos políticos, antes comprometidos com as políticas de bem-estar, que passaram a atender as demandas da agenda.

As consequências diretas dessas transformações foram um aumento considerável da taxa de desemprego do Reino Unido – que passou de 4,7% a.a. em 1979 para 11,2% em 1985 – e uma queda da renda dos mais pobres, enquanto os ricos aumentaram ainda mais sua riqueza, como podemos observar nos gráficos 4 e 5. Enquanto houve aumento real de 65% na renda dos 10% mais ricos, entre 1977 e 1990, a renda dos 10% mais pobres decaiu 47% em termos reais no mesmo período. Percebemos que o processo de valorização imobiliária veio acompanhado de uma profunda concentração de riqueza nas mãos da classe dominante, explicada por todas estas mudanças na dinâmica do capital a partir do fim do welfare state e da implementação de uma política econômica draconiana, que se iniciou com Thatcher.

O gráfico 5 nos apresenta o quanto esta situação foi emblemática e problemática, pois, ao compararmos as taxas de variação entre a renda média das famílias e a inflação do país, percebemos que, entre 1978 e 2000, a variação da inflação esteve bem mais alta que a renda. Ou seja, isso nos mostra que, além de ver seus rendimentos reais decaírem entre as décadas de 1970 e 1990, os 10% mais pobres ainda viram a inflação do período corroer boa parte de seus rendimentos – e não só os 10%, mas também, a maior parte da população. As implicações desta situação são ainda piores em um cenário em que os preços dos imóveis crescem, especialmente em um país que tem o aluguel como base habitacional, já que as famílias precisam destinar seus gastos para consumo geral e para cobrir custos com moradia.

Esses dados são extremamente importantes, pois nos permitem entender o que tem ocorrido no Reino Unido atualmente, uma vez que, no longo prazo, os problemas tendem a se acentuar e se tornarem mais graves, devido ao aumento profundo da desigualdade e da pobreza.

GRÁFICO 4: RENDA DOS 10% MAIS RICOS (À ESQUERDA) E DOS 10% MAIS POBRES (À DIREITA),INGLATERRA, A PREÇOS CONSTANTES (EM LIBRA),1977-2013

Fonte: ONS74/IMF75/Elaboração própria.

GRÁFICO 5: TAXA DE VARIAÇÃO DA RENDA MÉDIA DAS FAMÍLIAS E INFLAÇÃO (IPC) ANUAL,REINO UNIDO, EM %,1978-2000

Fonte: ONS/Elaboração própria.

74 Office for National Statistics. Disponível em: https://www.ons.gov.uk/ 75 International Monetary Fund. Disponível em: http://data.imf.org/

-15% -10% -5% 0% 5% 10% 15% 20% Em % Período RENDA IPC

Esse cenário nos apresenta, portanto, que a redução da renda dos trabalhadores somada à alta dos preços das casas – que passaram a ser direcionados pelo mercado – geraram um problema sério de descompasso entre a possibilidade das pessoas em adquirirem seus próprios imóveis e ainda terem que arcar com custos elevados do aluguel, e em um cenário de forte concentração de renda. Como Ball (1983) afirmou: “o equilíbrio das forças políticas no início dos anos 80, no entanto, levou do papel residual ao declínio uma rede de assistência social para aqueles que não podiam comprar [uma casa]76.

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