A táctica é entendida como o conjunto de normas, comportamentos individuais e colectivos, com o objectivo de realizar uma prestação com sucesso a partir da contribuição activa e consciente durante o jogo (Matvéiev, 1986). Frequentemente a táctica é conotada como a gestão inteligente do comportamento nas situações de conflitualidade (Garganta, 1997).
Assim os comportamentos tácticos dos jogadores resultam das relações de cooperação e oposição e, portanto, das sucessivas transformações que decorrem ao longo do jogo (Garganta, 1997) estando estas, por sua vez, sujeitas aos constrangimentos situacionais. A inteligência é entendida como a capacidade de adaptação a novas situações, isto é, a capacidade de elaborar e realizar respostas ajustadas aos problemas colocados pelas situações imprevistas que vão sucedendo ao longo do jogo (Garganta, 1995). Assim sendo, a dimensão cognitiva é determinante na performance surgindo como indicador de diferenciação qualitativa dos jogadores. A sua importância é realçada no facto de esta dimensão possuir um elevado poder no grau de sucesso das equipas, principalmente quando existe equilíbrio entre as restantes componentes do rendimento desportivo (Tavares, 1993).
A relação da dimensão cognitiva com a componente táctica é inquestionável, na medida em que as capacidades cognitivas de antecipação, percepção e tomada de decisão estão dependentes dos conceitos tácticos. Porém, as nossas decisões nunca dependem apenas da razão, pelo simples motivo que o espírito não está separado do corpo (Denigot, 2004). Segundo Damásio (2003) a emoção e o sentimento desempenham um papel no raciocínio e quando o papel é benéfico, a presença da emoção e do sentimento é indispensável.
“Raciocinar e decidir implicam habitualmente que o decisor (G.R.) tenha conhecimento da situação que requer uma decisão, das diferentes opções de resposta e das consequências de cada uma dessas opções (resultados), imediatamente ou no futuro” (Freitas, 2005). Dentro de um quadro de diferentes opções de resposta perante uma dada situação, segundo Damásio (1995), as boas decisões, além de outros elementos, necessitam de imagens. Neste sentido, ao extrapolar a ideia de Damásio para o Jogo de Futebol, a construção de imagens para as boas decisões em jogo é suportada pelas experiências anteriores vividas no jogo e no treino.
A capacidade de estabelecer uma relação mental entre a situação adquirida e a respectiva solução representa, na competição, o aspecto fundamental para solucionar o problema de forma ajustada e oportuna (Castelo, 1998).
A relação de comprometimento existente entre a selecção e a execução da resposta é esclarecida por Mesquita (1998) ao afirmar que, quanto mais refinado for o nível técnico do jogador, mais predisposto ele está para analisar o jogo e, concomitantemente, poder decidir melhor.
Deste modo, é natural que, na nossa intervenção diária no processo de treino, encontremos atletas que decidem bem em pouco tempo e outros que demoram a decidir e não raras vezes decidem da forma errada. A decisão pode ser entendida como o acto consciente de selecção da resposta que melhor soluciona um determinado problema proveniente de uma determinada situação. Mas, antes de decidir qual a solução, é necessário analisar a situação. Deste modo, o processo de decisão inicia-se na análise da situação, da qual resultará uma escolha da melhor solução que se manifesta através de um comportamento do atleta.
Segundo Tavares (1993), a decisão pode ser entendida como um conjunto de processos de selecção e de escolha, e não apenas o acto final, considerando-a como o produto do processo.
O conceito de decisão está intimamente associado ao conceito de estratégia sendo considerada como uma acção eminentemente táctica que
permite resolver da forma mais adequada a ambiguidade dos problemas do jogo.
Araújo (1997) classifica a decisão em três níveis distintos: (I) decisão estratégica (o jogador decide rematar em vez de passar), (II) decisão táctica (o extremo esquerdo movimenta-se para o meio aclarando o espaço para a progressão do lateral esquerdo) e (III) decisão propriamente dita (o extremo direito decide arrancar em velocidade porque sabe que é mais rápido que o seu defensor).
Por sua vez, Januário (1992, cit. Miragaia, 2001) propõe uma classificação em função do tempo de latência, isto é, do tempo que medeia a tomada de decisão e a execução técnica do movimento. Deste modo temos (I) decisões reflexivas as quais representam constructos mais gerais em relação ao processo ensino-aprendizagem (estruturação dos conteúdos, determinação dos objectivos finais), (II) decisões imediatas caracterizadas por um tipo de raciocínio rápido e muitas vezes intuitivo (grande parte das decisões em situações inesperadas) e (III) decisões de rotina, respondendo prontamente a situações já vivenciadas, automatizadas (conjunto de rotinas de ensino).
De acordo com Araújo (1997) as decisões tomadas em situações desportivas desenrolam-se a partir de duas lógicas complementares: (I) a lógica interna da modalidade, que define o âmbito em que podem ser tomadas as decisões, isto é, de acordo com as regras regulamentares e estratégicas, e (II) a lógica dos sujeitos, de acordo com o seu estilo cognitivo e com os seus conhecimentos e vivências anteriores, permite aos jogadores decidir sobre dados objectivos, mas tendo em conta a subjectividade na sua percepção e análise.
No desporto, as decisões podem ser únicas ou repetidas, individuais ou colectivas, dependendo da natureza da actividade praticado, bem como das exigências de regulação que esta solicita ao atleta (Araújo, 1997).
A dominância de muitas respostas/decisões em futebol tem origem no inconsciente. Este lado neural pode criar hábitos e estes podem melhorar a capacidade de decisão consoante as variadíssimas situações de jogo. A antecipação está relacionada com este desempenho. Jogar em antecipação é
prever decisões do adversário e agir consoante indicações que somos capazes de perspectivar, segundo Goleman (2003), estes estímulos são traduzidos nas amígdalas do cérebro e através do inconsciente é tomada uma decisão.
As intenções em actos são livres, mas não de todo livres porque estão condicionadas às intenções prévias da organização estruturada pelo treino.
Inerente à tomada de decisão está a velocidade de execução. O incremento da velocidade de execução na tomada de decisão é orientado para o desenvolvimento consoante a modelação do jogo. É também interveniente na velocidade de execução, o tempo de reacção simples individual e o tempo de escolha. No tempo de reacção de escolha são apresentados dois ou mais estímulos diferentes, cada um com a sua resposta específica, caracterizando- se pela incerteza da mesma, do desconhecimento da natureza do estímulo e do momento do seu aparecimento. Ou seja, o indivíduo terá que seleccionar a resposta adequada, de entre as possíveis, para o estímulo apresentado (Tavares, 1993). No tempo de reacção simples há aplicação de um único estímulo, para o qual existe uma resposta predeterminada, isto é, o estímulo é sempre o mesmo e a resposta também. Por conseguinte, o tempo de reacção simples é o intervalo entre a aplicação do estímulo e a execução da resposta na condição de o sujeito responder tão rápido quanto possível (Whiting, 1979).
A tomada de decisão é um domínio influente na modelação táctica da equipa. Treinada pela causalidade do treino dentro dos múltiplos domínios integrantes do “Todo” que no treino fazem perspectivar a competição.
Podemos então verificar que a tomada de decisão é um domínio importante para os jogadores, determinando o sucesso das acções táctico- técnicas. É, igualmente, uma condição determinante para o rendimento desportivo diferenciando os jogadores e evidenciando aqueles que pertencem a um grupo de rendimento superior.
Para Oliveira (2009), o comportamento táctico é o ponto fulcral para o desenvolvimento de um G.R. de alta competição. Para o mesmo autor, o aspecto de tomar uma decisão adequada constitui-se como preponderante para o melhor desempenho de um G.R. Entende que o jogo treina o G.R. e o
treino tem de ser o mais integrador possível dos constrangimentos vividos no jogo.
Segundo o estudo de Castelo (1996) relativo à racionalização das tarefas tácticas dos jogadores, define as atitudes e comportamentos técnico- tácticos específicos do G.R. no processo ofensivo em seis aspectos:
1- O guarda-redes dentro do processo ofensivo é considerado o 1º atacante, logo, deverá aumentar ou diminuir o ritmo de jogo da sua equipa através da reposição rápida ou lenta da bola em jogo, escolhendo o companheiro melhor posicionado.
2- A partir da sua posição é possível uma observação global do terreno de jogo, dirigindo essencialmente os companheiros da última linha defensiva.
3- Deverá executar os pontapés de baliza, evitando assim a inferioridade numérica que sucederia se fosse um companheiro a executá-lo.
4- Deverá quebrar o ritmo de jogo ofensivo da equipa adversária, através de “demoras” na reposição da bola em jogo, de conduções de bola dentro da sua grande área, ou através de passes curtos que serão devolvidos pelo seu defesa central.
5- Assegura constantemente linhas de passe seguros aos seus companheiros, fazendo uso das vantagens que as Leis do jogo lhes conferem, no que diz respeito ao seu controlo e protecção da bola com as mãos.
6- Deverá transparecer tranquilidade, confiança e segurança aos companheiros, para que assumam comportamentos mais arriscados, pois sabem que existe confiança “nas suas costas”.
“Dentro do processo ofensivo o guarda-redes é considerado o primeiro atacante, pois devido ao seu posicionamento tem uma visão global do terreno de jogo, dirigindo essencialmente os comportamentos técnico-tácticos dos companheiros da última linha defensiva” (Castelo, 1996: p.110). O mesmo autor, também define as atitudes e comportamentos técnico-tácticos específicos do G.R. no processo defensivo em cinco aspectos:
1- Dentro do processo defensivo é considerado o último defesa, logo, a sua tarefa primordial é de proteger a baliza;
2- Deverá aconselhar e dirigir os seus companheiros tanto nas situações de bola de jogo como nas situações de bola parada, utilizando uma linguagem constituída por expressões curtas, simples e inequívocas; 3- Deverá constantemente ler o jogo e em situações de emergência deverá
sair da sua grande área e jogar a bola com os pés;
4- Evitará sair da baliza se o atacante está a ser acompanhado e pressionado por um dos seus companheiros;
5- Deverá transmitir constantemente tranquilidade, confiança e segurança aos companheiros.
Neste estudo de Castelo podemos observar os parâmetros que constituem os princípios que orientam a acção do G.R. no “Jogo”. Estes parâmetros são formalizados pelo autor de acordo com a sua concepção ideológica de jogo, assim atribui uma identidade singular aos princípios que regem os comportamentos do G.R. em jogo. Em concordância com o tema desenvolvido no ponto anterior, os princípios de jogo devem ser concebidos pelo treinador e constituem o modelo de jogo da equipa, o qual concebe a Especificidade do Jogo. “A táctica individual do guarda-redes deverá estar inserida, necessariamente, na táctica da equipa, a qual decorre do modelo de jogo preconizado” (Madeira, 2002, p. 18)
Percorrida a análise global, é imprescindível verificar quais os comportamentos tácticos que o G.R. de alto nível deve dominar.
Esteves (2006) determina de uma forma geral oito competências tácticas do G.R. de Futebol em situações normais de jogo: jogo de posição (é primordial para o comportamento táctico do G.R, determina a movimentação do G.R. em função da direcção da bola, dos seus companheiros e dos seus adversários; “Nos remates à baliza o guarda-redes deverá estar sempre na bissectriz do espaço angular, tendo como vértice a bola e como lados as linhas imaginárias da própria bola com os postes da baliza. Quando tem que parar um remate e se encontra adiantado, será muito útil ter como pontos de referência as
superior da grande área; só com estas referências poderá imaginar a sua posição em relação à baliza” (Esteves, 2006, p. 24); organizador e coordenador
da defesa (por estar situado numa posição mais recuada e privilegiada para
dirigir com a voz os movimentos da defesa, deve ter o conhecimento do modo e dos princípios que determinam o comportamento da equipa, nomeadamente das linhas estruturais organizativas com quem estabelece relação);
comportamento diante situações recorrentes (acções defensivas (pontapés de
canto, livres, lançamentos laterais e penaltis) e ofensivas (pontapés de baliza) em situações de bola parada. Pelos registos estatísticos é um momento de jogo com elevado grau de importância devido ao crescente registo de golos a partir destas situações recorrentes); iniciador do ataque (o G.R. é o primeiro atacante, em ataque posicional e contra-ataque); duelos com adversários 1x1 (é um confronto com o adversário de elevada dificuldade e o mais importante é manter o centro de gravidade baixo, o equilíbrio, as pernas e os braços semi- abertos para aguentar sem cair precipitadamente, deve ir em uma ou outra direcção ao mesmo tempo que o atacante para pressionar e ir ganhando terreno sem que ele remate. A progressão, a decisão e a agressividade são importantes neste tipo de acções porque o momento de intervir é quando a bola está mais distante do pé do avançado e fora da acção de controlo deste)
domínio – autoridade na grande área (é uma capacidade determinante e no
futebol actual não se reside a dominar só a grande área, mas também o espaço entre o G.R. e a linha defensiva. O G.R. tem de acompanhar e interpretar a situação defensiva e por exemplo, optar pela saída da baliza com determinação e interceptar o ataque adversário ou permanece na baliza; o controlo do espaço aéreo dentro da grande área em situações de cruzamentos); apoio ao bloco defensivo (o G.R. deve estar preparado para jogar perante as solicitações da sua equipa, apoiar a circulação de bola ou mesmo possibilitar a progressão da equipa no terreno de jogo através de um passe longo) gestão do tempo de jogo (o G.R. pode ter uma acção importante na gestão do ritmo de jogo, temporizando ou acelerando consoante as intenções e circunstâncias do jogo).
Oliveira (2009) interpreta a globalidade do comportamento táctico do G.R. em três tipos de acções:
- Evitar situações de perigo: através da comunicação.
- Evitar sofrer golo: saber escolher o posicionamento correcto em função da situação de jogo e da sua variabilidade e imprevisibilidade. Saber decidir o seu posicionamento e a sua acção técnica adequada.
- Depois de recuperar a bola, iniciar correctamente o jogo, as acções de posse de bola, quer seja em acção de distribuição curta ou longa.
A missão primordial do G.R. é impedir que o adversário faça golo, porém a complexidade do jogo abre o leque de comportamentos solicitados ao G.R. nos diferentes momentos de jogo.
“Face ao jogo de Futebol, tal como em qualquer outro jogo desportivo colectivo, o problema primeiro que se coloca ao indivíduo que joga, é sempre de natureza táctica, isto é, o praticante deve saber o que fazer, para poder resolver o problema subsequente, o como fazer, seleccionando e utilizando a resposta motora mais adequada” (Garganta & Pinto, 1998, p.98).