Uma maior consciência da importância da cultura material na sociedade contemporânea está na origem da multiplicação de trabalhos académicos, que se têm vindo a publicar nas últimas décadas. A relação que se estabelece entre as pessoas e os objetos apresenta-se como uma interessante área de estudo, capaz de produzir informações relevantes sobre o comportamento do ser humano. Neste contexto, os estudos realizados sobre as práticas de colecionar desdobram-se em vários domínios de investigação, analisados sob diferentes perspetivas, mediante a colaboração pluridisciplinar de várias áreas do conhecimento, como a História, a Arqueologia, a Sociologia, a Economia, a Psicologia ou a Antropologia.
Aspetos relacionados com o estudo das coleções (biografia dos colecionadores – género, idade, estatuto social e económico – tipologia dos objetos, motivações, formas de colecionar) e as políticas de coleções são analisados por investigadores como Brenda Danet e Tamar Katriel (1994), Marilynn Karp (2006), Russell Belk (1994, 1995), Roger Cardinal (1994, 2001), Ruth Formanek (1994), Frederick Baekelend (1994), Werner Muensterberger (1994), Simon Knell (2004) e Mark O’Neill, entre outros.
23 No âmbito deste universo de investigadores, destaca-se a obra de Susan Pearce, desenvolvida com o intuito de contribuir para um maior esclarecimento em relação à prática de colecionar, aos seus protagonistas e relações que estabelecem entre si, mas também de alertar para a importância do estudo da biografia das coleções, objetos e colecionadores. Para explicar a relevância do estudo da coleção, a investigadora recorre à metáfora do iceberg, que possui apenas 1/10 do seu volume acima do nível do mar, mantendo-se o restante completamente submerso. O que é visível representa os objetos da coleção, que podem ser examinados, fotografados e exibidos. Mas, o que está submerso é o invisível, o desconhecido e incerto. É aqui que se encaixa o conhecimento subjetivo das biografias e dos estudos psicológicos (2004f).
A compreensão da coleção, do seu significado e valor, passa obrigatoriamente pelo estudo das esferas do visível/exterior e o invisível/interior. Igualmente necessária é a aproximação ao colecionador e aos objetos da coleção, uma vez que este exterioriza a sua existência também através deles. O estudo das suas biografias permite o acesso a informações que, de outra forma, permaneceriam ocultas. Nenhum estudo de uma coleção está completo sem abordar meticulosamente estas questões, nenhuma coleção pode “contar” a totalidade da sua história e, consequentemente, nenhuma instituição museológica assume com responsabilidade a missão que definiu para a sua conduta ou o seu papel como lugar de descoberta e construção da memória coletiva.
A coleção é sempre o resultado da relação que se estabelece entre o colecionador e os objetos e, segundo Susan Pearce, nesse relacionamento, o objeto pode ser assumido como um
souvenir, um fetiche ou uma parte de um sistema (1994c, p. 194).
O souvenir abrange uma grande diversidade de objetos que são investidos de uma simbologia muito pessoal. Representa fragmentos de experiências e eventos passados, cujo significado é transferido pelo colecionador para os objetos, que passam a substituir a sua memória e se transformam numa extensão de si próprio. Como não possui qualquer valor utilitário, apenas sentimental, o souvenir está sempre dependente da relação social com o colecionador e o seu significado é criado a partir da narrativa construída por ele. A natureza dessa narrativa é sempre idealizada, pois a perceção do narrador recria e embeleza a experiência, sempre que é relembrada. A característica principal do souvenir é que figura unicamente como uma amostra no presente de uma experiência distante, que o objeto apenas pode evocar, mas nunca recuperar (Stewart, 1993, p. 136). Logo, esses momentos podem ser
24 relembrados, mas nunca revividos, de modo que o colecionador deseja voltar ao passado e necessita dos souvenirs para o fazer. No mundo delicado e hermético do souvenir, o passado é reconstruído através das memórias fragmentadas, numa atmosfera marcada por sentimentos de felicidade e segurança. Em contraposição, o presente é vivido com amargura e nostalgia, sendo esta última entendida como o desejo de regressar a um determinado local e época no passado e o sentimento de tristeza profunda por nunca o poder fazer. A nostalgia é, na opinião de Svetlana Boym (2007, p. 7), esse sentimento de perda de um mundo encantado, de deslocamento, mas também de romance entre o colecionador e a sua própria fantasia. Uma coleção de souvenirs adquire a forma de uma autobiografia e os objetos representam os momentos mais marcantes da vida do colecionador. De certa forma, este tipo de coleção permite criar o que Tracey Benson designa de “museum of the personal” (2001, p. 90). As coleções de souvenirs tendem a ser vistas com indiferença, mesmo no seio de uma instituição museológica. Consciente desta realidade, Susan Pearce (1993a) afirma que se o colecionador não for uma personalidade conhecida ou se os objetos não forem muito interessantes, a coleção é facilmente desvalorizada e esquecida numa reserva. A natureza dos objetos e o seu significado, “lost youth, lost friends, lost past happiness” (1993a, p. 72), torna-os valiosos apenas para o colecionador. Por isso, Susan Stewart defende que o souvenir está destinado a ser esquecido, um processo que se inicia com a morte da memória, a morte do colecionador (1993, p. 151).
Ao longo dos tempos, diversos investigadores debruçaram-se sobre a interpretação do conceito de fetichismo, analisado segundo as metodologias próprias da sua área de especialização. Em todas as perspetivas (económica, antropológica, psicológica), o fetichismo foi apresentado como uma obsessão por objetos inanimados, que controla e manipula o indivíduo, levando-o a agir de forma incontida e irrefletida para saciar o seu desejo, ou seja, a obtenção do objeto da sua fixação (Benson, 2001, pp. 12-32). No universo do colecionismo, o fetichismo manifesta-se de maneira semelhante. O colecionador obsessivo não consegue dominar o impulso irracional de adquirir os objetos que se tornaram o alvo da sua fixação. O que o move não é o valor económico do objeto fetiche, mas os seus atributos sobrenaturais que o transformam num verdadeiro troféu, irresistível para o colecionador fetichista. Como resultado, o colecionador, dominado pela sua obsessão, vê-se obrigado a adquirir continuamente novos objetos, um processo associado a poderosas emoções, que alimentam todo o ciclo vicioso. O colecionador não procura e adquire os objetos porque efetivamente necessita deles, mas porque os objetos são fascinantes para ele e por isso os deseja,
25 independentemente dos esforços ou do dinheiro que tenha de despender. O fim da coleção está, geralmente, ligado à morte do colecionador, à sua falta de recursos ou a uma mudança de interesse. Segundo Susan Pearce (1994c, p. 200), a natureza fetichista desta relação entre o colecionador e o objeto determina a subordinação do colecionador ao objeto, sendo o objeto o construtor da personalidade do colecionador.
Numa coleção sistemática, o objeto é encarado como um exemplar selecionado num universo de outros idênticos para completar um determinado conjunto. Este tipo de coleção assenta em metas racionais e numa organização metódica dos objetos, preenchendo-se os requisitos necessários para a criação de uma relação interativa e pedagógica entre a coleção e um público. É também o reflexo de um colecionador com preocupações intelectuais (Pearce, 1994c, pp. 201-202).
A importância das coleções no seio das instituições museológicas é reconhecidamente crucial. Os museus têm na sua origem coleções e é a partir delas e do seu estudo que desenvolvem todas as suas atividades. A relevância das coleções prende-se também com o facto de serem um instrumento precioso na concretização da missão do museu, tal como defende Alice Semedo ao afirmar que «[s]e a natureza dos museus se relaciona intimamente com as suas coleções então a investigação – bem como o desenvolvimento de competências associadas à investigação das coleções – tem de continuar a ser sempre uma das suas funções primeiras. Para que os museus possam cumprir a missão não podem deixar de investir na aquisição e conhecimento sobre as coleções, reavaliando a sua importância, questionando, renegociando as suas interpretações» (2010c, p. 309).
Apesar da Lei Quadro dos Museus Portugueses estabelecer que o museu tem a obrigação de valorizar as coleções que constituem o seu acervo, através do seu estudo e investigação3, esta função é ainda frequentemente desvalorizada (Brigola, 2008a; Semedo, 2004a). Mesmo no contexto de uma conjuntura económico-financeira particularmente difícil para os museus e das responsabilidades acrescidas que se lhes exigem, o estudo de coleções
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Lei nº 47/2004 de 19 de agosto. Capítulo II, Secção I, Artigo 7º: Funções do museu: a) Estudo e investigação; Artigo 8º: Estudo e investigação: O estudo e a investigação fundamentam as ações desenvolvidas no âmbito das restantes funções do museu, designadamente para estabelecer a política de incorporações, identificar e caracterizar os bens culturais incorporados ou incorporáveis e para fins de documentação, de conservação, de interpretação e exposição e de educação; Artigo 9º: Dever de investigar: 1 - O museu promove e desenvolve atividades científicas, através do estudo e da investigação dos bens culturais nele incorporados ou incorporáveis; 2 - Cada museu efetua o estudo e a investigação do património cultural afim à sua vocação; 3 - A informação divulgada pelo museu, nomeadamente através de exposições, de edições, da ação educativa e das tecnologias de informação, deve ter fundamentação científica.
26 permanece relegado para segundo plano e não se sente que haja uma real consciência das suas potencialidades e dos benefícios que podem proporcionar.
A propósito de estratégias para ultrapassar momentos de estagnação nos museus, David Fleming (2008, pp. 247-257) aposta precisamente no estudo das coleções para dinamizar os museus ao nível interno (deteção e prevenção de problemas de conservação e segurança, inventário, documentação) e externo (exposições, palestras, workshops, publicações, programas educativos de qualidade), para conquistar novos públicos, e diversificar as fontes de financiamento e aumento de receitas.
O museu é, na sua essência, um arquivo de “memórias objetificadas” (Crane, 2000, p. 2), que necessitam de ser preservadas, estudadas, interrogadas, debatidas e interpretadas para que possam, efetivamente, beneficiar a sociedade e o seu desenvolvimento. A relevância do estudo das coleções no museu, com devido enfoque nas suas biografias, assenta na produção de investigações mais completas e estruturadas que, por sua vez, dão origem a leituras mais ricas e plurais das mesmas. Compreende-se melhor as pessoas, a forma como modelam a sua vida a partir dos objetos que colecionam, as relações que se criam, o conhecimento que se produz. É todo um processo que beneficia os museus e os seus visitantes, uma vez que lhes possibilita interagir não apenas com os objetos colecionados, mas também com o próprio colecionador, a sua biografia, memórias pessoais e desejos, por intermédio da coleção.
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As questões abordadas neste capítulo procuraram criar uma contextualização para a compreensão do estudo da coleção que se pretende desenvolver nesta dissertação de mestrado. A breve reflexão sobre a definição de “coleção”, assente na sistematização de vários contributos, destacou a problemática atual em torno de um conceito que necessita de um debate e reflexão contínuos, que permitam o seu melhoramento, para que possa ser um reflexo da realidade do seu tempo.
A análise da importância do objeto ao longo do tempo como mecanismo de interpretação e posicionamento do indivíduo perante um mundo que nem sempre se revelou de fácil compreensão também se mostrou pertinente neste primeiro capítulo. O estudo de uma
27 extensa bibliografia permitiu verificar que a prática de colecionar objetos ofereceu e continua a permitir ao indivíduo a possibilidade de construir a sua própria identidade, de criar um discurso social pleno de significados e de se sentir parte de um universo alternativo, fruto da sua visão, escolha e vontade. Por outro lado, a relevância da prática de colecionar como fenómeno social transformou-a numa área de estudo bastante estimulante, tendo em consideração o potencial de informação que pode revelar sobre o ser humano. A história do homem é também uma história de objetos e a prática de colecionar simboliza uma das formas como este relacionamento se concretizou desde os tempos recuados da Pré-história até à atualidade.
As coleções representam um imenso universo informacional. O estudo das suas biografias permite conhecer o colecionador (a sua história de vida, o seu perfil de colecionador, as suas motivações e preferências, o seu tempo e a sociedade na qual se integra), o objeto colecionado (a sua história de vida, caraterísticas físicas, técnicas de produção, as funções que desempenhou, os seus significados sociais) e a coleção (a sua história de vida, o seu percurso desde a sua criação até à atualidade). Inseridas em museus, que nascem, crescem e desenvolvem as suas atividades a partir delas, o estudo de coleções reveste-se de uma importância acrescida por consentir que a coleção assuma a sua função como «(…) instrumento de memória contra o esquecimento que o tempo promove» (Duarte, 2012, p. 55).
No segundo capítulo deste trabalho, propõe-se o estudo de uma coleção de postais ilustrados, legada ao Museu Martins Sarmento nos finais da primeira metade do século XX. Mas como se estuda uma coleção não documentada? Que histórias contará uma vez que nunca foi estudada, exibida ou publicada? Como se investiga um colecionador desconhecido que faleceu há sessenta e cinco anos? Pretende-se que este estudo se concretize a partir da recuperação e análise das respetivas biografias e do cruzamento das informações recolhidas, por forma a dar origem a uma narrativa.
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