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5-1-Les représentations sociales :

3.1.1 A produção nos inícios do período republicano: o contexto sociopolítico inicial

No final do século XIX a sociedade brasileira estava em fase de transição, não só politicamente, com a implantação da República em substituição ao sistema monárquico, como também socialmente, com o aumento da população urbana em detrimento da rural (pertencendo uma parcela dessa população urbana à chamada “burguesia”). Nesse período a preocupação com a educação tornou-se uma realidade no país, muito embora a maioria das crianças que frequentavam as poucas escolas existentes no Brasil era, como mostra Zilberman (2005), pertencente à classe alta da sociedade.

A produção literária que atendia esse público estudantil era justamente a de cunho didático. Lajolo e Zilberman (2009) diz que o que se tinha no Brasil no final do século XIX e início do XX, com relação ao material infantil, eram traduções e adaptações de obras consagradas, tais como “As aventuras de Robinson Crusoé”, os clássicos de Grimm, Perrault etc. Segundo as autoras, dentre as obras que mais inspiraram os autores brasileiros do século XIX estão Le tour de la France par deux garçons, de G. Bruno (1877) e Cuore, de Edmond de Amicis (1886), obras que tinham como protagonistas crianças que aprendiam deveres, tais como o sentimento de família, o amor à pátria, a prática das virtudes civis, entre outros fartamente utilizados pelos escritores que produziram naquela época. Servem como exemplos de autores que se apoiaram nesses recursos para produzir suas obras Júlia Lopes de Almeida e Adelina Lopes Vieira, cujos textos fazem parte do córpus deste trabalho (especificamente

textos que são parte integrante do livro Contos infantis e que tiveram uso corrente como material didático).

Dessa forma, a literatura infantil tornou-se “preferencialmente educativa e bem comportada, podendo transitar com facilidade na sala de aula ou, fora dessa, substituí-la” (LAJOLO; ZILBERMAN, 2009, p. 54). Mas uma história destinada a crianças também pode trazer ensinamentos sem ser especificamente educativa ou pedagógica, muito embora a maioria das obras destinadas ao público infantil que foram produzidas nesse período, como sugere Zilberman (2005), seguisse esse viés, mantendo-se fortemente inspirada pela literatura estrangeira. Por conta disso (a forte influência estrangeira), tornava-se cada vez mais evidente a necessidade de que se produzissem textos infantis que fossem genuinamente brasileiros, e a partir, que trouxessem as marcas dessa transição.

3.1.2 Do início do século XX à atualidade: os caminhos da literatura infantil

No período pós-modernista, o nacionalismo passou a predominar não só na literatura como em todos os segmentos culturais e sociais da época. A publicação do livro A menina do

narizinho arrebitado, de Monteiro Lobato (1920), abriu caminho para que as mudanças que,

por conta do modernismo, vinham sendo observadas na literatura destinada ao público adulto, atingissem também a literatura infantil (COELHO, 2000). Afinal, a literatura infantil e a não infantil são, segundo Lajolo e Zilberman (2009, p. 11), “como polos dialéticos do mesmo processo cultural que se explicam um pelo outro, delineando, na sua polaridade, a complexidade do fenômeno literário num país com as características do nosso”. E na verdade, o que singulariza a literatura infantil é o seu público alvo: a criança.

Nos anos 1940 e 1950, tornou-se recorrente na literatura para jovens a tematização da infância, quer focalizando literalmente crianças quer simbolizando-as por meio de outras espécies, como bichos e bonecos animados (LAJOLO; ZILBERMAN, 2009, p. 111). Isso significa que modelos antigos da literatura, tais como o conto de fadas e a fábula, continuavam a servir como base para os textos produzidos no Brasil.

Quanto à destinação infantil, o conto de fadas “é a forma modelar, primária, da narrativa, imprescindível ao crescimento afetivo da criança”, pois trata-se de uma narrativa simples, direta e acessível, cuja trama quase sempre faz parte do cotidiano infantil (CARVALHO, 1989, p. 189). Por outro lado, quanto a essa mesma destinação, Lajolo e Zilberman (2009) mostram que a fábula (modalidade na qual as personagens humanas são

convertidas em não humanas) tem, normalmente, duas características inerentes: animal simbolizando a criança e postura doutrinária, transmitindo ensinamentos morais. Esse fato de na fábula os animais representarem o tema ou a personagem sugere que, na perspectiva do adulto (que produz o texto), a criança, muitas vezes, tem o seu comportamento muito próximo do comportamento dos animais, o que, de acordo com Nikolajeva e Scott (2011), a faria identificar-se mais facilmente com um texto desse gênero, ou com um texto que se aproxime dele, em termos de estrutura. O que se sabe é que, seja em maior seja em menor proporção, até hoje esses dois modelos, o conto de fadas e a fábula, contribuem, e muito, para a produção literária infantil.

Uma volta ao percurso da literatura destinada às crianças mostra que, a partir dos anos 60, essa modalidade conheceu uma “multiplicidade de caminhos, tendências, estilos e diretrizes” (COELHO, 2000, p. 150), as quais têm sido operacionalizadas desde então. A autora sugere que o que de fato caracteriza a contemporaneidade de uma literatura – no caso, a infantil – é a intenção de estimular a consciência crítica do leitor, permitindo que ele desenvolva tanto a sua expressividade quanto a sua criatividade, e, além disso, que ele dinamize sua capacidade de observar e de refletir sobre o mundo em que vive, tornando-se consciente da realidade na qual em algum momento poderá ter participação ativa. Independentemente de uma obra trazer ou não em si essas características, cada criança terá a sua maneira particular de interagir com uma obra literária, bem como de interpretá-la, pois uma criança – assim como qualquer indivíduo – é única no universo discursivo.

Apesar das mudanças observadas desde o início da produção brasileira, demorou para que a literatura infantil fosse valorizada pela crítica especializada, porque, para ela, diferentemente das obras que tinham como público alvo os adultos, essa modalidade literária estava destinada apenas à distração ou ao aprendizado das crianças que liam ou ouviam as histórias contadas por alguém (COELHO, 2000). Tanto isso é fato que, como aponta Cunha (1999), muitos autores relutavam em dizer que escreveram seus textos para crianças, afirmando, ao invés disso, que haviam escrito sem destinatário certo.

Lajolo e Zilberman (2009) sugerem que uma das razões pelas quais a literatura infantil teve, quase sempre, um reconhecimento artístico menor, em comparação com os demais gêneros, tem a ver com a profissionalização deficitária que surgiu entre os anos 1940/1960. Como mostram as autoras, nesse período houve um aumento na produção de textos novos, o que possibilitaria ao escritor tornar-se um profissional na arte de escrever, no entanto muitos autores, ao invés de aproveitarem essa oportunidade para uma inovação em suas obras, no sentido de edificar e valorizar a literatura infantil brasileira e, por conseguinte, a profissão de

escritor, produziam textos que apostavam em fontes já conhecidas e exploradas. Assim, o que se tem entendido é que essa produção em nada contribuiu para elevar o reconhecimento da literatura destinada às crianças.

O grande surto inovador na literatura infantil ocorreu nos anos 1970 e 1980. Segundo Coelho (1991), foi nessa época que tal modalidade literária começou a ser de fato valorizada, inclusive no exterior, pois em 1983, Lygia Bojunga Nunes foi agraciada com o Prêmio Hans Christian Andersen – um dos mais importantes prêmios da literatura infantil –, pelo conjunto de sua obra. Por esse percurso, é de esperar que a literatura destinada ao público infantil seja cada vez mais valorizada no mercado editorial.