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Annexe1 : Le questionnaire :

Em A coisa, a manutenção do cãozinho se torna ainda mais marcada: ele continua sem ter voz no texto verbal, mas atua, em muitas cenas, mais do que as outras personagens que têm voz na narrativa. Na verdade, o que se vê é uma integração entre aquele que seria o animal de estimação e a família que o mantém. A participação afetiva do animal nesta cena inicial é pequena:

Figura 20 – Página 4 do livro A coisa Autora: Ruth Rocha (1997a) Ilustração de Cláudio Martins

O cão é introduzido, junto a Alvinho, na porta do porão da casa do avô do menino. Na imagem aparece apenas parte de ambos: do menino, o pé, a perna e o braço direito, além de parte do abdômen; do cão, a perna esquerda e parte da cabeça. Nessa introdução, a figura do animal sugere uma atitude humana (a precaução) que é típica de quem, no caso dessa história, desceria com cuidado as escadas do porão, de lâmpadas queimadas, no qual “a família guarda tudo que ninguém sabe bem se quer ou não quer” (p. 3). Quem ganha proeminência nessa cena é o rato, que se “agiganta” na parte inferior da ilustração. Muito embora essa personagem só participe desse momento da história, seu destaque provavelmente se dá pelo fato de ele ser um ícone desse tipo de ambiente (o porão). Voltando ao cãozinho em análise, a descrição de suas características, que poderia ser obtida linguisticamente, na cadeia sintagmática do texto, tende a ser construída pela criança por inferência que brota do oferecimento da imagem.

Na segunda ilustração do cão, já ocorre ver uma relativa progressão referencial, pois ele começa a interagir com os outros atores da história, muito embora ainda esteja apenas acompanhando as ações dos outros integrantes presentes na cena:

Figura 21 – Páginas 8 e 9 do livro A coisa Autora: Ruth Rocha (1997a) Ilustrações de Cláudio Martins

Nessas páginas apenas aparece apenas parte da cabeça do cãozinho, entretanto sua figura guarda proporção com a figura das outras duas personagens que fazem parte da cena da página 9, o que pode significar que todos desempenham papéis de igual importância.

O animal participa do momento de apreensão vivido pelos outros atores, que ficam intrigados (e provavelmente com medo) por conta da reação do avô de Alvinho (cuja imagem vem em destaque na página 8), figurado na sua ida ao porão para verificar se naquele lugar

havia de fato “um monstro com luz saindo da barriga”, e figurado na sua volta, quando ele grita: “– A coisa é pavorosa! Muito alta, com olhos brilhantes, como se fossem de vidro! E na cabeça uns tufos espetados pra todos os lados!”.

Ao mesmo tempo que o avô descreve verbalmente “a coisa”, as outras personagens, inclusive o cãozinho, “imaginam” como é esse monstro. Ele vem em um balão, artifício que une a linguagem verbal e a imagética, representando concomitantemente o que se narra (no texto escrito) e o que se imagina para a cena.

A progressão referencial do cãozinho começa a concretizar-se de fato, quando ele aparece de corpo inteiro, pela primeira vez na trama, nesta imagem da página 11:

Figura 22 – Página 11 do livro A coisa Autora: Ruth Rocha (1997a) Ilustração de Cláudio Martins

Embora a imagem da outra personagem (o tio Gumercindo) seja maior do que a do cão, já se pode notar um destaque maior dado ao cão. Ele deixa de ser figurante e ganha uma ação completa dentro da cena. Ainda que nada disso esteja explícito na representação ilustrativa e nenhuma referência a isso haja no texto verbal, a imagem faz supor que o cãozinho, junto com o tio de Alvinho, desceu ao porão para investigar se lá havia ou não um monstro, e voltou de lá como voltaram todos aqueles que se propuseram fazer a mesma coisa: correndo e assustado, pois obviamente seria impossível ele gritar, como o fizeram os outros (“E voltou, como os outros, correndo e gritando”). Daí para diante o cãozinho continua participando ativamente das cenas, e, além disso, vão-se acrescentando novas características dele, a cada vez que aparece.

Um exemplo disso vem na cena em que a avó de Alvinho, Dona Juliana, decide ir ao porão para verificar o que está de fato acontecendo, pois, segundo ela, fantasmas não existem. Nessa ilustração volta a aparecer novamente apenas parte do cãozinho (a cabeça, uma orelha e uma pata), no entanto, a progressão de seu envolvimento na história, que havia iniciado na cena anterior (figura 22 – p. 98), continua, como se pode verificar na imagem a seguir:

Figura 23 – Páginas 14 e 15 do livro A coisa Autora: Ruth Rocha (1997a) Ilustrações de Cláudio Martins

A presença do cãozinho na trama não diminui a começar pelo fato de que só ele vem junto à avó na imagem. Quando a avó afirma, no texto verbal, que fantasmas não existem, Alvinho lhe diz: “mas o meu medo existe!”, ativando um clima de tensão entre as personagens que participam da cena. Dentro desse cenário de medo, embora todos os atores estejam apreensivos pelo fato de a avó ter decidido ir ao porão verificar o que havia por lá, a personagem que mais demonstra estar com medo é o cão, que aparece, no cantinho inferior da página 15, com a patinha no olho e umas gotinhas acima da cabeça (supostamente de suor), típica reação de quem está em estado de tensão. Nesse ponto, evidencia-se uma característica do animal que o pareia com Alvinho: ele é medroso, pois, assim como o menino, tem medo de fantasmas.

A história contada em A coisa gira em torno de um espelho que foi guardado em um porão e, posteriormente, coberto com um lençol. Um dia esse lençol caiu, e, como o lugar estava sem luz, cada personagem que se arriscava a descer até lá via algo diferente e achava que era um fantasma ou algo do tipo, quando, na verdade, tratava-se do reflexo distorcido da própria pessoa (possível de observar-se por conta do escuro). Depois de Dona Juliana ter

descoberto isso, e a família ter-se sentido aliviada, Alvinho foi verificar o espelho, e, com essa ação do menino, a história ilustrada chega ao fim. Estas são as duas páginas finais da obra:

Figura 24 – Páginas 22 e 23 do livro A coisa Autora: Ruth Rocha (1997a) Ilustrações de Cláudio Martins

A observação dessas imagens finais deixa reiterado tudo o que se disse neste estudo sobre o “quase protagonismo” (não verbal, mas imagético) do cãozinho: afinal, é ele, e não outra personagem que tenha sido citada no texto verbal, que aparece junto ao protagonista, Alvinho, encerrando a história. Não está explícito, linguisticamente, mas é possível, mais uma vez, inferir-se que o animal, tendo ido com o menino ao porão, para verificar o espelho revelado por Dona Juliana, assustou-se tanto quanto seu dono, e saiu em disparada. Introduzido apenas sugestivamente como amigo fiel de Alvinho (o animal de estimação que acompanha o dono), e sem ser citado no texto escrito, o cão foi gradativamente ganhando espaço na trama, a ponto de ser considerado, nesta análise, ao lado de Alvinho, uma personagem “principal”. Naturalmente, a construção e a reconstrução da figura do animal, no transcrever das páginas, contribuíram, com certeza, para a progressão da trama (KOCH; ELIAS, 2012), acrescentando sutileza e graça ao texto verbal.

Para um trabalho que tem como cerne a referenciação, especialmente o processo de introdução e de manutenção da personagem, o cão da série As aventuras de Alvinho é, portanto, bastante significativo para análise, e várias indicações podem ser feitas nesse sentido:

1 – A verificação da organização referencial é, em geral, realizada no texto verbal, no qual o referente é introduzido e retomado, configurando uma cadeia que é composta por elementos fóricos. Como já se disse, os elementos selecionados para compor essa teia (sintagma nominal, pronome ou zero) podem conduzir o leitor/ouvinte a um grau maior ou menor de descrição do referente (NEVES, inédito). Por outro lado, como se trata de textos verbais com ilustrações, a possibilidade de organização referencial é distinta, pois o referente (o cão) foi introduzido (na cena inicial) e retomado (nas cenas posteriores) fora do texto verbal, apenas por imagens. Além disso, a cada cena de que o animal participou, tanto em

Quando eu for gente grande quanto em A coisa, pôde ser acrescentada alguma característica

psicológica a ele, o que não é muito usual, uma vez que cabe à imagem, em geral, a descrição física, não a psicológica (NIKOLAJEVA; SCOTT, 2011).

2 – Esse tipo de composição, no qual um referente é introduzido sem que tenha sido mencionado no texto verbal, pode ocorrer em qualquer obra ilustrada, infantil ou adulta, embora se possa entender ser mais comum em textos infantis. No caso desse cãozinho há, ainda, um argumento a ser considerado: o fato de os livros analisados em que ele aparece integrarem uma série (As aventuras de Alvinho), produto editorial que, normalmente, tem um núcleo fixo de personagens; ou seja, o cão, uma vez introduzido verbalmente (apontando-se que isso aconteceu no texto Alvinho, o edifício City of Taubaté e o cachorro Wenceslau, segundo livro da série), poderia voltar em qualquer outra das obras, sem demais explicações. Esse argumento dispensaria, de certa forma, a análise de apenas um ou dois livros da coleção, como se propôs aqui. No entanto, deve-se considerar que o leitor, mesmo sabendo que se trata de uma série, nem sempre tem acesso a todos os livros que a compõem, o que poderia, em certa medida, implicar dúvida, por parte do receptor, quanto à configuração e à participação de tal personagem.

É fato que, em um texto verbal ilustrado, um referente pode ser introduzido e retomado só por imagens, sem necessariamente ter sido mencionado na parte escrita. No entanto há que se considerar que esse tipo de composição imagética é vinculado ao ponto de vista do ilustrador, que, como ponderou Cláudio Martins (o ilustrador dessas obras comentadas), em geral tem liberdade para desenvolver seu trabalho artístico. Por conta disso, o mesmo texto verbal, ilustrado por mais de um profissional, normalmente, apresenta diferentes composições imagéticas, o que. Isso significa que uma personagem que foi introduzida e retomada apenas por imagens (caso analisado nesta subseção) possivelmente não virá na ilustração de outro profissional.