Uma amostra das diferenças na construção imagética pode ser verificada ainda nos dois textos analisados na subseção anterior: Quando eu for gente grande e A coisa. Os textos que compõem essas duas obras de Ruth Rocha foram ilustrados, em 2010, por Suppa (ver metodologia), que também ilustrou os outros cinco livros da série.
Nessa nova edição, o referente introduzido e mantido imageticamente (o cãozinho) no trabalho de Cláudio Martins (e não só nos dois livros aqui analisados)37 não participa das cenas. Fica evidente que as cenas construídas por Suppa, em 2010, surgem especificamente a partir das predicações que constroem o texto verbal, como se observa, por exemplo, no caso do texto Quando eu for gente grande, com as cenas ilustradas e comentadas a seguir:
Figura 25 – Páginas 14 e 15 do livro Quando eu for gente grande Autora: Ruth Rocha (2010a)
Ilustrações de Suppa
Verifica-se que a cena é montada com duas predicações nucleares, “eu vou saber todas as lições” e “eu não vou”, emolduradas temporalmente pelas predicações de temporalidade “quando eu for gente grande” e “quando a professora me chamar lá na frente”, respectivamente. Alvinho vem em destaque, no canto inferior esquerdo da página 14, em
37 Como já se disse na metodologia, com exceção de No caminho de Alvinho tinha uma pedra, o cãozinho
tamanho maior do que o de seus colegas de sala e representado com ar de quem tem mais amadurecimento do que os outros. Ou seja, fica sugerido que esse Alvinho criança imagina quais seriam suas ações, reações ou atitudes quando adulto, mantendo-se, entretanto, em uma sala de aula dentro desse mesmo cenário escolar atual. Além disso, na cena, três crianças (alunos) olham para o menino com ar de surpresa e de espanto, aparentemente chocados com essa atitude de Alvinho, inusitada para um aluno.
A aparência amadurecida de Alvinho vem sugerida desde a capa, exposta a seguir:
Figura 26 – Capa do livro Quando eu for gente grande Autora: Ruth Rocha (2010a)
Ilustração de Suppa
Nessa imagem da capa, Alvinho usa um acessório que não é comumente usado por crianças: uma gravata. Não só esse adereço, como também a camisa e a aparência física da personagem mostram, logo de início, um Alvinho que já é “gente grande”. Ou seja, já na capa, a ilustração é construída a partir da predicação emoldurada temporalmente pela oração “quando eu for gente grande”, oração temporal que permeia toda a narrativa e, que direta ou indiretamente contribui para a construção do texto imagético, emoldurando-o.
A figura desse menino, que solta a imaginação para construir episódios de sua vida daí a alguns anos, é diferente da imagem do Alvinho que vem ilustrada nos outros livros da série ilustrada por Suppa, em 2010. Sirva como exemplo a imagem que segue:
Figura 27 – Folha de rosto do livro A coisa
Autora: Ruth Rocha (2010b) Ilustração de Suppa
Nessa ilustração do livro A coisa, Alvinho é o mesmo menino das outras histórias que fazem parte da série Toda criança do mundo. Comparando-se essa imagem com as de Quando
eu for gente grande, comentada nesta análise, supõe-se que esse menino cresceu e que, de
fato, ele já é “gente grande”, ainda que isso seja apenas ficcional. Essa transição é mostrada por meio das imagens, nas quais se veem mudanças das características físicas da personagem. São essas minúcias nas construções imagéticas que evidenciam que cada cena é desenhada a partir do ponto de vista particular do profissional que a cria (COELHO, 2000).
Nesse sentido, retoma-se o cenário do ambiente escolar de Alvinho em Quando eu for
gente grande, para mostrá-lo sob o ponto de vista do ilustrador Cláudio Martins. A cena
desenhada por ele também vem em página dupla, e, como se mostrou na análise da figura 15 (p. 92), é uma das cenas em que o cãozinho é personagem introduzida e mantida imageticamente:
Figura 28 – Páginas 12 e 13 do livro Quando eu for gente grande Autora: Ruth Rocha (1999b)
Ilustrações de Cláudio Martins
Embora tanto essa ilustração quanto a de Suppa (figura 25 – p. 102) ocupem página dupla, observa-se que, naquela, ambas as páginas são destinadas à mesma cena (uma situação que ocorre dentro da sala de aula da personagem protagonista), enquanto, nesta, são criadas duas cenas para um mesmo tema de sala de aula:
a) na página 12, o menino, sempre acompanhado de seu “fiel escudeiro”, supostamente imagina como será a sua participação na aula quando ele for gente grande (situação que vem explicitada no texto escrito da página 13);
b) na página 13 vem a ilustração da situação “imaginada” por Alvinho.
O ilustrador cria um ambiente no qual a cena é contextualizada, e nela está Alvinho (que ocupa a primeira carteira e já não tem mais a aparência de menino e tampouco traja o figurino que ele usava quando criança, aquela camisa vermelha com a letra A maiúscula), assim como todas as outras personagens, ao invés de surpreenderem-se, comemoram o fato de o colega não precisar ir à frente da sala para dar explicações aos alunos.
Ainda nestas indicações sobre as diferentes concepções de criação, vale mostrar um exemplo, retirado do outro livro aqui analisado: A coisa. Na edição desse livro publicada em 2010 desaparece o cãozinho, notando-se também a supressão de outras persoangens que aparecem na versão de 2004: as crianças e a mulher, provavelmente tia de Alvinho, que vêm na imagem a seguir:
Figura 29 – Página 16 e 17 do livro A coisa
Autora: Ruth Rocha (1997a) Ilustrações de Cláudio Martins
Dessa cena participam o avô (com o cãozinho nos braços), a mãe de Alvinho (de vestido vermelho)38, o tio Gumercindo (de camisa branca), Alvinho (no canto inferior direto), as duas crianças (no canto inferior esquerdo), a avó, de costas, descendo para o porão, e uma mulher (de vestido azul) – que não é identificada no texto verbal, mas que, pelo elenco participante da história, supõe-se que seja uma tia do protagonista.
Algumas dessas personagens, que também fizeram parte de outras cenas desse livro, não foram mencionadas no texto verbal (a mãe, a suposta tia e as crianças), no entanto pode- se considerar que elas tenham sido introduzidas indiretamente no texto verbal pela expressão nominal definida a família (“A família veio toda atrás, assustada, morrendo de medo do monstro...”), estabelecendo-se aí uma relação meronímica (MARCUSCHI, 2001), ou seja, uma relação semântica entre as partes (as personagens que vêm na imagem) e o todo (a família). O uso dessa expressão no enunciado faz a incorporação, nas imagens de personagens sem participação no texto verbal.
Na edição de 2010, na cena construída a partir do texto verbal no qual o referente a família é introduzido aparece um número reduzido de personagens, como mostra esta imagem:
38
Sabe-se que se trata da mãe de Alvinho, não porque ela tenha sido especificada no texto verbal, mas pelo fato de o livro, como se sabe, ser o terceiro de uma série composta por sete, ou seja, ela já é uma personagem conhecida do leitor, pois foi introduzida em No caminho de Alvinho tinha uma pedra... , o primeiro da coleção.
Figura 30 – Página 22 e 23 do livro A coisa Autora: Ruth Rocha (2010b) Ilustrações de Suppa
Além do cãozinho, da mulher de vestido azul e das crianças, tio Gumercindo, uma das personagens secundárias da trama – introduzido e mantido no texto verbal – também é suprimido nessa cena. Por outro lado, nessa imagem, como em outras que fazem parte da publicação de 2010, aparece uma personagem (não referida na parte escrita) que não se vê na obra de 2004, ilustrada por Cláudio Martins: o pai de Alvinho.
Em suma, comparando-se o trabalho dos dois ilustradores com relação às personagens que aparecem nessa cena, verifica-se que: (i) diferentemente de Alvinho, de seu avô e de sua avó, tanto o pai quanto a mãe do menino não são mencionados na parte escrita de nenhuma das duas edições em análise (ambas com o mesmo texto); (ii) na edição de 2004, apenas a mãe do menino, embora não venha no texto verbal, aparece nas ilustrações, dessa e de outras cenas); (iii) na edição de 2010, tanto o pai quanto a mãe de Alvinho são intoduzidos e mantidos por meio das imagens.
Nota-se por aí que a ilustração pode oferecer ao leitor, a partir de um texto base, histórias um tanto diferentes, onde ora é acrescentado ora suprimido um objeto de discurso, provando-se uma composição imagética que dá sustenção à narrativa.