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III. TRAITEMENT COGNITIF DES INFORMATIONS SPATIALES

III.1. Représentation cognitive d‟environnements complexes réels

Ao optar por trabalhar com as representações sociais que integram as mídias desde a década de noventa do século passado, elegi um caminho que me conduzirá a buscar os sentidos da história do presente. Uma história que envolve as personagens femininas centrais de desenhos animados e de filmes de animação. Seres que não são de carne e osso, mas que têm uma existência psíquica, se considerarmos que habitam o imaginário de crianças e adultos, fornecendo-lhes modelos de comportamento e de felicidade.

Considero-as tão importantes para se compreender a sociedade contemporânea quanto quaisquer seres de carne e osso e até mais, por serem modelos e exemplos. É preciso relembrar que, ao adotar os imaginários como objeto de estudo permito-me ir em busca dos sonhos e das fantasias vivenciadas pelas pessoas. O mundo da animação, de um modo geral formado por princesas, bruxas, vilãs e super-heroínas, é um excelente campo para a pesquisa das representações sociais.

Meu objetivo central é buscar as diferentes formas com que as mídias representam as mulheres. Que tipos de corpos são valorizados? Quais os modelos de beleza em voga? Quais as qualidades que uma mulher precisa reunir para se tornar heroína? São as mesmas necessárias aos homens? O que as personagens mais anseiam? Casarem-se e transformarem-se em rainhas do lar ou serem valorizadas pela astúcia? Quais são seus modelos de felicidade? A inteligência é um atributo valorizado no meio social em que elas transitam?

As perguntas que faço aos meus objetos não são casuais, mas, ao contrário, elas me permitem elaborar uma história assumidamente feminista e política, como afirmara antes. Questões que me interpelam, mas apenas balizam o caminho a percorrer na análise e interpretação de meu objeto. Que surpresas não me esperam? Não pretendo apenas trilhar sentidos já presentes em minhas próprias representações sociais, mas estar atenta ao inesperado.

Afinal, de que maneira as duas mídias que escolhi para trabalhar estão participando da construção do gênero feminino? Parto do princípio que os gêneros são construídos e que as mídias participam dessa construção. O conceito de gênero com o qual trabalho não está atrelado ao de diferença sexual, dado, como afirma Lauretis, que

“Com sua ênfase no sexual, a ‘diferença sexual’ é, antes de mais nada, a diferença entre a mulher e o homem, o feminino e o masculino; e mesmo os conceitos mais abstratos de ‘diferenças sexuais’ derivados

não da biologia ou da socialização, mas da significação e de efeitos discursivos (...) acabam sendo em última análise uma diferença (da mulher) em relação ao homem – ou seja, a própria diferença no homem. (1994: 207).

Navarro-Swain, por sua vez, ao questionar a noção de diferença sexual que regeu os estudos de gênero durante décadas, observa “O binômio sexo/gênero se traduz de maneira implícita e natural em sexualidade reprodutiva, heterossexual e instala então a imagem da “verdadeira mulher” cuja função materna desenha os contornos e as funções sociais de um corpo sexuado”. (2000: 50).

Lauretis estabelece duas limitações existentes no conceito de gênero,

“A primeira limitação do conceito de ‘diferença(s) sexual(ais)’, portanto, é que ele confina o pensamento crítico feminista ao arcabouço conceitual de uma oposição universal do sexo (...) o que torna muito difícil, se não impossível, articular as diferenças entre mulheres e Mulher, isto é, as diferenças entre as mulheres ou, mais exatamente, as diferenças nas mulheres”. (1994: 207).

A segunda limitação, na avaliação da autora, “é que ele tende a reacomodar ou recuperar o potencial epistemológico radical do pensamento feminista sem sair dos limites da casa patriarcal”. (1994: 207/208). O impasse, segundo a autora, precisa ser superado. Para isso, Lauretis (1994: 208) sugere que se comece a pensar o gênero a partir de uma visão teórica foucaultiana, qual seja, o de que a sexualidade é uma tecnologia sexual.

Como nos propõe Lauretis (1994: 209), o gênero é uma representação e a representação do gênero é a sua construção. O gênero não é uma decorrência do sexo biológico e o sexo, por sua vez, não antecede o gênero. O que ocorre é a construção dos gêneros e dos sexos a partir de elementos disponíveis nas sociedades. Eles variam de época para época, permitindo que alguns atributos sejam mais valorizados que outros ou até mesmo desprezados. O sistema de sexo-gênero, portanto, não é imutável. De acordo com Lauretis,

“O sistema de sexo-gênero (...) é tanto uma construção sociocultural quanto um aparato semiótico, um sistema de representação que atribui significado (identidade, valor, prestígio, posição de parentesco, status dentro da hierarquia social, etc.) a indivíduos dentro da sociedade”. (1994: 212).

Navarro-Swain também enfatiza a necessidade de se perceber que o sexo tanto quanto o gênero, é uma construção a qual redunda em diferentes atribuições e valores para homens e mulheres. Segundo a autora:

“A imagem e os sentidos atribuídos aos corpos não são portanto superfícies já existentes sobre as quais se encastram os papéis e os valores sociais; são, ao contrário, uma invenção social, que sublinha um dado biológico cuja importância, culturalmente variável torna-se um destino natural e indispensável para a definição do feminino. A questão se articula sobre a importância social: isto significa que a materialidade do corpo existe, porém a ‘diferença entre os sexos’ é uma atribuição de sentido dada aos corpos”. (2000: 51).

O corpus da tese inclui, portanto, duas tecnologias de gênero, cinema e desenhos animados, que possuem códigos lingüísticos distintos (diferenças essas que especificarei na terceira parte da tese, quando me deter na caracterização de cada uma das tecnologias) e têm dinâmicas próprias. Em comum, possuem a capacidade de atingir um grande número de receptores, representando-se meninas e meninos, e de usufruírem de prestígio e credibilidade, concorrendo com instituições tradicionais, como a escola e a família, por exemplo. Há várias possibilidades de se trabalhar com as mídias. A que escolhi diverge dos modelos clássicos de análise praticados no Brasil até meados dos anos 80.

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