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III 4. Processus de traitement de l‟information spatiale

V. DISCUSSION GENERALE

O fato da AD também destacar a importância de se considerar o arranjo textual permite-nos inferir que há uma lógica na formulação geral dos discursos, ou seja, eles não seguem um fluxo aleatório, impossível de ser determinado. Na avaliação de Maingueneu, “um texto não é um conjunto de signos inertes, mas o rastro deixado por um discurso em que a fala é encenada”. (2002: 85). Discuto neste capítulo alguns dos rastros deixados pelos meus objetos, centrando a atenção na cena enunciativa, atendo- me a questões como a posição ocupada pelo emissor (es), o uso de recursos lingüísticos, tais como a paródia, a ironia e a polifonia. Observo o surgimento dos principais elementos interdiscursivos, bem como os tipos e gêneros de discursos utilizados em cada um dos objetos que compõem o corpus da pesquisa.

À medida que estiver analisando a composição da cena enunciativa, sobressairão as matrizes discursivas ou conjuntos representacionais que as integram, as quais serão o meu objeto de análise na terceira parte da tese. Decidi-me por analisar, primeiramente, a organização textual e, depois, a comunicacional (a qual dará margens para a discussão acerca das questões sócio-históricas que envolvem a enunciação), não por supor que haja uma divisão ou hierarquia entre ambas e, sim, por uma opção metodológica, a qual, espero, facilite tanto o trabalho da análise quanto o de compreensão por parte dos meus interlocutores.

A encenação ou cenografia, segundo Maingueneau, refere-se, “ao modo pelo qual o enunciador se inscreve (gestualmente) no tempo e no espaço de seu interlocutor”. (1997, 30/31). O autor considera a existência de três cenas das quais os enunciadores, normalmente, lançam mão para constituírem seus discursos: cena englobante, cena genérica e cenografia. A primeira, segundo Maingueneau (2002: 86), corresponde ao tipo de discurso formulado, por exemplo, discursos políticos, religiosos, entre outros. Já a cena genérica (2002: 88), refere-se ao gênero dos discursos, os quais dizem respeito a rótulos, tais como epopéia, editorial e muitos outros.

Maingueneau observa que alguns autores empregam indiferentemente gênero e tipo de discurso. O autor prefere distinguí-los, ressaltando que:

“Os gêneros de discurso pertencem a diversos tipos de discurso associados a vastos setores de atividade social. Assim, o ‘talk show’

constitui um gênero de discurso no interior do tipo de discurso ‘televisivo’ que, por sua vez, faz parte de um conjunto mais vasto, o tipo de discurso ‘midiático’, em que figurariam também o tipo de discurso radiofônico e o da imprensa escrita”. (2002: 61, 62).

Pode-se perceber que Maingueneau tem uma concepção singular acerca do gênero, se considerarmos a noção tradicional legada por Aristóteles4. Como nos lembra o próprio Maingueneau é preciso não esquecer que Aristóteles elaborou sua reflexão no âmbito da literatura e que “só recentemente ela se estendeu a todos os tipos de produções verbais (...) com efeito, as obras literárias não se ligam à categoria do gênero da mesma forma que um panfleto ou um curso de matemática”. (2002: 64/65). Sem dúvidas esta ressalva é muito importante no que concerne aos objetos com os quais estou lidando, afinal desenhos animados e cinema, como observei no capítulo anterior, incluem as linguagens oral e escrita.

Finalmente, é preciso ressaltar a terceira instância da cena enunciativa, a cenografia, a qual não diz respeito à forma como um determinado discurso implementa sua técnica de convencimento, como se imagina a princípio. Segundo avalia Maingueneau,

“Todo discurso, por sua manifestação mesma, pretende convencer instituindo a cena de enunciação que o legitima (...) com efeito, tomar a palavra significa, em graus variados, assumir um risco; a cenografia não é simplesmente um quadro, um cenário, como se o discurso aparecesse inesperadamente no interior de um espaço já construído e independente dele: é a enunciação que, ao se desenvolver, esforça-se para constituir progressivamente o seu próprio dispositivo de fala”. (2002: 87).

Seguindo o propósito de implementar neste capítulo uma análise dos arranjos textuais de meus objetos, começo por explicitar a cena enunciativa dos desenhos animados As Meninas Superpoderosas e Três Espiãs Demais, considerando as superfícies discursivas mais densas do ponto de vista das pedagogias de gênero. Maingueneau, ao discorrer sobre os modos de apreensão das formações discursivas, objetivo central dos analistas desta corrente, explica as superfícies discursivas como “enunciados atestados que pertencem a essa formação discursiva” (1998: 69).

Desta forma, com o objetivo de ter acesso às superfícies que integram os objetos da pesquisa foi necessário gravar vários episódios e, em seguida, analisá-los um a um,

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Aristóteles, na obra A Poética, teceu uma das primeiras sistematizações de gêneros de que se tem notícia a qual, até hoje, é o ponto de partida de muitos estudiosos da literatura. O pensador grego, ao estudar a produção literária daquele período, achou por bem dividi-la em três tipos: epopéia, tragédia e poesia. ARISTÓTELES. Poética. São Paulo, Editora Nova Cultura, 1987, pág. 201. Coleção Os Pensadores, Vol. II.

num exaustivo trabalho de captação dos diálogos e imagens. Após o trabalho com os desenhos animados procedo a análise do quadro cênico dos filmes de animação que compõem o corpus da pesquisa, valendo-me de fitas de vídeo cassete e DVD, as quais foram trabalhadas da mesma forma que os desenhos animados, com o objetivo de captar os diálogos e imagens que compõem as superfícies discursivas de Shrek e Shrek 2; A Bela e A Fera e A Bela e A Fera: o natal encantado além de Mulan e Mulan: a lenda continua.

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