Dentre os muitos temas de Estrela da vida inteira, três obterão destaque pelo modo como se vinculam ao tema que articula esta tese. Assim como Eros, Tanatos e Mnemósine formavam uma tríade indissociável desde que enquanto mitos povoavam os
cantos dos aedos, o amor, a morte e a memória se articulam agora como vértices de um prisma triangular que indica o sentido das luzes perseguidas nesta jornada.
Valendo-se desse prisma ao olhar A cinza das horas, livro de estreia do poeta, já se notam rastros diversos do itinerário de Eros na poesia bandeiriana, na qual temas como o embate das pulsões de vida e morte se anunciam logo no poema de abertura:
Sou bem-nascido. Menino, Fui, como os demais, feliz. Depois, veio o mau destino E fez de mim o que quis. Veio o mau gênio da vida, Rompeu em meu coração, Levou tudo de vencida, Rugia e como um furacão, Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó - Ah, que dor!
Magoado e só,
- Só! - meu coração ardeu: Ardeu em gritos dementes Na sua paixão sombria... E dessas horas ardentes Ficou esta cinza fria. - Esta pouca cinza fria.
Nessa “Epígrafe”, o sujeito lírico lamenta o “mau destino” que mudou a feição do menino feliz para a de um homem desolado. Marcado pela dor e pela solidão. Valendo- se da exacerbação luxuriosa dos sentidos, de flagrantes tons decadentistas, o eu lírico descreve poeticamente, mediante a imagem do “mau gênio da vida” que rompe em seu coração, rugindo, queimando, doendo até arder em “gritos dementes”, os sintomas comuns da hemoptise, de modo que os versos são também como o espocar de um flash a registrar um instante dramático da rotina do jovem tísico. Da mesma estratégia, o poeta se utiliza no poema seguinte, cujos versos de “sangue” e “volúpia ardente” têm o “acre sabor” da morte, sabor do “Desencanto”, que nomeia o poema:
Eu faço versos como quem chora De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora Não tens motivo algum de pranto Meu verso é sangue , volúpia ardente Tristeza esparsa , remorso vão Dói-me nas veias amargo e quente Cai gota à gota do coração.
E nesses versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre Deixando um acre sabor na boca Eu faço versos como quem morre.
Segundo Bertolli Filho (2001), em Vozes da tuberculose, tal expediente não era nada original entre os poetas acometidos pela peste branca, que se valiam dos excessos retóricos para distinguir a sua dor da dos demais fimatosos. buscando postular assim alguma individualidade ao sujeito que se via roubado de si próprio não apenas pela doença, mas também pelas malhas culturais e sanitárias.
Original ou não, o fato é a que a tuberculose deita suas sombras tanáticas em vários dos versos de A cinza das horas, e em alguns deles a atmosfera de debilidade das forças anímicas se intensifica, como é o caso de “Desesperança”, penúltimo poema do livro:
Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo. Como dói um pesar em cada pensamento! Ah, que penosa lassidão em cada músculo...
O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento Que dá medo... O ar, parado, incomoda, angustia... Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.
Assim deverá ser a natureza um dia, Quando a vida acabar e, astro apagado, Rodar sobre si mesma estéril e vazia.
O demônio sutil das nevroses enterra A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...
Minha respiração se faz como um gemido. Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo, Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
Por onde alongue o meu olhar de moribundo, Tudo a meus olhos toma um doloroso aspeto: E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.
Vejo nele a feição fria de um desafeto. Temo a monotonia e apreendo a mudança. Sinto que a minha vida é sem fim, sem objeto...
― Ah, como dói viver quando falta a esperança!
Nesses versos, datados de 1912, em Teresópolis, período anterior ao tratamento da tuberculose em Clavadel, talvez se encontre uma das alusões mais antigas do autor à doença que lhe alterou a trajetória de vida. Desde o título, já se percebe a pulsão de morte que vibra no texto. Tamanha é sua intensidade que até a manhã se tinge de sombras. Tomado por arroubos romântico-simbolistas, o poeta transfere para a natureza o estado de espírito do eu lírico. O silêncio “tão largo”, “tão longo”, “tão lento” fala, ainda não como o silêncio mallarmeano, que Octavio Paz (2012, p.67) define como “o silêncio anterior ao silêncio” e que se dispersa, pulverizado nos espaços em branco do papel. No poeta de “Desesperança”, tais lições ainda estão por serem aprendidas, e o silêncio fala verborrágico, estridente na gradação de adjetivos e verbos que denunciam sua angústia. A lassidão e a dor prosseguem, tomando conta de corpo e mente. A atmosfera se adensa em agonia, intensificada pela proliferação de aliterações e assonâncias nasais que remetem a alguém com falta de ar. Nesse estado pulsional de desespero, frente ao apelo sombrio de Tanatos, as luminescências de Eros se esvanecem, e falta sentido à vida.
É nessa falta de sentido que reside um dos maiores sentidos de todo o poema. Desde o instante em que o cenário da manhã, potencialmente luminoso, é tomado pela sombra, o choque entre as duas tonalidades afetivas incita uma melancolia, de certa forma irônica, pois o sol, fonte de luminosidade, é indiferente aos dramas humanos. Nisso, mostra-se a fragilidade do homem perante o universo, mais uma vez tão bem expressa nas palavras de Paz (2012, p.180): “A indiferença do mundo para conosco provém do fato de que em sua totalidade não tem outro sentido senão o que lhe outorga nossa possibilidade de ser: e essa possibilidade é a morte”. Desse modo, o contraste anunciado não se constitui em simples deboche, nem mera contradição entre o viver e o
morrer. É a própria miséria humana, revelada pela transitoriedade de uma existência sem sentido.
“O mundo do homem é o mundo do sentido. Tolera a ambiguidade, a contradição, a loucura ou a confusão, não a carência de sentido” (PAZ, 2012, p. 23). Sem este, a vida perde sua potência. O Eros vivificante, propulsor do objeto de desejo, força motriz da vida, se ausenta. Não à toa, eclode o último verso, isolado e fatal: “– Ah, como dói viver quando falta a esperança!”.
Em contraste às sombras tanáticas e a angústia existencial que permeia “Desesperança” e outros poemas, há aqueles em que a pulsão anímica se irradia luminosa e nos quais prevalece o caráter conjuntivo e agregador de Eros, revelando-se como o amor que é “aspiração de plenitude graças à qual o nosso ser se organiza e se sente existir” (CÂNDIDO, 1993, p.22). É o caso de “Voz de fora”, “e “Plenitude”, ainda no contexto de A cinza das horas. Neste último, sobretudo, é interessante notar como “o sol a pino” contrapõe-se de modo efusivamente lírico à manhã sombria de “Desesperança”. De fato, é até possível dizer que as imagens de “Plenitude” são especularmente mais amplas e invertidas em relação ao poema anterior.
Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra. O ar é como de forja. A força nova e pura
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto, fibra a fibra Avassalar-me o ser a vontade da cura.
A energia vital que no ventre profundo Da terra estuante ofega e penetra as raízes, Sobe no caule, faz todo o galho fecundo E estala na amplidão das ramadas felizes,
Entra-me como um vinho acre pelas narinas... Arde-me na garganta... E nas artérias sinto O bálsamo aromado e quente das resinas Que vem na exalação de cada terebinto.
O furor de criação dionisíaco estua
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas, E eu absorvo-os nos sons, na glória da luz crua E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas.
Tenho êxtase de santo... Ânsias para a virtude... Canta em minh'alma absorta um mundo de harmonias.
Vêm-me audácias de herói... Sonho o que jamais pude — Belo como Davi, forte como Golias...
E neste curto instante em que todo me exalto De tudo que não sou, gozo tudo o que invejo, E nunca o sonho humano assim subiu tão alto Nem flamejou mais bela a chama do desejo.
E tudo isso vem de vós, Mãe Natureza! Vós que cicatrizais minha velha ferida... Vós que me dais o grande exemplo de beleza E me dais o divino apetite da vida!
Nesses versos, além de o sol ofuscante expulsar as sombras, o ar puro varre a atmosfera parada e densa, forjando um vigor novo em oposição à lassidão dos músculos no poema anterior. Exaltado pela potência de uma autêntica experiência interior batailliana, o eu lírico é avassalado pela “vontade da cura”. O demônio some, e os apelos da morte se calam. Em seu lugar, a “energia vital” que tudo fecunda no “ventre profundo” se opõe ao silêncio angustiante e à esterilidade.
Nesse momento, é importante destacar que, a despeito da inversão imagística dos poemas, alguns procedimentos estéticos permanecem os mesmos. Mais uma vez, o eu lírico projeta sobre o mundo exterior o seu mundo interior, de modo que a natureza “estéril e vazia” dá lugar à “terra estuante”, onde sinestesias diversas se extravasam em aromas, sabores, ardores e sons sibilantes e plosivos. A vida transborda na comunhão do profano e do sagrado, unidos no “furor de uma criação dionisíaca” que provoca “êxtase de santo”. Enfim, a potência agregadora de Eros preenche o caos do sem sentido da existência com o canto de “um mundo de harmonias”, o qual sobrepõe ao gemido moribundo a exaltação, o gozo, o sonho, o desejo, o “divino apetite da vida”.
Embora esse “divino apetite” vá merecer uma parada especial nesta jornada mais adiante, releva mostrar já nesta estação, ainda que de forma ligeira, alguns outros aspectos que ele assume nessa fase inaugural da poesia bandeiriana, inclusive com o propósito de mostrar que evolução eles terão ao longo do itinerário poético do escritor.
Dentre esses aspectos, destaca-se o tema do desejo insatisfeito, como se pode ver em “D. Juan”, “Mancha” e “Confissão”. No primeiro, a evocação da falta provocadora do desejo é traduzida como “imortal ânsia humana”, que encontra no mito de D. Juan “o
símbolo eterno”, personagem cujas infindáveis conquistas são impelidas pela ânsia incontida, incontentada e movente que crê localizar “no amor, na indizível surpresa” a chave para “o sentido da vida”:
Ser de eleição em cujo olhar a natureza Acendeu a fagulha altiva que fascina, Tu trazias aquela aspiração divina De realizar na vida a perfeita beleza.
Creste achá-la no amor, na indizível surpresa Da posse - o sonho mau que desvaira e ilumina. Vencido, escarneceste a virtude mofina...
Tua moral não foi a da massa burguesa. Morreste incontentado, e cada seduzida
Foi um ludíbrio à tua essência. Em tais amores Não encontraste nunca o sentido da vida. Tua alma era do céu e perdeu-se no inferno... Para os poetas e para os graves pensadores Da imortal ânsia humana és o símbolo eterno.
Já em “Mancha”, o desejo se queda na contemplação similar à do artista frente a um modelo de beleza inatingível. E os versos se constituem do pobre contentamento do poeta em rascunhar, com traços irônicos, o seu objeto de desejo, cuja impossibilidade de ser alcançado o leva a definir o amor como “amargo e triste”.
Para reproduizir o donaire sem par Desse alvo rosto e desse irônico sorriso Que desconcerta e prende e atrai, fora preciso A mestria de Helleu, de Boldini ou Besnard Luz faiscante malícia ao fundo desse olhar, E há maisdo inferno ali do que do paraíso... O amor é tão-somente um pretexto de riso Para esse coração flutuante e singular. Flor de perfume raro e de esquisito encanto, Ela zomba dos que (pobres deles!) sem cor
Vão-lhe aos pés ajoelhar ingenuamente... Enquanto Alguém não lhe magoar a boca de veludo...
E não a fizer ver, por si, que isso de amor
Por fim, mesmo quando o travo de amargura cede lugar à “Confissão”, em versos nos quais o eu lírico até planeja, movido pelo desejo que cresce “de hora em hora”, pelo “amor que a exalta e a pede e a chama e a implora”, confessar seu amor a essa mulher a quem imagina “prendada e casta e clara”, todo o seu ímpeto é dissipado, quando a coragem se desfaz, e o poeta se cala.
Se não a vejo e o espírito a afigura,
cresce este meu desejo de hora em hora... Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.
Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura... Abrir-lhe o incerto coração que chora, mostrar-lhe o fundo intacto de ternura, agora embravecida e mansa agora...
E é num arroubo em que a alma desfalece de sonhá-la prendada e casta e clara,
que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...
Mas ela chega, e toda me parece tão acima de mim... tão linda e rara... Que hesito, balbucio e me acobardo.
Nessa trilha do desejo, que assinala uma das mais presentes facetas de Eros na poética bandeiriana, há poemas que lhe dão acesso a um plano imaginário onde o eu lírico apresenta um comportamento mais ousado, voluptuoso, carnal, em oposição à atitude contemplativa de “Mancha” e “Confissão”. Nessa esfera, a sucessão de sinestesias, bem aos moldes simbolistas, tinge-se de sensualidade, como se vê em “Poemeto irônico”:
O que tu chamas tua paixão, É tão somente curiosidade. E os teus desejos ferventes vão Batendo as asas na irrealidade... Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele. Sonhas um ventre de alvura tal, Que escuro o linho fique ao pé dele. Dentre os perfumes sutis que vêm Das suas charpas, dos seus vestidos, Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos. Encanto a encanto, toda a prevês. Afagos longos, carinhos sábios, Carícias lentas, de uma maciez Que se diriam feitas por lábios... Tu te perguntas, curioso, quais Serão seus gestos, balbuciamento, Quando descerdes nas espirais Deslumbradoras do esquecimento... E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências... Espiar-lhe na alma por conhecer O que há sincero nas aparências. E os teus desejos ferventes vão Batendo as asas na irrealidade... O que tu chamas tua paixão É tão-somente curiosidade.
Entrementes, é preciso ressalvar que nessa concessão poética feita à volúpia de “desejos ferventes”, “perfumes sutis”, “afagos longos” e “carícias lentas” que levam à descida “nas espirais deslumbradoras do esquecimento”, há um certo cinismo que traz à toma o “Manuel cheio de antagonismos, fecundo em contrastes”, de que fala Cyro dos Anjos (1969), ao suceder Bandeira, na Academia Brasileira de Letras. Vê-se isso não só no título, que estabelece de imediato a feição irônica do texto, mas também na interlocução que o eu lírico estabelece com o poeta, que surge como um Outro, cheio de devaneios.
Nesse diálogo do Si com o Outro, há uma circularidade perceptível no modo como a interlocução começa e termina o poema. No centro do círculo, no seu espaço mais visível, há todo um palavrório de exaltação aos ideais passionais que se exacerbam no imaginário, “batendo as asas na irrealidade”, mas as bordas traem que todo esse revestimento discursivo não passa de mera retórica sentimental, de prosaica curiosidade.
Sob perspectiva bem diversa, apresenta-se o “Poemeto erótico”, que, a despeito de algumas aproximações formais na estrutura das rimas e redondilhas com o poema anterior, traz agora à cena textual uma interlocução não mais com o poeta, mas com seu
objeto de desejo, que surge plurissignificante e tanto pode remeter ao corpo feminino quanto ao corpo do poema.
Teu corpo claro e perfeito, - Teu corpo de maravilha, Quero possuí-lo no leito Estreito da redondilha...
Teu corpo é tudo o que cheira... Rosa...flor de laranjeira... Teu corpo, branco e macio, É como um véu de noivado... Teu corpo é pomo doirado... Rosal queimado do estio, Desfalecido em perfume... Teu corpo é a brasa do lume... Teu corpo é chama e flameja Como à tarde os horizontes... É puro como nas fontes A água clara que serpeja, Que em cantigas se derrama... Volúpia de água e da chama... A todo momento o vejo... Teu corpo... a única ilha No oceano do meu desejo... Teu corpo é tudo o que brilha, Teu corpo é tudo o que cheira... Rosa, flor de laranjeira...
A despeito de seus versos efusivamente líricos e prenhes de sensações e sensualidade, “Poemeto erótico” contrapõe-se aos excessos sinestésicos de “Poemeto irônico”, ao ceder espaço para a metáfora ressignificar o corpo através da palavra poética, de modo que esse corpo que se deseja possuir “no leito estreito da redondilha” não é só a figura feminina recorrente no imaginário do poeta, mas “tudo o que brilha”, “tudo o que cheira”, despertando-lhe o desejo, a motriz erótica que dá vazão à sua fantasia. Fantasia que não surge aqui sob o viés da ironia, mas integrante da totalidade do indivíduo, ao se dá a conhecer
por meio da linguagem poética, canal que dá forma e significado aos conteúdos mais íntimos do sujeito lírico, revelando a sensibilidade com que ele apreende o objeto desejado. A cumplicidade entre quem contempla e quem é contemplado é outra condição indispensável para o roteiro fértil da fantasia, campo em que as camadas íntimas do sujeito entram em consonância a fim de produzir imagens que despertam prazer (BOURGOGNE, 2012, p. 57)
Fantasia que lhe permite a construção de uma cena poética como a que se vê em “Boda espiritual”, marcada por uma série de elementos novos quanto à sua construção.
Tu não estás comigo em momentos escassos: No pensamento meu, amor, tu vives nua — Toda nua, pudica e bela, nos meus braços. O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a... Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua... Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa. O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra nágua. Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço. E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso... Tua boca sem voz implora em um arquejo. Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto A maravilha astral dessa nudez sem pejo... E te amo como se ama um passarinho morto.
Com um título que anuncia uma união conjugal adjetivada como “espiritual”, sugerindo a leitura de um texto onde o amor idealizado, sublime, encontrará lugar no encontro etéreo das almas, “Boda espiritual” quebra expectativas. Tal se dá logo no início quando a mulher surge nua nos braços do amante, mostrando que não se trata de uma volátil união anímica, mas de corpos que se entrelaçam dando lugar aos prazeres sensuais. A relação amorosa é descrita através do olhar do amante que capta de modo fragmentário, metonímico, o rosto e o corpo feminino, uma vez que ele está mais concentrado em observar as reações de prazer provocadas pelo toque de sua mão tremente, mão que se deu toda à mulher: “Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...”
A cada toque do eu lírico, essas reações se intensificam, e a carga erótica do amor físico se eleva na mesma medida que “o corpo crispado alucina” até que a efusão de sensações que se expressa no corpo da mulher passa a se manifestar também na sua voz. No auge da excitação feminina, para amortecer o desejo da mulher, o poeta não recorre à fusão dos corpos, mas estende “longamente a mão”. O erotismo chega ao ápice, e o olhar voyeur do poeta e do leitor se cruzam na contemplação do gozo físico transformado em poesia.
Por fim, surge o último verso, isolado do transbordamento dos versos anteriores, mas transbordante de significações, visto que tanto é possível interpretar este amor de “como se ama um passarinho morto” como um sentimento de ternura, melancolia ou compaixão, quanto também é possível ver nessa relação, tão amplificada afetivamente pelo uso do diminutivo, uma profunda entrega. A entrega do amante que faz do encontro amoroso uma dádiva espiritual, à medida que abre mão da plenitude de seu gozo físico para doar com essa mesma mão a plenitude ao corpo amado.
Dessas rápidas leituras feitas aqui, o que se depreende, em geral, dos poemas de
A cinza das horas é que, entre faltas e plenitudes, eles já compartilham com o leitor uma
palavra fraterna, definida por João Ribeiro (1990, p. 117), como “pão alimentar e sadio”; portanto, apta a superar o “acre sabor de morte” não só do desencantado poeta, mas de todos que se identificam com a tragédia humana de uma vida “vã como a sombra que