Para compreender essa dinâmica relacional os autores Woortmann e Woortmann (1997) destacam o estabelecimento de “estágios” que condicionam essas etapas de aprendizagens através da transmissão dos princípios do modelo cognitivo, que segundo eles se diferenciam de acordo com a faixa etária e a condição física necessária para exercício da atividade na unidade produtiva, aqui dispostos em forma de tabela cronológica:
Tabela 4 - Estágios cronológicos de aprendizagens agropecuárias.
Faixa etária Tarefas desenvolvidas
Menos de 7 anos de idade Auxiliam a família nos afazeres
laborais e observação das atividades desenvolvidas pelos pais.
A partir dos 7 anos Aprendem a cuidar de animais de
pequeno porte, geralmente, aves, caprinos e ovinos.
A partir dos 10 anos Aprendem a cuidar de animais de
grande porte, a lida com o gado e se inicia o processo de aprendizagens com a negociação da produção.
Entre 13 e 14 anos É destinado uma porção de terra para
o desenvolvimento de práticas
agrícola supervisionada pelos pais. Fase adulta. Após o casamento –
a constituição de uma família
Domínio de todo o processo de trabalho.
Fonte: Woortmann e Woortmann (1997). Elaboração: E.C dos Santos.
Todos esses aspectos que se conformam no bojo das atividades agropecuárias, através dos saberes que vão sendo construídos a partir do momento do plantio realizado pela família, na colheita, no preparo e no consumo dos alimentos. Pouco a pouco, de forma singela e gradativa vai se traçando uma trajetória pela qual essas práticas vão sendo incorporadas pelos filhos e filhas como corresponsabilidades impostas pela autoridade dos pais.
A construção e transmissão de saberes próprios a edificação e consolidação do ofício de agricultor (a) denotam que de forma exclusiva essas relações, ora apresentadas, revelam a pujança de elementos que evidenciam a real importância da preservação dos princípios preestabelecidos neste contexto que também é marcado por situações conflituosas, enfatizando o autoritarismo patriarcal, que no passado fazia uso frequente da força para a manutenção do poder paterno, por vezes ocasionando situações extremas, como a fuga de filhas (Woortmann e Woortmann, 1993).
A conjuntura que envolve as relações sociais estabelecidas no campo abrange outros níveis de análise imbricadas em aspectos sociais, culturais e econômicos que interferem diretamente neste espaço e conformam o tecido
social que pressupõe mais que atividades laborais e uma paisagem específica do ambiente rural.
O ofício de agricultor (a) se reveste por significados diversos e singulares que estão presente na trajetória do processo de transmissão de saberes, não salvaguarda apenas o exercício profissional, mostram um conjunto de símbolos que são inerentes ao processo, pois, trata-se de rituais, que vão desde a preparação dos alimentos, à preservação da culinária local, das músicas, da biodiversidade, do ambiente, e da cultura de modo geral, além da relação recíproca estabelecida pelo parentesco e de amizade.
Com base na problemática em tese, que trata sobre a permanência dos jovens no campo, Abramovay et al. (1998, p.184 apud GASSON & ERRINGTON, 1993, p. 184), em estudo realizado sobre sucessão familiar rural no estado de Santa Catarina revela que:
Todos os agricultores por nós entrevistados são filhos de agricultores. Esta característica – que não se verifica em outras profissões – é generalizada internacionalmente até hoje. Na Inglaterra, por exemplo, 80% dos agricultores que se dedicam em tempo integral a sua unidade produtiva são filhos de agricultores e metade de todos os agricultores ingleses cultivam exatamente o mesmo pedaço de terra em que trabalharam seus pais.
A afirmativa revela que a agricultura é uma atividade profissional que exerce grande influência sobre os sucessores em assumir não apenas o ofício, mas também desenvolvem a atividade nas mesmas áreas utilizadas pelos antecessores, os pais. Esses pressupostos indicam a possível causa para fazer do ofício de agricultor (a) umas das atividades laborais que exerce grande influência aos que podem vir a suceder este ofício, considerando os condicionantes do processo e os laços afetivos que marcam estas relações sociais com a família, as pessoas e o lugar de origem, apesar dos inúmeros desafios enfrentados pelos que decidem dar continuidade ao ofício dos pais.
Mostraremos no próximo capítulo o percurso metodológico da pesquisa realizada nos estabelecimentos agropecuários do município de Pedro Velho.
4 CAMINHOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA PESQUISA
A pesquisadora se insere no contexto da pesquisa a partir da atuação profissional como extensionista rural, no atendimento diário a famílias rurais economicamente ativas no município de Pedro Velho, desde novembro de 2011. Esse envolvimento com o objeto de estudo dentro de um recorte espacial (o rural) parte das relações funcionais e sociais (do trabalho em extensão rural e das vivências) que se estabelecem na/com a agricultura familiar desde a tenra idade, considerando que através do conhecimento cientifico e do devido distanciamento2 necessário para não atribuir juízo de valor a compreensão da
realidade, mesmo tendo vínculos com ela, é mister interpretá-la imparcialmente.
Conforme Lakatos e Marconi (2007, p. 157), em alusão a Ander-Egg (1978, p. 28), a pesquisa é um “procedimento reflexivo sistemático, controlado e crítico, que permite descobrir novos fatos ou dados, relações ou leis, em qualquer campo do conhecimento.” Esse procedimento fornece ao investigador um caminho para o conhecimento da realidade ou de verdades parciais. Ou seja, através da pesquisa científica fenômenos da vida real são postos em tese para apreensão das dimensões subjetivas de bases epistemológicas práticas.
O campo de pesquisa se converte no ambiente propício a construção do conhecimento, e neste estudo o espaço agrário do Leste Potiguar ganha destaque, pois tem sido palco de intensas transformações ao longo do século XX, a dualidade entre campo e cidade tem diminuído em razão do incremento na melhoria do acesso aos transportes, dos meios de comunicação e da ampliação das políticas públicas sociais.
O espaço rural se conforma enquanto campo de pesquisa, e revela uma pluralidade de relações sociais, cujo estudo precisa ser exaustivamente aprofundado, nesse aspecto Gil (2008) aponta que no estudo de campo estuda-se um único grupo ou comunidade em termos de sua estrutura social,
2 Esta postura positivista de estudar os fenômenos sociais da mesma forma que as ciências naturais teve e continua a ter muitos adeptos. A separação rígida entre os sistemas de valores do cientista e os fatos sociais enquanto objeto de análise é proposta por inúmeros metodólogos. Alegam em favor dessa postura que as ciências sociais devem ser neutras, apolíticas e descomprometidas. Nesse sentido, a maioria dos manuais clássicos de pesquisa social propõem o máximo distanciamento entre o pesquisador e o objeto pesquisado.. (GIL, 2008, p. 29).
ou seja, ressaltando a interação de seus componentes. Assim, o estudo de campo tende a utilizar muito mais técnicas de observação do que de interrogação.
Nesse contexto, as pressuposições da pesquisa se desnudam a compreender quais estratégias utilizadas pelos agricultores familiares do município de Pedro Velho/RN para promover a manutenção do ofício de agricultor (a)? Sob quais circunstancias os agricultores projetam suas famílias a manter-se no campo exercendo o ofício de agricultor? Quais os fatores contribuem ou dificultam a manutenção desse ofício? Para tanto se faz necessário delinearmos os pressupostos, procedimentos e ações necessários a realização da pesquisa.