• Aucun résultat trouvé

AU DEVELOPPEMENT ET A LA CROISSANCE DE LA SOCIETE

II. D ES RENDEMENTS AU RENDEZ VOUS

Como o ato sexual, a morte é uma transgressão que arrebata o homem de sua vida quotidiana, de sua sociedade racional, de seu trabalho monótono para submetê-lo a um paroxismo e lançá-lo, então, em um mundo irracional, violento e cruel. (ARIÈS, 1977, p. 42)

Com o aumento da expectativa de vida têm surgido novas formas de morrer, portanto há um grande desafio para os profissionais que devem identificar esse novo perfil de pacientes (BURLÁ, 2006). Os seres humanos merecem morrer com seus entes queridos próximos com conforto e em um ambiente tranqüilo. É preciso que profissionais de enfermagem tenham atuação e postura humanizada diante do paciente com doença crônica.

O ser humano, diferente das outras espécies, é o único que tem consciência de sua finitude e de seu envelhecimento. Desde suas origens nutre um desejo obstinado de dominar a morte, mesmo consciente de sua impotência diante da aberração fantástica (MORIN, 1997). A angústia humana ou insegurança diante do tempo que escorre sem jamais voltar se encerra com a chegada da morte, e nada pode ser feito para mudar esse quadro.

Assim desde suas origens, o homem nutre a morte com suas riquezas e aspirações. Nela fermenta o que existe de mais conquistador no homem – isto é, esta vontade obstinada, louca, de dominá-la dominando a natureza, de universalizá-la universalizando-se na natureza – e, ao mesmo tempo, o que existe de mais regressivo, a aberração fantástica, o terror impotente (MORIN, 1997, p. 309).

Mas ainda assim, consciente de sua decrepitude e morte certa, luta desesperadamente, desenvolvendo um mecanismo de defesa, uma estratégia de enfrentamento até a chegada da inevitável e invencível morte. Tal como explicitado por Loureiro (2000, p. 77): “O ser humano reconhece-se finito, mas, no fundo, está convencido ou iludido da sua própria imortalidade”.

Buscam-se fórmulas novas para retardar o envelhecimento, vendem-se ilusões de resgatar a juventude por meio de cosméticos e cirurgias plásticas, mas inevitavelmente chegará o momento em que nada será suficiente para evitar a morte. Loureiro (2004) lembra que o homem sabe que é mortal, mas inconscientemente se comporta como imortal pensa apenas na morre do outro e se esquece que a única certeza que temos é a da morte.

A história humana pode ser contada de acordo com a sociedade que vivenciou a morte em diferentes períodos; diferentes tempos e espaços influenciam na idéia de morte.

O estudo das imagens da vida e da morte, que o ser humano tem formado através dos tempos e em locais diversos, pode encaminhar a uma maior compreensão do homem em sua totalidade, fazendo com que se perceba a influência das diferenças de classe social na morte dos homens e com que se entendam melhor as imagens atuais (LOUREIRO, 2000:88).

Ariès (1977) historiador francês, estudou a morte por 15 anos de sua vida. Segundo o mesmo, as mudanças de comportamento relacionadas à morte são muito lentas, com longos períodos de estabilidade. Segundo ele, nas sociedades primitivas, a morte era domada, isto é, pensava-se que o moribundo pressentia e sabia quando ia morrer e ninguém morria sem ser avisado, por convicção ou pressentimento.

A partir do século XVIII, a morte se tornou dramática passando a ser encarada como se o homem tivesse sua vida roubada de si e de sua família, iniciando assim o culto aos cemitérios e luto exagerado colocando a família como personagem principal, quando não se teme mais a própria morte, mas a do outro. A partir do século XX, mais precisamente em meados de 1930, a morte foi se tornando um tabu, em que os familiares escondiam do moribundo sua real gravidade. E a morte se mudou para os hospitais. Já não se morre mais em casa, rodeado pelos amigos e parentes como outrora, mas no hospital, sozinho (ARIÈS, 1977).

Na Idade Média a morte era pública, enquanto que nas sociedades modernas a morte é vista como um dos maiores perigos da vida do indivíduo. Ela vai sendo empurrada para os bastidores da vida social (ELIAS, 2001).

Antigamente existia um ritual diante da morte. O moribundo era avisado por convicção ou signos naturais, que estava prestes a morrer. Então eram tomadas as providências, reunia-se a família e amigos, lamentavam, choravam e pedia perdão aos amigos e familiares, que deveriam responder sempre a mesma frase: “Eu te perdôo aqui e perante

Deus” e inclinavam um para o outro e o moribundo recomendava a Deus os vivos e escolhia

sua sepultura. Fazia então uma prece composta de duas partes: a culpa – “Deus, minha culpa,

por tua graça, por meus pecados...” confessa sua culpa de mãos juntas e elevadas para o céu,

roga a Deus que lhe dê o paraíso. A segunda parte da prece é chamada de commendatio

animae também chamadas de recommendaces: “Verdadeiro pai, que nunca mentiste, tu que chamas de volta Lázaro de entre os mortos, tu que salvas Daniel dos leões, salva minha alma de todos os perigos...” e então recebia a absolvição sacramental, o Libera, onde incensava e

aspergia água benta, pelo padre após a confissão. Entre 1930 e 1950 ocorreu o deslocamento do lugar da morte.

A assistência diante da morte era igual à de nascer, precisava de cuidados. A morte era esperada e cuidada com atenção. Por muitos séculos se morreu com a prática de rituais que davam ao moribundo a ilusão de continuarem ligados a esse mundo, se esquecendo da angústia diante da morte (ARIÈS, 1977).

Segundo Durand (1989, p.163) como já anotado anteriormente “A vida não é mais que a separação das entranhas da terra, a morte reduz-se a um retorno a casa”. Nesse sentido surge o desejo das pessoas de serem enterrados em sua cidade natal, entendido como o último repouso.

Atualmente não se morre em casa, mas no hospital, sozinho e porque os médicos não conseguiram curar e dessa forma evitar a morte. O hospital tornou-se o local onde se presta os cuidados que não se pode prestar em casa. Não se tolera a morte do outro e dele se esconde a verdade e o moribundo confia, nos que os cercame este deseja o adiamento da morte.

Kubler-Ross (1987) considera a existência de cinco estágios diante da morte: negação, raiva, barganha, depressão, aceitação. A negação é percebida quando o paciente toma conhecimento do diagnóstico de sua doença, quando o mesmo reage com frases semelhantes:

“Não, não pode ser verdade!”, e daí solicita que se repitam os exames ou imaginam que os

mesmos foram trocados. A raiva é expressa a partir da confirmação do diagnóstico: “Pois é!

É verdade. Não foi engano”. Não sendo mais possível negar, o paciente agora irá se revoltar

sentir inveja de outros e demonstrar ressentimentos. Surge a partir daí o terceiro estágio: a barganha. Não sendo bem sucedido na fase anterior o paciente passa a refletir: “Se Deus decidiu levar-me deste mundo e não atendeu a meus apelos cheios de ira, talvez seja mais condescendente se eu apelar com calma”. Portanto torna-se importante uma abordagem

interdisciplinar no cuidado de pacientes que nesta fase de intenso temor e sentimentos de culpa se sente perdido em busca de compreensão e um pouco de amorosidade.

O quarto estágio: a depressão. Percebida quando o paciente já em fase final torna-se cada vez mais debilitado. Suas tentativas de reverter a situação foram em vão e darão lugar a um sentimento de perda profunda. Perdas evidenciadas de forma individual, como a perda de sua imagem, frustração por não ter realizado seus sonhos. Enfim o quinto e último estágio: a aceitação. Obtida pelo paciente que tiver tido o tempo necessário, isto é não tiver uma morte súbita antes. Este não mais sentirá os estágios anteriores, já terá expressado sua depressão, raiva, inveja dos vivos e saudáveis, terá lamentado a perda de pessoas queridas e lugares, e viverá agora a expectativa da despedida de uma forma mais tranqüila. (KUBLER- ROSS,1987)

Áries (1977) mostra que diante da doença grave, há uma ruptura de comunicações dos que cercam o doente onde todos, inclusive o doente finge otimismo. Na verdade há indiferenças, um comportamento novo, onde o doente é tratado com gentileza, como uma criança a quem se repreende porque se esqueceu de tomar seus remédios. É pouco a pouco

retirada sua responsabilidade, capacidade de refletir, observar, decidir e é então condenado à infantilidade.

O autor denomina essa representação da morte de “morte invertida”, por ocorrer uma inversão nas características da morte, nas quais ela necessita passar despercebida, não sendo mais considerada como um fenômeno natural, e sim, um fracasso. Tal representação leva a uma negação, a uma não aceitação da morte e a uma falsa sensação de que viveremos eternamente, aumentando, assim, o medo diante da morte. Este medo é o que se expressa em reações diferentes de onde resultam as estruturas do imaginário de cada um ou de cada grupo. Os pacientes são condenados a internação por meses ou até anos de vida vegetativa, ligados a tubos e aparelhos, usados como instrumentos de desafio à morte. A civilização ocidental passa então a esconder a morte, evitando falar sobre ela. Como conseqüência, a atitude mais adequada para lidar com a morte de um ente querido seria fingir que nada aconteceu, que nada mudou, contribuindo, dessa forma, para o medo diante da morte, temor do desconhecido (BURLÁ, 2006).

Quanto aos familiares e amigos, não lhes é permitido sofrer em público. Beauvoir (1990) relata que, com a desculpa dada pelos outros de que precisamos ficar sozinhos para lidarmos com a perda, e se choramos e sofremos por muito tempo as pessoas nos orientam a procurar um psiquiatra. Neri e Sommerhalder (2002) lembram que nas cidades grandes temos pouco tempo e espaço para cultivar relacionamentos ou pensar sobre o sentido da velhice e da morte.

Burlá (2006) observa que o paciente tem medo da dor, de morrer só ou de incomodar seus familiares, de ser enterrado vivo e lembra-se da importância de conversar com ele e ouvir suas expectativas, porque, existe um medo maior de como será o processo de morrer do que com a morte propriamente dita.

Segundo Morin (1997) só existe dor provocada pela morte se há proximidade do morto, se é íntimo, familiar, amado ou respeitado, mas, se o morto for desconhecido, não existe nenhuma ou quase nenhum sentimento de dor.

É preciso esquecer por instantes, ao menos nestes últimos instantes, a frieza do hospital aos que estão acostumadas e condicionar, uma presença de amorosidade ao lado de toda a eficiência e competência profissional que, na verdade, só será realmente competente e eficiente, quando ao lado de uma titulação/qualificação existir nela a humanidade e solidariedade; existir uma pessoa humana que com outro humano interage em situação desigual de vida e de morte. Entender sentimentos, costumes, cultura e crenças do ser que está morrendo sob seus cuidados são fundamentos a serem exercitados.

O homem rejeita a morte e preenche essa rejeição, ao lado da sua certeza, com mitos que se expressam no seu imaginário. Conforme Morin (2000) explica: o homo sapiens é acometido pela morte como se esta fosse uma catástrofe irremediável, que traz angústia e horror e assim ela é vista como um problema vivo.

Loureiro (1993) comenta que foi demonstrado em pesquisas que o medo de morrer diminui com a idade, devido a alterações dos lobos frontais do cérebro.

Biologicamente, a morte é um evento que finda uma vida. Ocorre quando um órgão essencial deixa de realizar funções vitais. Metchnikoff foi o primeiro grande cientista que declarou guerra à morte. Pensava em preparar soros capazes de estimular e então regenerar as células nobres do organismo, pois tais soros seriam os verdadeiros rejuvenescedores do indivíduo. Segundo ele, sabendo-se que um agente tóxico manifesta uma ação estimulante se empregado em pequena dose, então propôs o emprego de soros citotóxicos. Porém, ele não conseguiu descobrir a dosagem exata e teve problemas com a lei francesa com relação à pesquisa. (MORIN, 1997).

A questão mais intrigante da origem da vida é a origem da morte. Morin, (1997) lembra que quanto mais especializado é um organismo vivo, mais se reduzem as possibilidades de regeneração biológica, pois apenas os tecidos vulgares são passíveis de regeneração, assim um anfíbio como os sapos podem regenerar um membro amputado. Enquanto que um vertebrado superior está condenado a morrer ou continuar deficiente, pois as células nervosas, que são o tipo celular mais diferenciado, perdem rapidamente a capacidade de reprodução. Parece então que a morte é o preço da especialização, da perfeição. É o caso da entropia, a harmonia, a morte. Daí a neguentropia. Paula Carvalho apud Loureiro (1990 p.38) registra que quando os “etólogos afirmam que o homem é um „neóteno neguentrópico‟ estão a afirmar que o homem, é um „ser especialista da não especialização‟, um „ser aberto ao mundo‟, (...) „um ser da álea, do acaso, do risco, do perigo e da crise‟, „um ser inacabado e hipercomplexo‟”.

Segundo Kubler-Ross (1987: 278) o paciente em fase terminal necessita de cuidados especiais, mas o mais importante é ouvi-lo e observar o moribundo em silêncio. Agindo assim pode se perceber um cessar em paz. A autora diz que a perda de um ente querido é como observar uma estrela cadente. “É uma entre milhões de luzes do céu imenso, que cintila por um breve momento para desaparecer para sempre na noite sem fim”. Sabemos que somos finitos, mas acreditamos ser eternos, e mesmo entendendo que a morte é um fenômeno natural, não nos conformamos com ela.

Observa-se que o ser humano vive como se nunca fosse morrer e diante da morte, luta com todas suas forças para sobreviver e pensa que viveu pouco tempo mesmo sendo já idoso. A morte é uma certeza para cada ser vivo, mas muitas pessoas vivem como se fossem eternos, se constituindo um grande mistério a sua atitude diante da mesma porque o homem não imagina a sua morte, apenas a do outro. A pessoa diante da morte tem receio da circunstância que será a sua morte.

Conforme Loureiro (2008):

Na proximidade do dia em que reverenciamos nossos saudosos mortos, pretendo não fazer a apologia da morte, ou homenageá-la, e sim exaltar a vida nesta vida sobrada aos muitos que ficam a prantear os que ela já levou consigo. Mas é preciso exorcizar o medo da morte, pelo menos na medida em que este horror nos deixe viver, não à espera dela, mas apesar dela e no convívio com ela, que surge de formas variadas, mas que nunca ou quase nunca é bem-vinda (LOUREIRO, 2008, p. 854)

Atualmente deparamos com a banalização diante da morte como estratégia de defesa, onde a formação profissional ensina que diante da terminalidade da vida é preciso evitar reações emocionais com pacientes e familiares (LUNARDI, et al, 2001). O profissional de enfermagem lida freqüentemente com cuidados diante da dor, do sofrimento e com a morte de seus idosos e dessa forma o mesmo é instruído pela própria formação para não sofrer. Nessa instituição pesquisada pôde-se constatar essa atitude eufêmica ou de banalização da morte, conforme fragmentos do discurso de uma das auxiliares de enfermagem: “... a reação diante da morte é normal. Não tenho mais nenhuma reação de choque, não. Se a gente for chorar por cada um que morre...”

Sendo a morte inevitável e imprevisível, os profissionais de enfermagem, assim como todos nós, deveriam ser mais amáveis, mais carinhosos, expressar nossos sentimentos diante de nossos entes queridos, amigos e de qualquer semelhante que necessite do nosso atendimento ou cuidado.

E com esse pensar se compreende cada vez mais que a vida se sobrepõe à incapacidade, pois todos nós nas mais diversas situações podemos e precisamos ser cuidados uns pelos outros. Rotineiramente, no ambiente hospitalar o profissional de enfermagem utiliza estratégias de enfrentamento e se porta com frieza e distanciamento diante da morte de idosos sob seus cuidados para suportar o próprio sofrimento. E assim trata os pacientes com “isenção” pessoal diante das situações que aparecem como normais, rotinas, ou como sem solução. Entende-se que as estratégias de enfrentamento da morte fazem com que o inevitável seja vivido como sofrimento, embora haja profissionais de enfermagem que encontram formas de reagir em situações críticas, para que possam continuar atuando profissionalmente.

Tal situação ocorre da mesma forma com o asilado, ou institucionalizado, criatura relegada ao esconderijo da sociedade, deixada aos cuidados sobrados, no lugar da atenção e carinho esperados, e não chegados, dos familiares e entes queridos. Escutar a última palavra, o último sussurro balbuciado de forma muitas vezes incompreensível, mas que com ouvidos humanos e profissionais - sem perder o acompanhamento das pulsações restantes, finais de vida e suavizando os esgares da dor -, precisa escutar aquele asilado desprezado triplamente, pela família pela sociedade e pelo Estado, o status de dignidade cidadã humana para morrer

(LOUREIRO, 2008). Esta é a postura desejada e esperada que seja assumida pelos profissionais de enfermagem e cuidadores de um asilo.