Antonio Vieira
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A fim de comemorar o primeiro centenário da fundação do Colégio Antonio Vieira, verdadeiro marco na história da educação em nosso meio, estão sendo registrados testemunhos de ex-alunos sobre as lembranças dos tempos por eles vividos enquanto estudaram naquela instituição de ensino. Convocado pelos professores Waldyr Freitas de Oliveira e Edilece Couto para participar desses eventos, quero agradecer a distinção do convite e manifestar a alegria em acrescentar as minhas reminiscências às dos demais colegas vieirenses.
A vasta experiência educacional dos jesuítas, acumulada desde o século XVI, quando da criação da ordem pelo Santo Inácio de Loyola, vem sendo adaptada às variações no tempo e às diversidades culturais entre
as regiões do mundo onde tem sido posta em prática. Essas adaptações me levam a situar a época em que frequentei, naquele colégio, o então chamado “curso ginasial”, com a duração de cinco anos. As sucessivas reformas da legislação brasileira transformaram o “ginásio” em parcela do que atualmente se rotula de “ensino básico”.
Comecei a frequentar o Colégio Vieira no final de 1936, ao completar dez anos de idade, a fim de familiarizar-me com o ambiente no qual ia submeter-me ao temido “exame de admissão” ao ginásio. Esse exame foi abolido, muito tempo atrás. Tendo obtido as notas mais altas entre os numerosos candidatos, voltei ao colégio no começo de 1937, para cursar o primeiro ano ginasial. Frequentei o Vieira até o final de 1941, quando terminei o quinto ano, e, assim, completei o curso ginasial.
Desde a sua fundação, em 1911, estava, então, o Colégio Vieira sob a responsabilidade de jesuítas portugueses que haviam deixado o país de origem, por motivos de natureza política. Portugal, naquela época, atravessava dificuldades resultantes da transição do regime monárquico de governo para o da república. Em Salvador, inicialmente, por pouco tempo, instalou-se o novo colégio em prédio situado à Rua do Sodré. Ao fim de cerca de dois anos, mudou-se para imóvel próximo ao Largo da Piedade, ao lado do edifício ocupado, por muitos anos, pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia e é hoje a sede da Ordem de Advogados do Brasil – Seção do estado da Bahia. Os jesuítas tiveram como liderança maior, naquele período, o Padre Luiz Gonzaga Cabral, intelectual de grande renome, a quem coube promover a construção do edifício inaugurado em 1934, no bairro do Garcia, onde o colégio con- tinua sediado até agora.
Quando frequentei o Vieira, o número total dos seus alunos era pouco superior aos quatrocentos. Nas séries do curso ginasial havia, apenas, duas turmas, rotuladas, respectivamente, de “A” e de “B”. As turmas “A” das várias séries eram integradas pelos alunos “internos”, em geral oriundos de famílias que residiam no interior do estado. Esses alunos moravam no próprio Colégio, onde faziam todas as suas refeições.
Os alunos das séries ”B”, considerados “externos”, provinham de famí- lias residentes na cidade do Salvador, permaneciam no Colégio, apenas, durante os horários das aulas. Tenho notícia de que o número total de alunos se acha, atualmente, decuplicado em relação ao que era enquanto eu frequentei o colégio. O regime de internato foi abolido, o que permitiu a transformação de parte dos dormitórios e do refeitório destinados aos internos, a fim de acolher maior número de alunos “externos”. Além disso, ocorreu a ampliação das áreas usadas pelos alunos, graças à cons- trução de novos pavilhões, sobre o terreno original. Pelas notícias que tenho dos meus filhos e netos, as transformações do Vieira foram muito além da parte física do Colégio. Por exemplo: o recrutamento de maior número de professores que não integram a Companhia de Jesus permi- tiu que a composição do corpo docente se fizesse com liberdade maior, do que acontecia no meu tempo de aluno.
A maior parte do corpo docente do Vieira, enquanto fui seu aluno, era constituída por jesuítas portugueses, aos quais se acrescentavam uns poucos professores “leigos”. Tenho notícia de que essa proporção foi se alterando ao longo do tempo. Atualmente, os professores são “leigos”, na sua quase totalidade. Era Diretor do Colégio o Padre Constantino Cardoso, com idade muito avançada, figura reverenciada pelos demais jesuítas e pelos professores “leigos”. O Padre Cardoso mantinha-se, porém, distante dos alunos. Nós mal o conhecíamos. Dos jesuítas que foram meus professores, considero o Padre Camilo Torrend o que melhor desempe- nhou as funções de educador. Naturalista formado segundo o modelo que prevaleceu na Europa do século XIX, tinha ele cerca de 80 anos de idade quando foi meu professor. Originário de uma das ex-colônias francesas do Mar Caribe, falava a língua portuguesa com um sotaque sui generis. Tendo vivido muitas décadas na Bahia, viajara extensamente por todo este estado, o que lhe permitiu estudar em profundidade as peculiaridades da nossa fauna, da nossa flora, assim como da geologia e da mineralogia no mesmo território. As suas aulas tinham feitio muito prático, uma vez que eram acompanhadas pela apresentação de espécimes coletados
durante as suas excursões de caráter científico pelo nosso interior. Ao lado da sua atuação como professor, o Padre Torrend realizou impor- tante obra social de apoio aos estudantes de menor poder aquisitivo, graças à criação do “Educandário” que levou o seu nome e ocupou, durante várias décadas, um imóvel situado no Corredor da Vitória, em Salvador. Dentre os professores “leigos”, devo destacar a excelente didática do Professor Pedro Tavares, de Matemática, e a profunda familiaridade com a Língua Portuguesa, do professor Raul da Costa e Sá. Pela disciplina dos alunos, característica marcante da pedagogia dos jesuítas desde os tempos da fundação da ordem, foram, então, responsáveis o português Padre Abranches e o sergipano e ex-vieirense Padre Francisco Tavares Bragança. No final de cada ano, o Colégio promovia solenidade para a entrega de medalhas atribuídas aos alunos como prêmios pelo desempenho nas diferentes matérias do currículo durante o ano letivo que findava. O meu nome figurou, muitas vezes, nesses livros, dos quais conservo alguns exemplares, e que eram distribuídos nas solenidades às quais com- pareciam familiares dos alunos. Durante essas cerimônias eram encenadas peças teatrais protagonizadas pelos próprios alunos. Tudo isso integrava a tradição jesuítica, da qual fazem parte o cultivo de valores éticos inerentes ao catolicismo e o exercício da força de vontade como meio de atingir os fins colimados pelos ex-alunos ao longo de toda a nossa vida.
Durante as décadas mais recentes, ao lado da minha esposa Maria Amélia, acompanhamos a evolução do Colégio, porquanto todos os nossos seis filhos e filhas, assim como alguns dos nossos netos, têm frequentado o Vieira. Noto, por exemplo, como tem crescido o envolvimento dos pais dos alunos nas atividades escolares. Observo, também, a satisfatória evolução do ensino das ciências, em relação ao que prevaleceu nos meus tempos de estudante. Naquela época, os conhecimentos científicos nos eram transmitidos como se fossem a verdade absoluta e definitiva, sem margem para a dúvida, nem, menos ainda, para a divergência e para o debate entre professores e alunos. Fazia exceção a essa regra o citado Padre Torrend, que nos deixava à vontade para indagar e comentar. Os críticos
mais severos da pedagogia jesuítica, durante muito tempo, se referiram à ausência de estímulo à originalidade e à independência das ideias como aspectos negativos da educação nos colégios da ordem. Era, ainda, sob alguns aspectos, a reminiscência do Ratio Studiorum. A atitude atual dos professores no mesmo colégio, segundo depreendo das referências feitas pelos meus netos, está muito mais conforme as práticas educacionais recentes em boa parte do mundo, segundo as quais o ensino das ciências deve orientar-se no sentido da redescoberta, pelos alunos, dos principais fundamentos das leis que regem a natureza, conhecimentos que não devem ser considerados como definitivos, por estarem sempre sujeitos a alterações, ao longo do tempo.
Os cem anos de história do Colégio Antonio Vieira, refletindo as constantes adaptações da experiência pedagógica jesuítica ao longo dos muitos séculos, asseguram a previsão de que será sempre crescente o sucesso da instituição à qual nós, os ex-vieirenses, somos gratos por devermos parcela essencial da nossa formação.
Nota
1 Pronunciamento feito no Colégio Antonio Vieira, em Salvador, no dia 30