A. UNE CIBLE PRIVILÉGIÉE PAR LES POUVOIRS PUBLICS
1. Les aides contractuelles à l’installation sous la forme de garantie de revenu
tempos passados
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Entre tantas mudanças sofridas pela cidade do Salvador nas décadas mais recentes – inclusive algumas difíceis de entender e de aceitar –, quero lembrar as que ocorreram na rua Chile. Valho-me, tão somente, neste despretensioso depoimento pessoal, de episódios colhidos da minha memória. Procurarei relembrar por que e como, durante muitas décadas, a rua Chile ocupou parcela expressiva do tempo de grande número de soteropolitanos, para diferentes finalidades, ao longo das várias fases das nossas vidas.
A mais antiga lembrança que me ficou da rua Chile originou-se na primeira metade da década de 1930 (eu nasci em setembro de 1926). O meu pai, Edgard Santos, era professor de cirurgia da Faculdade de Medicina da Bahia. A fim de atender à sua vasta clientela privada, ocupa- va ele um consultório com várias salas, no segundo andar do edifício que
tinha o nome de “Palacete Catarino”, construído sobre terreno que se estende da rua Chile à rua da Ajuda. Esse imóvel foi demolido há vários anos e era um dos muitos de propriedade do Senhor Bernardo Catarino, português que era o homem mais rico da Bahia naquela época. O terreno onde estava implantado o edifício é hoje ocupado por um terminal de linhas de ônibus. Todos os anos, na tarde da Sexta-Feira Santa, era praxe da nossa família assistir à passagem da “Procissão do Senhor Morto”, debruçando-nos sobre as janelas do consultório do meu Pai que ficavam sobre a rua Chile. Convém lembrar que essa procissão, um dos eventos mais importantes da vida religiosa da cidade, atraía grande público. Nas Sextas-Feiras Santas, naquela época, os homens se vestiam de preto e as estações de rádio da cidade tocavam somente música clássica (de repertório que não se limitava a peças fúnebres). O momento mais espe- rado da procissão era o da passagem do pálio sob o qual se acomodavam as autoridades locais, incluindo o Arcebispo, o Governador do estado e o Prefeito de Salvador, colocados ao lado da famosa escultura representando Jesus levado ao sepulcro, do qual ressuscitou no Sábado de Aleluia. Uma banda de música acompanhava as autoridades sob o pálio. Às margens do asfalto, observavam-se as lojas mais elegantes da cidade, com as suas portas fechadas em sinal de respeito ao significado da Sexta-Feira Santa. Cerca de cinco décadas depois, enquanto fui Governador da Bahia, participei, com Maria Amélia, da cerimônia que, anualmente, dava início a essa procissão. Em frente ao altar-mor da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, autoridades e fiéis devotos assistiam a uma peça teatral em que vários atores, vestidos a caráter, protagonizavam cenas da Via-Sacra. Em seguida, as personagens que participavam dessas cenas atravessavam a nave da Igreja e, já nas ruas do bairro do Pelourinho, iniciavam o per- curso da “Procissão do Senhor Morto”, como era designada. Essa, depois de descer e subir as ladeiras do bairro, passando em frente à Igreja do Rosário dos Pretos, contornava o Terreiro de Jesus. A procissão parava, brevemente, em frente à Catedral Basílica e atravessava, em seguida, a praça da Sé (fazia poucos anos desde que a antiga Sé havia sido demolida,
originando uma das mais vibrantes controvérsias na história da cidade). Logo chegava à praça Municipal e à rua Chile, ao longo da qual, em pé, se concentrava parcela expressiva da população de Salvador. A passagem do pálio que cobria as autoridades civis e eclesiásticas era recebida com palmas. Ao chegar ao final dessa rua, a procissão acompanhava a curva que dá acesso à rua da Ajuda e, dali, percorria o caminho de volta.
Quero relatar outras lembranças das mais antigas que tenho da rua Chile. No início do ano letivo de 1936, aos meus nove anos de idade, fui matriculado no “Colégio Alemão” situado na avenida Sete de Setembro, próximo ao Campo Grande. Comecei, então, a ter fortes dores de cabe- ça. A minha Mãe levou-me a consultar o Professor Martagão Gesteira, catedrático de Pediatria da Faculdade de Medicina e amigo do meu Pai. Como o aparecimento das dores de cabeça coincidira com o reinício do ano letivo e o consequente aumento do meu esforço visual para a leitu- ra e a escrita, o Professor Gesteira recomendou que eu consultasse um oftalmologista. Dirigimo-nos, então, ao consultório do Professor Eduardo Moraes, em plena rua Chile, onde se situavam muitos dos consultórios dos mais credenciados médicos da terra. Como era praxe na época, o Professor Eduardo Moraes, catedrático de otorrinolaringologia, era, também, exímio oftalmologista. Feito o diagnóstico de miopia, tornou-se necessário encomendar os meus primeiros óculos, aos quais se seguiram inúmeros outros, que me acompanharam para o resto da vida. Voltamos, assim, à rua Chile, onde ficava a Ótica Universal, precursora das lojas do Tio Ernesto que continuam a existir em vários pontos da nossa cidade. Durante alguns anos, como acontece com frequência entre os jovens míopes, voltei ao consultório do Professor Eduardo Morais e à mesma ótica, ambos, portanto, na rua Chile, a fim de ajustar os primeiros óculos à crescente intensidade da minha miopia. Pela mesma época, recebi o presente de uma máquina fotográfica de modelo “caixão” e de marca “Agfa”. Foi mais um motivo para visitar, repetidamente, a Ótica Univer- sal, a fim de comprar os filmes que eram depois entregues à mesma loja para a devida revelação.
Existiam muitos outros motivos que nos levavam à rua Chile, ain- da na minha infância. Entre esses, lembro que acompanhava a minha Mãe nas compras por ela feitas na Casa Sloper e na Loja Duas Améri- cas onde, a fim de atrair as freguesas, havia sido instalado um salão de chá. Em outras ocasiões, visitávamos a Sorveteria Cubana, ao lado da parte alta do Elevador Lacerda. Quando lá chegávamos antes do fim da tarde, e não estava chovendo, sentávamos em torno das mesas que ladeavam a balaustrada por sobre a qual apreciávamos a beleza da Baía de Todos-os-Santos. Quando lá íamos à noite, meu Pai levava a família no seu automóvel de marca Jordan (já desaparecida há muito tempo). A Sorveteria Cubana oferecia, então, uma inovação: os sorvetes eram servidos no próprio carro, em bandejas fixadas na porta dos automóveis. Passados mais alguns anos, na outra extremidade da rua Chile, próxima ao Largo do Teatro (ou praça Castro Alves), surgiu a elegante Confeitaria Baiana, ponto de encontro dos jovens buscando namoro e dos adultos que iam atrás das “fofocas” recentes. Entre um extremo e outro da famosa rua, situava-se a Confeitaria Chile, mais ampla, muito mais antiga e menos requintada que a “Baiana”, e sempre muito procurada por uma grande população de adultos. Ao menos duas farmácias que ficavam na mesma rua – respectivamente a Farmácia Chile e a Farmácia Maria – eram as preferidas de uma vasta clientela. Quase em frente à Confeitaria Baiana ficava o prédio do jornal “A Tarde”, que se mudou de lá faz muitos anos.
Outro ponto de encontro na rua Chile, que atraía muitos frequen- tadores habituais, era o Café da Bernadette, desprovido de mesas e de cadeiras e que, mesmo assim, tinha a preferência de intelectuais e homens de negócios. Os clientes da Senhora Bernadette permaneciam de pé, estrategicamente, em posição que permitia apreciar o desfile das mulheres bonitas, na esperança de terem sucesso em “conquistar” algumas dentre elas. Como todos sabem, o ritmo de vida na cidade era muito mais lento que o atual; isto é, havia tempo suficiente para tudo o que venho descre- vendo. Vale ainda relatar uma curiosidade que se tornou supérflua com a evolução dos costumes: bem no meio da rua Chile existia um ponto de
parada de bondes, defronte ao qual se colocavam cidadãos respeitáveis à espera das oportunidades de melhor enxergar o que ficava à mostra acima das pernas bem torneadas das mulheres bonitas, quando estas se esforçavam para galgar o veículo. Já não passam mais bondes pela rua Chile; eles não mais existem em toda a cidade do Salvador. A maior parte dos trilhos por onde passavam desapareceu depois de desenterrados e vendidos como ferro velho.
Todo os anos, durante os dias e as noites do Carnaval, os foliões ocupavam a rua Chile, transformada em palco dos mais concorridos para os festejos próprios daquele intenso período da vida da cidade. Quando cheguei à adolescência, passei as manhãs dos dias de Carnaval nos salões do Palace Hotel, um dos mais vistosos imóveis da rua Chile. A entrada era franca; a animação, enorme; a barulheira, infernal. Muitos homens e mulheres usavam máscaras. As foliãs do sexo feminino pertenciam aos mais variados estratos sociais.
Cheguei à maturidade. Sobre a rua Chile continua a existir o Palácio Rio Branco, de onde governei a Bahia, durante quatro anos, e que foi, recentemente, reformado. A área sobre a qual foi construído continua sendo um espaço privilegiado, que proporciona a visão do panorama deslumbrante da Baía de Todos-os-Santos e vem sendo ocupado pelo poder público estadual desde que Tomé de Souza ali instalou o primei- ro Governo Geral do Brasil, há quatrocentos e sessenta anos (1549). O valor estratégico desse espaço está em ensejar a melhor defesa da primeira capital da colônia contra os invasores daquele tempo.
Nas margens da rua Chile, não mais existem os cinemas, principal meio de lazer do cidadão comum até que veio a televisão. O Cine Glória e o Cine-teatro Guarani se encontravam muito próximos a um dos extremos da citada rua, enquanto os Cinemas Excelsior e Liceu ficavam próximos ao outro extremo. Após as sessões de cinema, eram muito procuradas as sorveterias e as confeitarias a que já aludi. As compras nas lojas da rua Chile eram articuladas, frequentemente, com os horários das sessões de cinema.