A comunicação representa um pilar base no cuidar perante a realidade difícil do doente terminal. A comunicação adequada em CP surge como instrumento fundamental, não só no interior da equipa, mas também entre o doente e a sua família (Carvalho & Botelho, 2011).
139 Nesta categoria são abordadas as competências dos enfermeiros focadas na comunicação verbal e não-verbal.
3.5.1. Comunicação verbal
Os enfermeiros referiram a importância de uma comunicação verbal efetiva com o doente e sua família:
Comunicação verbal
- (...às vezes só uma simples palavra é o...é o suficiente para a pessoa...sentir-se pessoa...)E1; (...quando cuido tenho um sentido e esse sentido está no encontro com o doente e numa boa comunicação efetiva e emocional que permita o alívio, que proporcione carinho e atenção ou seja que o doente tenha a sua dignidade preservada…)E5
; (...em termos de paciência e de conforto, dar uma palavra amiga, um toque nem que seja um olhar...)E6; (...cuidar é ir lá, ficar, conversar, participar, uma palavra de carinho, brincar, isso também faz parte do cuidar, na oncologia, principalmente na oncologia...)E13; (...assim, é de fundamental importância facilitar sua prática através de uma comunicação efetiva...)E21; (...a equipe deve apoiar, estabelecer vínculos, escutar e promover uma boa comunicação para corresponder os anseios e medos do paciente terminal...)E21; (...você pode resolver o problema do paciente simplesmente com um diálogo, não é só fazer, administrar uma medicação, fazer um curativo...)E22.
Na opinião de Twycross (2003), o ponto fulcral dos CP integra a esperança, a honestidade e a abertura, que através de uma comunicação apropriada, permitem ligar três componentes essenciais: o alívio de sintomas, o apoio psicossocial e o trabalho de equipa.
Para Phaneuf (2005), a comunicação verbal entre o enfermeiro e o doente deve ser simples, clara, apropriada ao tempo e às circunstâncias e adaptável às reações do doente e da sua família. Assim, o enfermeiro deve adotar atitudes comunicacionais com ênfase na disponibilidade, no favorecimento de expressão de sentimentos, na delicadeza, na adequação do estilo de linguagem e do tom de voz, na escuta ativa e no contacto visual.
3.5.2. Comunicação não-verbal
Para Phaneuf (2005), a comunicação não-verbal consiste numa troca de informação sem palavras, que abrange um largo espectro de expressões corporais e de comportamentos que
140 suportam as relações verbais entre as pessoas e que contribuem para o seu significado. Já Briga (2010) refere que a linguagem não-verbal é muitas vezes desprezada e que os enfermeiros nem sempre lhe dão a importância conveniente, uma vez que esta pode transmitir as intenções e as emoções que as palavras não conseguem traduzir.
A observação, o ouvir e o toque foram os tipos de comunicação não-verbal descritos pelos enfermeiros:
Observação
- (...é importante que nós olhemos para o doente...)E5; (...basta um toque e um simples olhar para nós compreendermos e sabermos...não é o morrer de ausência de sinais vitais é o que a pessoa foi e o que vai começando a ser ao longo da doença...)E9; (...também a informação que o próprio doente nos vai transmitindo não só o que verbaliza mas as atitudes que vai demonstrando...)E9; (...ele olhava-me a pedir socorro...ficou-me sempre na memória o olhar desse doente que me olhava nos olhos a pedir ajuda...)E9; (...além de toda destreza manual, de toda técnica, acho que é importante também você ter a sensibilidade, olhar para o doente e saber qual é a ansiedade dele naquele momento...)E11.
Para Querido, Salazar e Neto (2006), a comunicação não-verbal é simultaneamente importante e difícil, pois implica a utilização e o desenvolvimento de perícias básicas que incluem: o ouvir, o observar e o tomar consciência dos nossos próprios sentimentos.
Escuta ativa
- (...o ouvir...o mostrar disponibilidade, amabilidade, o de os ouvir, o desabafar deles...o que eles sentem...)E1; (…escutar o doente é uma estratégia que procuro utilizar sempre que tenho disponibilidade, deixo-o falar, pois prefiro ouvir penso que é mais importante do que falar desadequadamente...tenho verificado que esta estratégia se revela favorecedora ao alívio do sofrimento da pessoa que está a morrer…)E5
; (...o enfermeiro é aquele que está geralmente à cabeceira do doente em todos os aspetos...que ouve, que escuta...)E6; (...o apoio, ouvindo, conversando com eles...)E7; (...é uma modalidade de cuidar que valoriza o ser...através da escuta, da comunicação e do respeito ao paciente em sua terminalidade se promove uma assistência qualificada e uma morte digna ao paciente com câncer terminal...)E21; (...we are good listeners...if you treat them as your family, you will find it seems easier to care for patients...)E29; (...I think it's, you know, understood in palliative care especially that time is important...to give time to people, time to care, time to listen or whatever...)E32; (...so I think
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you give not only the tools to help them through the process, but you give your ear, you give your touch...)E39.
A escuta ativa é referida pelos enfermeiros como uma estratégia facilitadora que minimiza o sofrimento pela construção de uma relação de confiança. Ser enfermeiro em CP não envolve somente as competências teóricas e técnicas, mas todo o seu ser e a sua pessoa, através da presença, do toque, da palavra, da escuta e da empatia (Silva, 2009).
Escutar o doente em fase terminal consiste numa arte subtil e extremamente difícil (Estanque, 2011). Na relação de ajuda, a escuta é uma capacidade essencial para compreender os doentes, sendo indissociável das várias capacidades inerentes a essa relação, uma vez que escutar não é meramente ouvir, representando um ato voluntário que implica a globalidade do enfermeiro com a globalidade do doente (Moreira, 2007).
Toque
- (...dar-lhes a mão e olhares para ele...fazer sentir a presença...a mão...nós vamos dar alguma coisa a essa pessoa, vamos se calhar tocá-la...)E1; (...e por vezes sinto a necessidade de a tocar...)E5; (…o toque é utilizado por mim e por todos nós, o tato faz parte das ferramentas dos enfermeiros, nós utilizamo-lo para tudo, desde puncionar, colocar uma sonda, etc., mas neste momentos procuro que o toque transmita à pessoa serenidade e confiança…)E5
; (...nós damos a mão ao doente para o tentarmos tranquilizar...)E7; (...procuro tratar...chamando-o pelo nome, tocando-lhe proporcionando carinho e respeito...)E14; (...segurando na mão, por que aquela pessoa tem que se sentir querida...)E18; (…the touch and the feel of the presence of somebody else there, is very important to theme...)E37; (...many times I just walked in and laid my hands on somebody and the spouse says...I don't want her bothered today..let her sleep...that is okay...just that touch is important...)E39.
O toque foi apontado por alguns enfermeiros como uma estratégia de comunicação não- verbal, como forma de transmitir o carinho, o respeito, a segurança e consequentemente uma sensação de bem-estar.
Para Briga (2010), o sentido do tato é privilegiado pela carga emocional que poderá transmitir, sendo que as mãos podem estabelecer um elo de comunicação. A comunicação não-verbal envolve os gestos, a mímica, o olhar à posição do corpo e o toque, sendo o silêncio uma forma de comunicar e como tal nunca deve ser sinónimo de vazio (Valente, 2008). A mesma autora refere que a comunicação não-verbal exige muito treino, experiência e
142 maturidade, sendo que o treino destas aptidões deve ser implementado na formação pré e pós graduada do enfermeiro como um aspeto técnico de grande pertinência.
Para Frias (2001), o tocar na pessoa em fim de vida parece favorecer a sua recuperação, sendo que a intencionalidade do toque acarreta um potencial de humanizar essa mesma relação, em que o doente pode não responder verbalmente mas agradece com o olhar. O tato e audição são os últimos sentidos que se perdem antes da morte pelo que, quando já não há nada ou não se sabe o que dizer pode-se recorrer ao toque como um sinal de compreensão, pois um simples aperto de mão firme e rápido transmite a consideração pelo outro (Valente, 2008). Segundo Briga (2010), no contexto da relação entre o enfermeiro e o doente terminal as competências comunicacionais são determinantes no processo de interação e por isso torna-se importante que os enfermeiros desenvolvam e implementem na sua prática profissional as habilidades comunicacionais.
Termina-se este capítulo salientando que o conceito de "cuidar" consiste em cuidar com e não apenas em cuidar de alguém (Frias, 2008). Os enfermeiros só podem ajudar os doentes no atendimento das suas necessidades se, eles próprios viverem sentimentos de adequação e de bem-estar. Para tal, é importante que estes valorizem algumas dimensões pessoais como a empatia, o calor humano, a disponibilidade e a aceitação do outro, para que o cuidado conduza o doente em fim de vida a compreender-se a si próprio, a favorecer-lhe a escolha dos cuidados, o controlo e a autodeterminação na forma como vive a sua situação e a preservar a sua dignidade (Frias, 2010).