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Durante as observações na turma pesquisada identificamos que o uso do celular durante as aulas e nos horários dos intervalos era frequente. Em alguns episódios o/a docente que estava ministrando a aula demonstrou ignorar o uso do aparelho, como ilustram os fragmentos dos diários de campo:

O uso do celular é uma constante durante as aulas e a professora demonstra não se incomodar. [...] O professor escreve no quadro o assunto – Arte Medieval – e pede para que todos copiem o texto. Nesse momento, poucos alunos fazem silêncio, algumas meninas conversam entre si enquanto copiam e três meninos mexem no celular, o docente vê e demonstra não se incomodar. No pátio da escola: Enquanto isso, algumas meninas ficaram embaixo de algumas árvores conversando e usando o celular. (Diário de Campo – 02/05/2016).

Enquanto copiavam o exercício, as meninas que sentam do lado esquerdo da sala conversavam sobre os grupos do WhatsApp do qual fazem parte, enquanto que do lado esquerdo da sala quatro meninos ligaram a câmera do celular e gravaram um vídeo e em seguida postaram em uma rede social. No pátio da escola: [...] algumas meninas ficam passeando pelo pátio em pequenos grupos, outras ficam sentadas nos banquinhos do pátio mexendo no celular. (Diário de campo – 03/05/2016).

Os excertos dos diários de campo a seguir mostram que o uso descontrolado do telefone celular em sala de aula e no pátio da EREM pesquisada é uma prática constante. Em 2015 foi criada a Lei Estadual36Nº 15.507, que regulamenta a utilização de aparelhos celulares e equipamentos eletrônicos nas salas de aulas, bibliotecas e outros espaços de estudos das

36Disponível

instituições de ensino públicas e particulares localizadas no Estado de Pernambuco. A referida lei proíbe o uso de aparelhos celulares e equipamentos eletrônicos nas salas de aula, exceto com prévia autorização para aplicações pedagógicas e nos demais espaços, exceto se no “modo silencioso” ou para auxílio pedagógico. Desse modo, na turma pesquisada a referida lei era descumprida.

Essas observações nos permitem inferir que os/as estudantes tendem a transgredir as proibições e usar seus celulares por terem tempo livre na escola ou estarem entediados com as aulas expositivas que, na escola pesquisada, ocorrem em tempo integral, bem como por quererem se comunicar através das redes sociais. Como consequências gerais desse uso, há distração dos alunos. A postura de alguns docentes de ignorar o uso do aparelho também nos permite inferir que eles/as não buscam adotar medidas que visem à conscientização dos alunos sobre a interferência do telefone celular nas práticas educativas, prejudicando seu aprendizado e sua socialização, conforme orienta a lei estadual. Cabe destacar aqui que não foi visto na sala de aula pesquisada nem nos demais espaços da escola a afixação de aviso sobre a proibição do uso do aparelho celular, que está previsto na lei já citada.

A prática do uso constante do celular pelos/as jovens para acessar as redes sociais também nos permite refletir sobre as conexões possibilitadas por essas redes.Uma forma de compreendê- las é por meio do conceito de capital social. Recuero (2012) conceitua capital social como recursos coletivamente construídos relacionados ao pertencimento da rede, valores estes que podem ser individualmente apropriados. Desse modo, fazer parte de uma rede social é importante para ter acesso a recursos construídos pelo grupo. Recuero (2009) destaca alguns valores relacionados aos sites de redes sociais e sua apropriação pelos atores. A visibilidade tem relevância, pois quanto mais conectado estiver o usuário, maiores as chances de receber determinado tipo de informação e obter suporte social quando solicitar. A reputação é a percepção qualitativa construída de alguém pelos demais atores e está relacionada ao tipo de informação publicada pelo ator social. A popularidade é um valor relacionado à audiência e pode ser inferida a partir do estudo estrutural da rede social. Já a autoridade é o poder de influência de um ator na rede.

Observamos também que algumas docentes demonstraram se incomodar com o uso constante do celular pelos/as estudantes durantes as suas aulas, e a medida adotada por elas foi de

guardar/tomar os aparelhos para que os estudantes pudessem prestar atenção às aulas, como exemplificam os trechos dos diários de campo a seguir:

A professora pediu que os/as estudantes respondessem um exercício sobre Classes de Palavras, que posteriormente ela iria corrigir. Nesse momento, um pequeno grupo de meninos faz uso do celular durante a atividade, o que incomoda a professora. Ela toma o celular de um deles e pede que eles se concentrem na atividade. (Diário de campo – 04/05/2016).

[...] O sinal tocou e a turma voltou para a sala, para a aula de Química. Antes de começar a explicar o conteúdo a docente pede os celulares dos/as estudantes e os coloca sobre a sua mesa. Uma das meninas insiste em ficar com o aparelho [...] Nesse momento, a professora fala para a menina que todos/as têm que entregar o celular. (Diário de campo – 12/05/2016).

A postura das docentes frente ao uso do aparelho celular durante as aulas nos permite inferir que elas decidem tomar e guardar esses telefones móveis a fim de que os estudantes prestem atenção às aulas, que são interrompidas com frequência quando estes se distraem usando o aparelho sem a autorização das professoras. Os excertos dos diários de campo também revelam que nenhuma discussão sobre o uso consciente e crítico do celular e para fins pedagógicos foi possibilitada pelas docentes, relevando assim uma incomunicabilidade entre os/as jovens estudantes e professores/as.

As posturas dos/as professores/as frente ao uso do celular pelos/as jovens durante as aulas nos permite inferir que a instituição escolar ainda não está aberta ao diálogo com as novas gerações e nem busca compreender os contextos culturais de experimentação da vivência do tempo de juventude, corroborando com a literatura que versa que:

[...] muitos dos problemas relacionados com a baixa sinergia comunicativa entre professores/as e alunos/as residem numa ignorância relativa da instituição escolar e de seus profissionais sobre os espaços culturais e simbólicos nos quais os jovens se encontram imersos. Numa perspectiva de compreensão da vida escolar como uma mão dupla, intuo que o esforço dos educadores em compreender os sentidos de ser jovem no tempo presente pode resultar em práticas e políticas que possibilitem que os jovens encontrem sentido nos tempos e espaços escolares. Uma questão que se impõe de início, neste debate, refere-se à necessária constatação de que o poder de formação de sujeitos pela instituição escolar tornou-se significativamente relativizado pelas inúmeras agências e redes culturais e educativas de elaboração de subjetividades e sentidos de existência. Dentre esses, destacam-se os meios de comunicação (não apenas os de massa, mas também as mídias alternativas e descentralizadas), os mercados de consumo e os grupos de identidade. (CARRANO, 2013, p. 183).

Desse modo, é imprescindível que a escola desenvolva um trabalho que vá além do ato de proibir o uso do celular em sala de aula e demais espaços da instituição, é preciso, sobretudo, reconhecer que as culturas juvenis contemporâneas encontraram no telefone celular uma

ferramenta para expressar suas demandas por autonomia, conectividade onipresente e redes de práticas sociais compartilhadas (CASTELLS et al., 2009).

A escola pode trabalhar para que essa tecnologia possa ser utilizada pelos/as estudantes de forma consciente e ética e, inclusive, para fins pedagógicos. É necessário ensiná-los/as que poder acessar as informações por um celular onde e quando quiserem não significa que eles/as devam fazer isso a todo momento. Como o uso desses aparelhos faz parte hoje da construção da identidade desses/as jovens, a escola pode partir desse interesse para se aproximar desses/as estudantes. Ignorar e menosprezar a cultura que os/as jovens trazem da sua realidade é desperdiçar uma oportunidade de diálogo e parceria.

Ainda no que concerne ao uso do celular no recinto de sala de aula, observamos que os estudantes usavam o celular para acessar as redes sociais e fazer comentários sobre fotos de meninas postadas nesses espaços virtuais, como ilustram os excertos dos diários de campo abaixo:

Alguns meninos abriram as redes sociais e ficaram comentando as fotos de algumas meninas conhecidas. Os comentários de alguns eram: “bicha boa”, “gostosa”, “Ai delícia, se eu te pego”, entre outros. (Diário de Campo – 02/05/2016).

Alguns meninos usaram o celular para verem e comentarem fotos de meninas nas redes sociais durante a aula. Delícia, gostosa e boazona foram algumas das palavras utilizadas por eles para se referirem às fotos das meninas. (Diário de Campo – 13/05/2016). Os trechos dos diários de campo acima revelam que os meninos, ao visualizarem fotos de meninas nas redes sociais, se referem a elas como objetos sexuais, banalizando a imagem da mulher. A objetificação do corpo feminino, explícita nos discursos dos meninos pesquisados, é uma das características da cultura patriarcal que ainda persiste, uma vez que essa objetificação está intimamente ligada à função do corpo da mulher enquanto mero objeto de prazer sexual masculino.

Cabe destacar aqui que a objetificação está presente nas mais diversas instâncias da sociedade. Um exemplo clássico é a forma como a mulher é retratada em propagandas publicitárias. E muitas campanhas, especialmente as de cerveja, mulheres são estereotipadas e hiperssexualizadas. As conseqüências dessa objetificação são várias, entre elas, a manutenção e fortalecimento da estereotipação da mulher e a auto objetificação. A mulher deixa de ser percebida enquanto ser humano, cidadã de direitos, para permanecer como objeto de procriação e posse masculina.

Durante as observações em sala de aula, um episódio ocorrido apenas no primeiro dia de observação nos despertou a atenção, a turma pesquisada foi questionada pela gestão da escola, que alegou que essa turma estava sendo acusada por estudantes de outras turmas de praticar ofensas contra meninas de outras turmas por aplicativo de celular e pelas redes sociais, como exemplifica o fragmento do diário de campo a seguir:

Nesse momento, a gestora da instituição interrompe a aula para conversar com a turma sobre algumas intrigas surgidas nos jogos interclasses entre as turmas da escola. Segundo a gestora, a turma foi acusada de divulgar no aplicativo WhatsApp, e em redes sociais, xingamentos e ofensas contra meninas de outras turmas durante os jogos, o que ocasionou na vinda dos pais das meninas ofendidas até a escola para tomar satisfação do ocorrido. A gestora ainda orientou os/as estudantes da turma sobre o uso inadequado das redes sociais e aplicativos para a promoção da violência entre os/as estudantes da escola e pediu que o ocorrido não se repetisse e que os estudantes usassem as redes sociais para fazer o bem. Nesse momento, vários/as estudantes falam ao mesmo tempo querendo explicar o que, de fato, aconteceu. Então, a gestora pediu que falassem um de cada vez. Uma das meninas começou a explicar que durante os jogos interclasses algumas turmas se tornaram rivais. De acordo com a estudante, as meninas das outras turmas começaram a xingar as meninas do 2ºA chamando-as de “putas, raparigas, oferecidas, e mandando elas para aquele canto”, só porque elas estavam ganhando. Diante disso, explicou a menina, alguns meninos da turma não gostaram e resolveram defender as suas colegas de turma, xingando as adversárias com as mesmas palavras de baixo calão. A menina completou: “O que ocorreu foi que a gente tem um grupo da turma no

WhatsApp e a gente comentou o corrido e alguém do grupo deu um print da conversa e repassou para as meninas das outras turmas. E a gente não sabe quem foi que também fez um meme (imagem contendo legenda) com xingamentos e fotos dessas meninas e postou no Instagram da nossa turma, alguém hackeou nosso insta”.Um dos meninos

concordou com a colega e enfatizou que xingaram as outras meninas porque elas começaram primeiro a xingar as colegas de turma, mas que eles estavam arrependidos e não iriam fazer mais isso. A gestora diz: “eu acho bom mesmo, pessoal, porque um pai

de uma das alunas da outra turma ameaçou entrar na justiça por causa disso”. Em

seguida, a gestora deixa a turma e os/as estudantes ficam comentando o ocorrido. Um dos meninos, se referindo às meninas da outra turma, ainda diz: “Elas querem dar uma

de santinha, de santinha não têm nada”.

O trecho do diário de campo acima revela que as redes sociais e aplicativos de mensagens, acessadas pelos/as jovens através da telefonia móvel, vêm se tornando espaços de manifestação da violência contra meninas e mulheres. No caso da escola pesquisada, uma discussão violenta com trocas de xingamentos entre os/as estudantes durante os jogos interclasses se estendeu até o ambiente virtual. Meninas e meninos da turma observada utilizaram uma rede social e um aplicativo de mensagem para ofenderem meninas de outras turmas com palavras pejorativas que ferem a honra e a imagem dessas meninas, o que nos permite inferir que os espaços virtuais, constantemente acessados pelos jovens, vêm reproduzindo discriminações construídas socialmente baseadas nas expectativas sobre o que seria um comportamento feminino “adequado”.

O dossiê Violência contra as mulheres, elaborado pela Agência Patrícia Galvão37 confirma que as redes sociais e outras áreas da comunicação digital têm se configurado como espaços de manifestação da violência contra as mulheres. A ampliação do círculo de pessoas alcançadas pelas chamadas redes sociais e a instantaneidade com que mensagens de voz e de texto, vídeos e fotos são trocados e replicados nesse ambiente virtual estão no cotidiano de uma parcela considerável dos jovens e da população brasileira. Considerando essa realidade, é preciso promover debates e reflexões sobre o uso da internet no âmbito escolar, visto que o uso do celular pelos/as jovens para acessar as redes sociais é constante, conforme descreve os trechos dos diários de campo, bem como sobre as raízes da violência contra as mulheres para extinguira violência de gênero no ambiente virtual. Nesse sentido, pudemos observar uma tentativa sutil da gestora de orientar a turma sobre o uso consciente desses espaços virtuais, no entanto, a mesma não buscou refletir sobre a violência de gênero sofrida pelas alunas.

4.3 A aprendizagem dos papéis estereotipados de gênero: do assédio sexual e moral à