2.3.1 Notas biográficas
A sete de março de 2005, em Manchester nasceu o aluno J e decorrido um ano nasce o seu irmão (aluno L). Com a família composta por quatro elementos, em 2013, o jovem casal decidiu regressar ao seu país de residência: Portugal.
A mãe de J, de origem angolana, e o pai, de origem portuguesa, ao regressarem a Portugal, tentam retomar a vida que interromperam, mas agora acompanhados pelos dois filhos de naturalidade inglesa.
O único obstáculo que poderia dificultar o ingresso dos seus filhos numa escola portuguesa era a sua língua materna: o inglês. A instalação em Portugal não foi difícil, visto já terem vivido neste anteriormente. Apenas depararam-se com uma situação completamente nova: a integração dos seus filhos na escola. Uma vez que a sua residência é em Queluz, trataram de matricular os seus filhos na escola mais próxima. O aluno J com 8 anos ingressa numa turma de 4º ano enquanto o seu irmão, o aluno L, de 7 anos é matriculado no 2º ano de escolaridade. Para não perturbar muito a integração dos seus filhos no novo país, os pais do aluno L decidiram regressar a Portugal num período que favorecesse a entrada na escola, no início do ano escolar.
11 Sabe-se que o pai não tratou da documentação necessária para a alimentaçãoo na cantina. O
Agrupamento procedeu às diligências necessárias e conseguiu obter refeições gratuítas para aluna. Passando esta, mesmo contra a vontade do pai, a almoçar na escola.
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2.3.2.Entrada na escola – o 1º dia de aulas
No dia dezasseis de setembro de 2013, na turma do quarto ano, pelas nove horas, tal como todas as turmas da restante escola, a professora titular aguardava na sala com a documentação necessária e alguma informação escrita no quadro. Nesse momento não seriam os alunos a ocupar os lugares, mas sim os seus pais.
Eram nove horas em ponto quando os primeiros pais começaram a entrar na sala número sete do bloco D. Cumprimentaram a professora e como a conheciam de outros anos, dirigiram-se às mesas sem perguntarem informações. No meio dos vários encarregados de educação conhecidos pela professora, surgiram duas caras novas: uma senhora que acompanhava um menino. Provavelmente seria um encarregado de educação com o novo aluno. Talvez por timidez, dirigiu-se, tal como os outros, a uma mesa e sentou-se, sem primeiro falar com a professora individualmente.
No fim da receção, após a professora explicar o que para a maioria já era habitual, o novo encarregado de educação, que era a mãe do novo aluno, dirigiu-se à professora e finalmente apresentou-se. Identificou-se, explicou que tinha chegado de Inglaterra há pouco tempo e que o seu filho tinha nascido na Inglaterra. Por morarem em Queluz tinha matriculado o seu filho naquela escola e como tinha frequentado o terceiro ano, a direção da escola perante a documentação apresentada procedeu à equivalência escolar do aluno. Nessa troca de palavras, o encarregado de educação informou a professora que o aluno não sabia falar português e se fosse necessário estaria disponível a ajudá-la na questão da língua. A professora compreendeu a situação e disse que iria dar maior atenção ao aluno nos primeiros dias de aulas de modo a perceber quais eram as suas necessidades.
Como a professora conhecia a turma, começou a aula com um diálogo sobre as férias. Apesar de não compreender português, o aluno J tentou participar tal como a restante turma. Ao tentar interagir oralmente, a professora apercebeu-se que o aluno conseguia pronunciar algumas palavras e transmitir algumas ideias, contudo o seu discurso era dominado pelo inglês e a professora não pôde ajudar completamente, pois ela não dominava o inglês (sua formação escolar premiou o francês colocando o inglês de lado por opção). Após uma partilha oral, a professou solicitou a todos os alunos que redigissem uma composição onde relatassem como tinham sido as suas férias. J respondeu positivamente a esta atividade escrevendo, em inglês, uma composição sobre as suas férias.
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2.3.3Estratégias iniciais da professora
O primeiro procedimento foi colocar, como colega de carteira do aluno J, a melhor aluna da turma. A professora pensou que a melhor aluna da turma não iria ficar prejudicada em termos de desempenho e ainda poderia apoiar o colega recém-chegado em pequenas situações que ela não conseguiria detetar.
Nos primeiros meses de aulas, a professora tendo em conta que o aluno não dominava a língua portuguesa como os restantes colegas, preparava fichas e outros materiais de forma diferente, mas com o tempo foi perdendo essa necessidade por duas razões: ao nível da área de Matemática os conteúdos eram idênticos ao que aluno tinha aprendido em Inglaterra; o aluno tentava a acompanhar os colegas e quando lhe era apresentado uma ficha ou trabalho diferente dos demais, o aluno não fazia, mostrando à professora com esta atitude que não queria ser tratado de forma diferente. Mas claro nem sempre isso era possível, havia o obstáculo que o destacava dos outros: a língua e isso diferenciava-o na sua capacidade de se expressar oralmente e na escrita.
Durante alguns meses, um dos trabalhos extras do aluno J era aprender a letra manuscrita. Para isso a professora facultou-lhe um abecedário escrito em imprensa e com sua correspondência em manuscrito.
2.3.4 Apoio Educativo
As competências do aluno J estavam a revelar-se insuficientes para que tivesse sucesso escolar ao nível do 4ºano de escolaridade, por isso o aluno foi proposto para apoio educativo. O apoio decorreu dentro da sala de aula, onde uma professora do apoio o auxiliava, de forma individualizada, na realização das tarefas que eram propostas. Não foram planificadas atividades específicas em língua portuguesa como língua não materna e tendo em conta as características individuais do aluno.
2.3.5.Prova de proficiência /nível
Este teste incide sobre todas as competências (oralidade, leitura e escrita) e tem como o objetivo diagnosticar qual a proficiência oral e escrita do aluno em Português.12
12Lembra-se que este teste incide sobre as competências orais e escritas do aluno e posteriormente
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A professora foi informada que o seu novo aluno tinha de realizar o teste de proficiência, de modo a situá-lo num nível de proficiência e posteriormente indicar o seu nome no Conselho Pedagógico para que este fosse abrangido pelo Português de Língua Não Materna.
Ao constatar a extensão do teste e todos os procedimentos que deveria efetuar, a docente considerou que não seria fácil fazê-lo durante a aula com os outros alunos presentes. Por conseguinte planificou a realização do teste durante a hora das atividades de enriquecimento curricular. Uma vez que eram atividades extracurriculares não prejudicaria o desempenho escolar do aluno e nessas horas conseguiria encaminhá-lo para uma sala onde estivesse sozinho, sem interferências de outros e assim aplicar-lhe o teste de forma serena sem qualquer tipo de perturbação funcional. Ao aperceber-se que estava sozinho com uma ficha à sua frente e que os colegas tinham ficado na outra sala a ter a atividade, o aluno recusou-se a fazer o teste. A docente explicou-lhe que era necessário, pois ele necessitava de apoio e só após a realização daquele teste seria possível solicitar o mesmo. Mesmo com todas as explicações, o aluno J continuava a dizer que não queira fazer. Perante tal atitude a professora retirou-lhe o teste e dispensou-o. Contudo era necessário que o aluno realizasse o teste, por isso pensou deixar passar uns dias e voltar a tentar. Mais uma vez o aluno recusou, perguntando porque é que os outros colegas não estavam ali a fazê-lo. A professora explicou que ele tinha vindo de Inglaterra e não percebia muito bem português e por isso estava a fazer o teste. Perante isto o aluno ficou um pouco convencido e começou o teste, mas não por muito tempo. Quando a professora pensou que este iria concluir o teste, ainda não tinha chegado a meio, o aluno voltou a dizer que não queria fazer. Para não pressionar mais o aluno, a docente deixou passar mais uns tempos. Durante esta pausa a professora foi notificada da chegada de uma aluna nova vinda de Espanha (aluna N). Como a nova aluna era natural de Espanha, a sua escolarização era espanhola e a sua língua materna era o espanhol, assim, foi necessário assinalá-la como aluna com Português Língua Não Materna e aplicar-lhe o teste. Os dois alunos realizaram o teste em conjunto e, deste modo, o aluno J concluiu o teste.
O aluno J obteve uma classificação que o enquadrou no nível de proficiência A2. Este nível carateriza o aluno como um utilizador elementar da língua portuguesa. Especificamente revela que este é capaz de compreender frases isoladas e expressões frequentes relacionadas com as áreas de prioridade imediata. Para além de conseguir
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comunicar em tarefas simples que impõem uma simples troca de informação relativamente a assuntos que lhe são familiares e habituais.
2.3. 6 Desempenho escolar do aluno
Nas primeiras aulas em que o aluno J participou, a leitura individual em voz alta era difícil no que dizia respeito ao acompanhamento dos colegas e a ajuda da sua colega de carteira parecia funcionar. Enquanto os colegas liam em voz alta, a sua colega colocava o livro no centro da mesa e com o lápis assinalava a linha, mais especificamente a palavra para o aluno J se orientasse e situasse no texto que estavam a estudar. Mais tarde, quando o aluno J começou a ler em voz alta os textos propostos em sala de aula, a colega continuava com o mesmo procedimento e quando ele lia e não conseguia descodificar palavras, a colega, em voz baixa, pronunciava-lhe ao ouvido a palavra e assim o aluno J repetia. No final do ano, o aluno J já não necessitava de ser guiado na leitura e acompanhava a leitura dos colegas sem se perder.
Também ao início, todos os seus trabalhos escritos eram realizados com recurso à letra de imprensa. Nesse momento, a professora apercebeu-se que o aluno não sabia transpor a letra de imprensa para letra manuscrita. Para ajudá-lo, a docente sempre que escrevia no quadro usava este tipo de letra.
Outra dificuldade revelada pelo aluno J era a produção escrita. Sempre que a professora solicitava um texto escrito, J escrevia sem obstáculo. Contudo o seu resultado não era dos melhores. O texto que produzia era sempre todo em inglês. Para não desencorajar o aluno, a docente solicitava que lesse o seu texto em voz alta, tentando ao mesmo tempo que o traduzisse e explicasse o que tinha escrito para que todos o entendessem. O aluno J, sem reservas, iniciava a leitura e usando as poucas palavras que sabia em português traduzia o seu texto. Quando não sabia explicar, a turma que desde o 2º ano frequentava aulas de inglês, auxiliava-o na tradução.
2.3.7 Outros contactos dos pais com a professora.
No primeiro contacto com o encarregado de educação, a docente tinha acordado que, caso necessitasse de algum apoio, entraria em contacto. Contudo durante o ano letivo, a docente nunca convocou o encarregado de educação com exceção nos finais de cada período para este receber a informação relativamente à avaliação sumativa. Desde o
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início que a docente sabia que o aluno não dominava o português, mas o aluno foi sempre acompanhando as aulas e o seu comportamento era exemplar. Deste o modo o contacto com o encarregado limitou-se às três reuniões de avaliação sumativa ocorridas no final dos períodos, onde este era informado do desempenho do aluno J.
2.3.8 Interação com os adultos e colegas 2.3.8.1 Acompanhamento das aulas.
Para além de saber que no final do ano letivo, a turma iria ser submetida a uma prova nacional, tentar perceber se J entendia o que se passava na aula, constituía uma preocupação da professora. As aulas, dominadas pelas duas circunstâncias, conduziam-na a perguntar frequentemente ao aluno se entendia o que se estava a passar na aula. J tentando revelar a sua atitude de esforço em se integrar na turma respondia sempre “ um cachinho”. Mas esse “cachinho” fazia com que o aluno J conseguisse acompanhar as aulas. Sempre que tinha alguma dificuldade, a sua colega de carteira ajudava-o a ultrapassar. Quer a matemática, quer a português, o aluno J nunca se recusou a realizar as tarefas. Copiava todos os exercícios do quadro e quando não sabia esperava que esses fossem resolvidos ou corrigidos no quadro. O seu empenho e as suas poucas dificuldades levaram a docente a não sentir necessidade de realizar fichas diferentes. Bastava por vezes uma explicação mais individualizada para que J ultrapassasse os seus bloqueios e resolver os exercícios. Quando chegaram as primeiras fichas de avaliação referentes ao primeiro período, a docente ponderou facultar-lhe um teste mais simples caso J não conseguisse executar o teste destinado à turma. No entanto não foi necessário. Ao dar-lhe a ficha, J começou a resolvê-la e quando não percebia chamava pela professora que o ajudava a interpretar o que estava escrito. A sua maior lacuna residia na sintaxe do português, pois havia alguns conceitos gramaticais que não dominava, e, consequentemente emergiam as dificuldades na produção de textos escritos. Por esse motivo, a docente na reunião de pais referiu essa questão ao encarregado de educação que se comprometeu em apoiar mais J em casa de modo a que isso fosse ultrapassado. Quando o ano letivo se aproximou do final, o aluno J tinha conseguido evoluir e era capaz de ler um texto sozinho e responder às questões de interpretação. O apoio que recebia na escola e em casa tinha funcionado, apenas a sua produção escrita demonstrava alguns sinais da sua língua materna. Devido ao seu grande esforço e empenho, J conseguiu terminar o 4 ºano com níveis positivos a todas as áreas curriculares.
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Inicialmente a professora pensou que o aluno iria fazer as provas nacionais do 4º ano, mas em reunião de ano foi informada que os alunos que não tivessem o português como língua materna e tivessem ingressado no sistema educativo português no ano letivo correspondente ao da realização das provas finais, ou no ano letivo anterior estavam dispensados da realização de provas finais do 1.º ciclo (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho). Por estes motivos, J ficou dispensado de realizar as provas finais do 1º ciclo.
2.3.8.2.Relacionamento com os colegas
Dentro da sala e desde o seu primeiro dia de aulas na escola, J sentiu o companheirismo e a ajuda por parte dos seus colegas. Mas nem sempre essa amizade se prolongava a outras situações, tais como no recreio. Nos primeiros dias, após a sua chegada mantinha-se sozinho perto do gradeamento que separa o espaço exterior da escola. Nesse local, J observava grupos de crianças que aproveitavam o espaço entre a grade e o bloco D para jogarem à apanhada. Não brincava com eles, apenas observava e quando achava que a observação era suficiente abandonava o local e atravessava o espaço escolar como quem passeia. Por vezes interrompia a caminhada porque os colegas, que se iam cruzando com ele, mostravam os brinquedos que traziam para a escola. Outras vezes era interpolado por bolas que vinham do campo e J aproveitava para dar uns toques e praticar as suas habilidades como futebolista. Mas logo era interrompido pelos jogadores que lhe pediam para devolver a bola e assim prosseguirem o jogo. J prosseguia a sua caminha até à grade oposta à outra onde se encontrava inicialmente. Aí encontrava colegas de outras turmas que o incluíam nas suas brincadeiras. Mas com o passar dos tempos, os recreios de J começaram a ser dominados pelo futebol e a suas amizades foram diversificando-se.
2.3.9 Situações de dia a dia 2.3.9.1. O recreio/O que joga.
O aluno J, tal como os outros rapazes da sua idade, mal ouvia o toque ia jogar e independentemente da idade, da origem e estatura havia algo em comum: o futebol. Mal chegava ao campo, as equipas formaram-se obedecendo, ou não, ao número de jogadores que as regras permitem, uma vez que o importante era jogar. Sem conversar e sem dificuldade em entenderem-se, o objetivo era chutar e marcar golos. Mas de
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forma geral no futebol não era necessário saber expressar-se, um simplesmente gesticular de braços e alguns movimentos de dedos, J fazia-se entender e rematava à baliza numa tentativa de golear. O aluno J também não precisava de falar para ir atrás da bola quando ela sai das quatro linhas e um livre tinha de ser marcado a favor da sua equipa.
2.3.9.2A hora de almoço.
Quando chegava a hora de almoçar, J e os seus colegas paravam de jogar e corriam em direção ao refeitório para não chegarem atrasados. Ao chegarem à fila, o companheirismo vivido no campo desaparecia e dispersavam-se pela fila onde aguardavam a sua vez. J estava mais uma vez sozinho e na hora do almoço parecia não reconhecer ninguém. Era bastante passivo e não reagia a provocações proporcionadas pelas crianças que estavam atrás de si (empurrões).
2.3.10 Situação no final do ano
Decorrido o ano letivo 2013/2014, o aluno J conseguiu integrar-se numa turma de 4º ano, acompanhar as aulas e evoluir no respeita aos conhecimentos. Sem realizar as provas nacionais do 4º ano e com níveis positivos às áreas curriculares, J conseguiu transitar para o 5 º ano de escolaridade.