As atividades desenvolvidas nos primeiros dias de aulas basearam-se em jogos, pois através destes é possível compreender melhor a criança quer socialmente, quer afetivamente. Importa também perceber se as crianças apresentam dificuldades em executar movimentos finos com controlo e destreza. Para isso, a professora propôs aos alunos que fizessem um desenho livre. Como estavam no terceiro dia de aulas, a docente pediu para escreverem a data, pois, apesar de ainda não saberem escrever e ler, podiam copiá-la do quadro para a folha. Enquanto os alunos iniciavam a tarefa proposta, a professora parou junto de M e viu que esta apenas segurava no lápis. Apercebendo-se que aluna estava com alguma dificuldade em decifrar o pedido, a professora recorreu a gestos. A aluna olhava para ela e tentou rabiscar algo na folha, mas não conseguiu. Perante isso a docente escreveu a data e o seu nome na folha, pegou na mão da aluna e ajudou a passar por cima do que estava escrito, de modo a treinar a sua mão aos movimentos que devia fazer. Uma vez que M não conseguia desenhar, a pintura poderia ser uma alternativa. Assim sendo, a professora abriu o
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estojo da aluna, espalhou os lápis de cor, pegou num lápis vermelho, mostrou-lhe e disse-lhe: “vermelho” “ pintar o desenho” e de seguida pintou o telhado da casa. Ao observar a professora, aluna M pegou no lápis e começou a pintar. Quando voltou a verificar o seu trabalho, reparou que aluna não tinha colorido o desenho. Ela produziu um conjunto de manchas vermelhas que não respeitavam os limites da imagem. Em seguida, perante esta situação a docente forneceu-lhe outra folha, mas desta vez em branco e não lhe deu indicações. A docente afastou-se e deixou que ela realizasse o trabalho de forma livre. A docente apercebeu-se que as dificuldades da aluna não passavam apenas pelo domínio da língua portuguesa, mas também pelo domínio da grafia, estando a sua motricidade fina pouco desenvolvida.
2.5.7 Outros contactos dos pais com a professora
Após a filha ingressar na escola e preocupada com o seu desempenho, procurou a professora para a informar que a menina não sabia falar português e que tinha vindo de Cabo Verde há poucos meses. A professora optou por convocar a mãe de modo a conversar melhor sobre a situação da aluna.
Na reunião a professora comentou com a mãe que M não entendia bem português. A mãe confirmou dizendo: “Português? Não percebe…Não fala nada”. A professora ainda quis explorar melhor a situação nomeando algumas dificuldades que tinha apercebido nos primeiros dias, principalmente na questão que se prendia à motricidade fina, tendo mostrado à mãe o caderno da criança e comentado sobre as dificuldades em copiar o nome, em fazer desenhos e em fazer movimentos com lápis. Mencionou ainda o papel que, em casa, a família poderia desempenhar ao ajudar M.
2.5.8 Interação com os adultos e colegas 2.5.8.1 Acompanhamentos das aulas
Iniciando pelo ensino das vogais, M conseguia identificar os seus sons em diversas palavras e reconhecer as cinco letras nas diversas palavras. O desenho das mesmas é que constituia numa tarefa difícil. Por mais grafismos e exercícios que realizasse, M continuava a apresentar dificuldades em reproduzi-las graficamente. Uma vez que aprendizagem das vogais parecia ter-se consolidado, seguiam-se os ditongos. Neste momento, M começou a revelar outras dificuldades. Quando as vogais surgiam juntas, M não entendia a junção dos sons, M pronunciava os ditongos como se fossem duas letras distintas: “a” e “i”; “a” e “u”. No final do 1º período, M ainda entendia poucas
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palavras e não conseguia pronunciar as frases corretamente. A sua caligrafia era ilegível devido às sua motricidade fina estar pouco trabalhada. Os seus desenhos eram pouco criativos, nem sempre conseguia identificar as cores, e apresentava dificuldades em traçar linhas quer com movimentos livres ou dirigidos. Na pintura de desenhos continuava a não respeitar os limites. Os seus recortes e colagens eram desorganizados. Também a sua postura face à escola e dentro da sala de aula não era a mais adequada. Cansava-se com facilidade, apresentava pequenos períodos de concentração e atenção, e desistia à primeira dificuldade.
2.5.8.2. Como se relaciona com os colegas
Nos primeiros dias, M teve dificuldade em fazer amizades e passava os recreios sozinha. Enquanto os seus colegas brincavam e conversavam, M isolava-se e brincava com a terra, com a qual criava montinhos onde espetava pequenos paus com folhas que apanhava do chão. Alguns colegas da sua turma paravam junto dela e perguntavam o que estava a fazer, mas M olhava para eles, sorria e continuava com a sua brincadeira sem falar. Os colegas também não insistiam. Permaneciam alguns minutos junto dela, tentavam interagir, ou perceber o que fazia, mas como não havia feedback da sua parte, desistiam e iam para outra zona do recreio. Foi assim que a aluna M passou os seus primeiros recreios. Mas por vezes não queria brincar sozinha e mantinha-se junto da professora e seguia-a até onde ela fosse. Chegava a ir com ela até ao pavilhão onde se encontrava a sala de professores e aí permanecia até que a professora voltasse. Houve outras situações em que M queria permanecer na sala com a professora e esta insistia que M fosse para o recreio.
Perante estas atitudes, a professora começou a preocupar-se e decidiu falar com os alunos, sondar por que razão não brincavam com aluna e apelar junto deles que nos futuros recreios tentassem incluí-la nas suas brincadeiras. Após o apelo da professora, toda a turma juntou-se e empenhou-se em ajudar a pequena aluna M. O movimento solidário foi de tal ordem gigantesco que num dos dias de vigilância a professora viu que aluna M já não brincava sozinha, mas sim com colegas que pertenciam a outras turmas.
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2.5.9 Situações no dia a dia