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Nos primeiros dias de aulas, L revelava-se tímido e pouco intervinha nas aulas com receio de errar. Quando submetido a uma questão oralmente, manifestava dificuldades em apresentar um discurso inteligível. O seu português misturava-se com o inglês. Com o passar dos dias, L ia ficando mais autoconfiante e não eram as dificuldades linguísticas que o impediam de participar e realizar as atividades propostas. Contudo a docente começou a aperceber-se que as limitações do aluno não dependiam apenas da língua. Através da produção na sala de aula surgiam as suas dificuldades que passavam por conteúdos que não dependiam do domínio do português, tal como a

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realização de simples operações e decomposições de números.

2.4.7 Outros contactos dos pais com a professora

À semelhança do que se passava com o irmão, também no caso de L os pais mostravam-se interessados no percurso escolar dos filhos e não faltavam às convocatórias. Assim, durante a primeira semana de aulas, a mãe do aluno apareceu na escola para reunir-se com a professora. Queria saber como o seu filho estava a reagir às aulas e como se tinha integrado. Ela estava preocupada devido à mudança de país e receava que isso dificultasse o seu sucesso escolar. A professora elogiou o comportamento do aluno, mas partilhou o facto de o aluno apresentar algumas dificuldades ligadas à língua. Disse ao encarregado de educação que o aluno parecia compreender o que era falado em contexto de sala de aula e quando intervinha tinha sérias dificuldades em produzir um texto claro e inteligível. A mãe concordou, pois explicou à professora que ele tinha nascido em Inglaterra, a sua língua materna era o inglês e apesar em casa tentarem falar em português, o inglês acabava sempre por vir à tona e suprimir a utilização da outra língua. No entanto, uma vez que estavam em Portugal e ela encontrava-se em casa, comprometeu-se em ajudar o filho nas questões da língua, usando-a mais nas situações do dia a dia.

Passado umas semanas, a docente chamou a mãe, explicou-lhe que o aluno apresentava muitas falhas, nomeadamente ao nível de conhecimentos nas áreas de matemáticas e português sendo estes muito elementares. O encarregado de educação concordou e ainda reforçou que considerava a escola na Inglaterra pouco exigente. Apoiou a docente dizendo-lhe que qualquer estratégia pedagógica optada teria o seu apoio e reforço, pois, em casa, ela iria ajudar o filho naquilo que fosse possível e possibilitar um trabalho colaborativo com a professora.

2.4.8 Interação com os adultos e colegas 2.4.8.1 Acompanhamento das aulas

Desde o primeiro dia, a professora sentou o aluno L junto de um colega bastante falador. Talvez explicasse “coisas” ao aluno L e, uma vez que interrompia, comentava e chegava por vezes a “denunciar” comportamentos do seu colega de carteira, quando L não estava acompanhar a aula, e dizendo: “Professora, acho que o colega não está

a compreender. Ele não a está fazer o trabalho”. Assim a professora intervinha e

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Com o avançar dos tempos, as situações de sala de aula desenrolavam-se mostrando L cada vez mais integrado e deixando a timidez de lado. Ganhava gosto em participar e realizar as tarefas escolares. Acertar nas respostas, fazer tudo correto era algo que o deixava feliz, enquanto o contrário não. Se por algum motivo errava ou a professora chamava-o à atenção dizendo: “ Aluno L, não é assim. Não estás a fazer bem”, o aluno ficava amuado e por vezes surgiam-lhe lágrimas no rosto. Para além disso, também apercebeu-se que existiam colegas que estavam no seu nível de aprendizagem, 1º ano, mas que não tinham tanto sucesso como ele, isso dava-lhe coragem e motivação para continuar a trabalhar com esforço e empenho. Decorridos quase dois períodos letivos, o aluno mostrou plena integração na turma. Falava com todos os colegas e a sua presença na sala não revelava qualquer tipo de estranheza. Aquela turma parecia ser a sua desde o primeiro ano.

Adorava desenhar, principalmente o seu autorretrato. Participou no concurso de Carnaval com a melhor máscara e ganhou. L esteve uma hora e meia a desenhar a sua figura mascarada em pormenor, exibindo posteriormente pela escola o seu desenho e dizendo a todos os colegas e auxiliares que encontrava pelo recreio que tinha sido vencedor.

Ao longo do ano o seu desempenho escolar ia melhorando. Mostrava grande motivação para aprender e mostrar que era capaz. O aluno L era um aluno do segundo ano, porém estava na sala a trabalhar conteúdos do primeiro. Como a sua evolução foi tão boa, no terceiro período a professora começou a trabalhar conteúdos do 2º ano com ele. Ainda apresenta alguma pronúncia e na escrita dá erros ortográficos, mas nada que o impedisse de passar ao 2º ano e validar a sua matrícula.

2.4.8.2 Como se relaciona com os colegas.

Nos primeiros dias de escola, o aluno L brincava sozinho, circulava pelo recreio gesticulando e inventando poses artísticas. L passava pelos colegas durante o recreio, mas era incapaz de se intrometer. Limitava-se a observar o que os outros faziam. Um dia o colega com quem partilhava a mesa na sala de aula trouxe um conjunto de cartas do “Pokémon” e o aluno L viu que eram iguais às suas. A partir desse dia os seus recreios já não eram passados sozinho. Tinha encontrado um colega para brincar. Com o passar dos dias a sua amizade fortalecia. O recreio do aluno L, desde aquele dia, era sempre passado com o seu grande amigo de carteira. Não havia recreio em que

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os dois amigos não andassem juntos aos segredos e a jogar às cartas. Por vezes havia outras crianças que tentavam fazer parte do grupinho, mas normalmente acabam sempre por ficar os dois a brincar. As crianças, que tentavam brincar com eles, mais novos, eram alunos do primeiro ano.

Apesar de simpático e conversador, L continuou bastante conservador e reservado. Ainda hoje mantém a sua amizade com o seu colega de carteira que foi o seu primeiro amigo quando chegou à escola. Dificilmente se separam, têm sempre algo para conversar, algo para comentar e revelam grande cumplicidade e amizade.

2.4.9 Situações de dia a dia 2.4. 9.1 O recreio. O que joga.

Os primeiros dias do aluno L não foram fáceis. O facto de dominar mal o português associado ao seu cárater reservado e tímido não facilitaram no campo das amizades. Sem amigos, o aluno L passava o seu tempo fora das aulas sentado no banco do refeitório aguardando que chegasse a hora para regressar à sala. Mas nem sempre era possível permanecer naquele local. Muitas vezes era forçado ir para o exterior. Sozinho percorria o recreio e observava as outras crianças a brincar: uns à bola, outros saltavam à corda, outros corriam.

Mais tarde quando fez amizade com o seu colega de carteira, começou a ter companhia para brincar. Os seus recreios eram ocupados a jogar cartas do “Pokémon”, jogar à apanhada ou brincadeira de faz de conta acompanhadas pelos bonecos que traziam de casa.

2.4.9. 2.A hora de almoço.

Como o seu amigo não almoçava na escola, L dirigia-se todos os dias ao refeitório sozinho.13 Geralmente esperava sempre na fila, sem conversar com ninguém, até que a auxiliar do refeitório o encaminhava para uma mesa vazia, onde uma tigela de sopa aguardava por si. Enquanto comia a sopa, observava atentamente o que acontecia à sua volta. Por vezes partilhava a mesa com outros colegas, mas nem assim o fazia distrair ou atrasar a sua refeição. Quando terminava a sopa, levantava-se e ia buscar o prato

13 Os alunos do 2º e do 1º ano não têm o mesmo horário de almoço. Por isso L não almoçava juntamente com o irmão.

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principal. L não demonstrava ter preferências fosse carne ou peixe gostava de dar pequenas garfadas e mastigar calmamente. Por vezes partilhava a sua mesa com um menino da unidade de multideficiência que era ajudado por uma empregada. Mas essa situação não o perturbava. Mantinha-se atento à sua refeição e quando terminava levava o prato até à janelinha onde se encontrava outra empregada a recebê-los para lavar, pegava na fruta e dirigia-se para o recreio.

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