• Aucun résultat trouvé

O primeiro texto que analisaremos desse grupo foi publicado em setembro de 2015 e trata de uma possível colisão entre dois buracos negros em um sistema binário. A matéria foi escrita por André Jorge de Oliveira, formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e que, desde 2014 trabalha como repórter da revista Galileu. Até onde conseguimos pesquisar, não possui nenhuma especialização específica em ciências e/ou jornalismo científico, diferentemente de, por exemplo, Fábio de Castro, autor de [T2].

Ao analisarmos os locutores presentes nesse texto, encontramos os três locutores já definidos: O locutor enquanto responsável pela enunciação [L]; o locutor enquanto ser no mundo [l]; por fim, o locutor impessoal [LI]. Para caracterizar [L], temos o seguinte recorte:

122 (20) Em uma região muito distante da Terra, nas profundezas da constelação de Virgem, dois buracos negros monstruosos estão prestes a se chocar. O evento cataclísmico vai ocorrer a 3,5 bilhões de anos luz daqui, e quando digo que eles estão “prestes a se chocar”, não se engane - estou falando em termos cósmicos (OLIVEIRA, 2015)

Logo de início já percebemos que essa reportagem apresenta uma linguagem mais informal do que as anteriormente analisadas por nós do Grupo 1, graças a expressões como quando digo ou então não se engane, condizente com a proposta da revista. Logo na continuação do recorte (20), está um exemplo do segundo tipo de locutor identificado, [l]:

(21) A colisão deve acontecer só daqui a 100 mil anos. Para a escala de tempo humana, isso é uma eternidade, mas quando o papo é sobre estrelas ou buracos negros, esse período não passa de um piscar de olhos (OLIVEIRA, 2015)

A utilização da expressão piscar de olhos para caracterizar a passagem de 100 mil anos para uma estrela, em comparação com a escala de tempo humana, demonstra a presença do locutor no mundo, tentando aproximar uma escala de tempo muito fora do alcance da percepção humana.

Já para [LI], vemos o mesmo fenômeno presente nos textos anteriores – a utilização do discurso científico para tentar alcançar uma impessoalidade. Um pouco após o recorte (21), Oliveira (2015) continua:

(22) E tem mais: no momento crítico em que as duas estruturas colidirem, tamanha violência deve liberar uma grande quantidade de ondas gravitacionais, que são

deformações propagadas pelo tecido do espaço-tempo previstas pela teoria da

relatividade geral de Einstein

Assim, logo no início do texto já detectamos os três locutores. Já referente aos enunciadores, conseguimos perceber também dois enunciadores já previamente caracterizados, o primeiro [E1] apresenta visões condizentes com os mitos propostos por McComas (1998), o segundo [E2] a visão do cientista. Para representar o primeiro deles, [E1], selecionamos e analisamos o recorte a seguir:

(23) Intrigados com a constatação, Haiman e seus colegas desenvolveram um modelo teórico para explicar a variação repetitiva [do brilho de um quasar] e acabaram obtendo informações mais detalhadas sobre o quasar. [...] O mais interessante é que o modelo pode ser aplicado a outros buracos negros binários, que vêm sendo descobertos aos montes (OLIVEIRA, 2015)

123 p – Um modelo teórico foi construído para explicar uma variação repetitiva do brilho de um quasar. Esse modelo forneceu mais informações e pode ser utilizado para outros buracos negros binários.

pp – Um fato observado incentivou a criação de um modelo, que, além de fornecer informações mais detalhadas sobre o quasar, também pode ser aplicado a outros buracos negros binários.

s – Os modelos desenvolvidos podem, de alguma maneira, acessar uma determinada realidade, já que com eles conseguimos não só descrever questões que já foram observadas, mas também podemos obter novas informações e aplica-los a outros objetos.

As questões acerca de o que é realidade e se podemos acessá-la são extremamente complexas e há muito tempo trabalhadas pela filosofia. Sobre a questão mais ampla, podemos recorrer a Abbagnano (2007, p. 830), quando diz: “O problema suscitado diretamente pela noção de R[ealidade] é o da existência das coisas ou do "inundo exterior". Esse problema nasceu com Descartes, ou seja, com o princípio cartesiano de que o objeto do conhecimento humano é somente a idéia”

Porém, a respeito de modelos acessarem a realidade McComas (1998, p. 67, tradução nossa) diz que esse é um mito acerca da ciência. “Ele [o modelo] permite tanto previsões quanto explicações e, portanto, deve ser verdadeiro. Um realista diria que é verdade, enquanto um instrumentalista diria que isso não importa, desde que haja algo a ser ganho mantendo a idéia em mente”.

O recorte selecionado para caracterizar [E2] é o seguinte:

(24) O cenário é promissor para que uma colisão seja identificada ainda na

próxima década e, consequentemente, para que as elusivas ondas gravitacionais

possam, enfim, ser detectadas. “A detecção das ondas gravitacionais nos permite sondar os segredos da gravidade e testar a teoria de Einstein no ambiente mais extremo de nosso universo - buracos negros”, afirmou o principal autor do estudo, o estudante de graduação Daniel D’Orazio, também de Columbia. “Chegar lá é o santo graal de nosso campo.” (OLIVEIRA, 2015)

p – Na próxima década provavelmente as ondas gravitacionais sejam detectadas. Essa detecção nos permite sondar os segredos da gravidade e testar a teoria de Einstein. Conseguir essa detecção é o santo graal da área.

124 pp – Com a colisão identificada, as elusivas ondas podem ser detectadas. A sua detecção é algo muito ansiado pelos cientistas, já permitirá investigar mais sobre a gravidade e testar a teoria da relatividade geral.

s – Algumas descobertas são mais ansiadas pelos cientistas do que outras, dependente de seu campo de atuação, graças ao potencial de realizar novas observações ou testar teorias.

Achamos interessante a referência feita por Daniel D’Orazio à imagem do santo graal, pouco após citar a imagem de Einstein. Assim como em [T1], a imagem dele e da teoria da relatividade são evocadas de maneiras breves, uma no recorte (22) e a segunda no recorte (24). Embora não tenhamos aqui analisado profundamente o recorte (22), já que o locutor [LI] está “apenas” informando uma definição de o que são as ondas gravitacionais, no recorte (24) nós percebemos que a sua imagem é trazida dentre do enunciador cujas visões são compatíveis com a do cientista [E2].

Vamos analisar o segundo texto desse grupo, agora uma notícia específica sobre a detecção de 2016.

7.2.2 Cientistas brasileiros na equipe que encontrou as ondas gravitacionais de

Documents relatifs