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A notícia veiculada pela Folha em outubro de 2017 foi redigida por Fernando Tadeu Moraes, formado em matemática pela Unesp e mestre em filosofia pela UFSC. Entrou como trainee em 2012 e, no final do mesmo ano, se tornou repórter de ciência do jornal. Dessa forma, o autor possui um terceiro perfil quando comparamos com [T1] e [T2]. Embora possua uma formação científica, ela não é uma formação física, como era o caso de [T1], e muito menos uma formação jornalística, como no caso de [T2].

Ao analisarmos essa reportagem, nos deparamos com os três locutores, [L], [l], e [LI]. Caracterizando o primeiro dos três locutores, apresentamos o seguinte recorte:

118 (13) A observação direta dessas ondas restava como a última das grandes predições da Teoria da Relatividade Geral ainda a ser provada. O prêmio deste ano não foi exatamente uma surpresa (MORAES, 2017)

Novamente, há uma proximidade entre [L] e [l], mas há momentos em que a presença do locutor no mundo é mais evidenciada. Caracterizando [l], selecionamos o seguinte recorte:

(14) O detector utilizado, o Ligo, começou a ser concebido no início dos anos 1990 e constitui uma das maiores realizações tecnológicas da história (MORAES, 2017) Esse tipo de julgamento, sobre o LIGO ser uma das maiores realizações tecnológicas da história, só pode ser realizada por um ente no mundo, caracterizando [l]. Já para [LI], o locutor impessoal, encontramos uma situação muito parecida com [T1]: a utilização do discurso científico – recorte (15) – e histórico – recorte (16) – para tentar alcançar uma impessoalidade.

(15) As duas equipes brasileiras que integram a colaboração Ligo tem papel distintos. O trabalho de Sturani é voltado para a análise e modelagem dos sinais captados, ao passo que o de Aguiar, mais experimental, é direcionado para o desenvolvimento de melhorias instrumentais do observatório (MORAES, 2017)

(16) Entre os cientistas premiados no passado estão Max Planck (1918), por ter lançado as bases da física quântica; Albert Einstein (1921), pela descoberta do efeito fotoelétrico; Niels Bohr (1922), por suas contribuições para o entendimento da estrutura atômica e Paul Dirac e Erwin Schrödinger (1933), pelo desenvolvimento de novas versões da teoria quântica (MORAES, 2017)

Embora tente alcançar essa impessoalidade, algumas escolhas foram realizadas para a elaboração desses dois recortes, de maneira mais evidente no recorte (16). Ele está “apenas” citando nomes que efetivamente foram laureados com o prêmio Nobel de Física, mas há a escolha de quais nomes serão citados. Trataremos melhor disso quando formos tratar dos enunciadores encontrado no texto.

Contudo, achamos aqui interessante também destacar outra escolha feita pelo autor que corresponde a esse locutor [LI], encontrada no parágrafo seguinte:

(17) O físico brasileiro César Lattes (1924-2005), que teve participação decisiva em uma das descobertas científicas mais importantes do século passado: a detecção do méson pi (ou píon), partícula que mantém prótons e nêutrons unidos no núcleo dos átomos, foi indicado ao Nobel de Física sete vezes, mas nunca levou o prêmio (MORAES, 2017)

119 Achamos intrigante a menção a um físico brasileiro, fato que não ocorreu nos outros textos por nós analisados e, por isso, achamos justo comentarmos o ocorrido.

Iniciando agora a análise dos enunciadores, encontramos os três enunciadores que também estão presentes em [T1]: o primeiro [E1] apresenta visões mítica acerca da ciência, o segundo [E2] a visão do cientista e, por último, [E3] a visão do historiador. Iniciando com a análise de [E1], vamos retomar o recorte (16):

(16) Entre os cientistas premiados no passado estão Max Planck (1918), por ter lançado as bases da física quântica; Albert Einstein (1921), pela descoberta do efeito fotoelétrico; Niels Bohr (1922), por suas contribuições para o entendimento da estrutura atômica e Paul Dirac e Erwin Schrödinger (1933), pelo desenvolvimento de novas versões da teoria quântica (MORAES, 2017)

p – Diversos cientistas foram laureados com o prêmio Nobel, devido a diversas descobertas e contribuições para a física.

pp – A maioria dos cientistas que foram laureados com o prêmio Nobel foi devido às suas contribuições individuais para a física.

s – As contribuições dadas à física são em sua maioria contribuições individuais. O desenvolvimento científico se dá pelo trabalho de alguns poucos cientistas.

Aqui nós vemos, com a seleção de quais prêmios citar, um suposto caráter individualista ciência. Contudo, isso não é algo exclusivo desse texto. McComas (1998, p. 68, tradução nossa) já nos evidencia que

A maioria provavelmente aceitaria a premissa de que a ciência se baseia em trabalhos anteriores, mas que grandes descobertas científicas são feitas por grandes cientistas. Mesmo os prêmios Nobel reconhecem as conquistas de cientistas individuais, em vez de equipes de pesquisa. Portanto, a ciência deve ser uma busca solitária e individual Agora, caracterizando o enunciador [E2], vamos analisar o recorte (18):

(18) A capacidade do Ligo de captar as ondas gravitacionais abriu um novo mundo para a astronomia. "Ele permite observar o Universo de uma outra forma, diferente da proporcionada por ondas eletromagnéticas, neutrinos ou raios cósmicos", diz o físico Odylio Aguiar, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e que também integra a colaboração Ligo (MORAES, 2017)

p – A detecção das ondas gravitacionais abriu um novo mundo, possibilitando a observação do Universo de outras formas de ondas.

120 pp – É possível observar o Universo de outras maneiras que antes não eram possíveis graças à detecção das ondas gravitacionais, já que agora a astronomia pode observar além de ondas eletromagnéticas, neutrinos ou raios cósmicos.

s – Ainda há questões experimentais que impedem um completo desenvolvimento científico. A detecção das ondas gravitacionais possibilitou um avanço para a ciência, pois agora temos mais uma forma comprovada de observar o Universo.

É interessante compararmos a análise desse recorte com a análise feita do recorte (12), no texto [T2]. Embora ambos ressaltem a possibilidade de novas explorações e descobertas acerca do Universo, as maneira como são colocadas são bastante distintas. Enquanto no recorte (12) há um imediatismo acerca da aceitação da detecção, o recorte (18) não apresenta esse caráter, ressaltando o avanço científico que essa detecção pode resultar.

Nesse texto, a imagem do Einstein aparece principalmente quando o enunciador é [E3], como no seguinte recorte:

(19) Previstas pelo físico Albert Einstein (1879-1955) há um século, essas ondas são perturbações no tecido que os físicos denominam espaço-tempo e se propagam na velocidade da luz. [...] A observação direta dessas ondas restava como a última das grandes predições da Teoria da Relatividade Geral ainda a ser provada (MORAES, 2017)

p – A previsão feita a um século por Einstein acerca das perturbações no espaço-tempo foram observadas de forma direta, confirmando a última das grandes predições de sua teoria.

pp – Há um século se busca por uma detecção direta das ondas gravitacionais, previstas por Einstein na teoria da relatividade geral, que são perturbações no espaço-tempo.

s – Detecções diretas das previsões de Einstein ainda eram buscadas mesmo um século após da predição. Todas as outras grades predições já haviam sido confirmadas e as ondas gravitacionais eram o que faltava ser provada dentro de sua teoria.

Vemos que, diferentemente dos dois textos anteriores, em [T3] a imagem de Einstein é utilizada principalmente em [E3]. Enquanto em [T1] ele é evocado principalmente em uma mistura de [E2] e [E3] e, em [T2], sua imagem aparece relacionado a todos os locutores e aos dois enunciadores detectados, [E1] e [E2], em [T3] sua imagem está em [E3]. Percebemos, com isso, uma evolução temporal no uso de sua imagem e de sua teoria: inicialmente, em [T1], como a primeira notícia da suposta detecção de 2014 estava mais relacionada a ondas primordiais do

121 Big Bang e à teoria inflacionária, seu nome não era tão utilizado; posteriormente, com a detecção de 2016, sua imagem foi evocada constantemente. Teorizamos que isso seja um efeito de dois fatores: o primeiro, o público-alvo dos textos pertencentes a esse grupo; o segundo, a urgência de dar credibilidade à notícia da detecção das ondas gravitacionais. Contudo, após o estabelecimento da importância de tal feito, não foi mais necessário evocar com tanta frequência a sua imagem, resultando na análise feita de [T3].

Precisamos agora analisar os textos dos outros grupos para constatarmos – ou não – essa nossa teoria, a partir de uma mudança de público-alvo com a revista Galileu.

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