1.6 Pseudoholomorphic curves and dynamics
1.6.4 Reeb vector fields on manifolds with boundary
Há muito que se sentia em Braga a necessidade de se construir um novo teatro, pois o de S. Geraldo, construído em 1855-60, já não era suficiente para a elite de Braga. Na falta de um bom local, a construção do novo teatro foi sempre adiada até à extinção do convento dos Remédios, que, com o seu
219 MADAHIL, António da Rocha – A propósito dos livros do Arquitecto Moura Coutinho, Prefácio In Catálogo da Valiosíssima e Magnífica
Biblioteca reunida pelo distinto Arquitecto de Braga João de Moura Coutinho. 1º vol. Lisboa: Arnaldo Henriques de Oliveira, Livreiro
Antiquário, 1955.
220 Os dois trabalhos que consideramos mais importantes, e que serviram de base para o estudo desta tipologia, fazendo a devida vénia aos seus autores, são: CARDOSO, António – O arquitecto José Marques da Silva e a arquitectura no Norte do País na primeira metade do século XX. Porto: FAUP Publicações, 1997 e CARNEIRO, Luís Soares – Teatros Portugueses de Raiz Italiana. 2 vols. Dissertação de Doutoramento em Arquitectura, apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 2002.
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casarão labyrinthico e respectiva cerca, occupava uma considerável área do coração da cidade.221
E com a construção de um novo teatro em Braga, o velho S. Geraldo tinha o seu destino traçado, quer porque não conseguia rivalizar com as instalações do novo teatro, quer porque a sociedade da Braga não conseguia sustentar dois teatros em simultâneo, competindo entre si.222
Para a criação do Teatro Circo foi constituída provisoriamente uma Sociedade Anónima, cuja
iniciativa ficou a dever-se a três ilustres bracarenses de então: o Dr. Artur José Soares, advogado, Cândido Martins, industrial de nacionalidade espanhola e José António Veloso, director do então
Banco do Minho.223 Ao lado dos fundadores, cinquenta accionistas assinam a escritura a 16 de
Dezembro de 1907, aprovada e registada no dia seguinte, e com estatutos criados a 27 do mesmo mês, para realizar capital por acções.224
Os terrenos do extinto convento foram colocados em hasta pública a 30 de Dezembro de 1907,
tendo a Sociedade Anonyma do Theatro Circo de Braga arrematado o lote nº 5, pela quantia de
3.000.000 reis com a superfície de 2.000m2.225 Uns dias antes, a 9 de Dezembro de 1907, numa acta da
Câmara, e divulgado na imprensa da época, um requerimento da Sociedade Anonyma faz um pedido “curioso” de registo do terreno para obrigatoriamente se construir um teatro:
Requerimentos: de José António Velloso e Cândido Maria Martins na qualidade de representantes d‟uma sociedade anonyma que se propõe construir um Theatro Circo pedindo na arrematação dos terrenos do extincto convento dos Remédios seja escolhido um lote de cerca de
2.00m2 e que a adjudicação de tal superfície se faça sem obrigação de se tanto quizer ser ali edificado
um Theatro Circo – deliberou tão somente organizar um lote com a área da cerca de dous mil metros
quadrados.226
O presidente227 atendeu o pedido, justificando que se tratava de um importante melhoramento
para a cidade. Quer isto dizer que a Sociedade requeria que não houvesse concorrentes à licitação da
parcela que lhe interessava. Pois quem mais licitaria com a obrigação de construir um teatro? –
Obrigado, Sr. Presidente!228
O extinto convento dos Remédios, fundado no século XVI, foi demolido, não sem polémicas,
221 In A Architectura Portugueza – Theatro-Circo de Braga, Ano IV, nº 5, Maio de 1911, p. 17 e MONTEIRO, Manuel – Dispersos. Braga: ASPA, 1980, p. 201.
222
A sua demolição aconteceu em 1920, após longas discussões entre ao accionistas e Direcção da Sociedade do Teatro de S. Geraldo, da qual faziam parte um elevado número de accionistas também do Teatro Circo, como é o caso do Dr. Artur José Soares e o próprio Moura Coutinho, com interesses óbvios em fazer prevalecer o Teatro Circo. No local do Teatro de S. Geraldo foi construída a delegação de Braga do Banco de Portugal, obra também de Moura Coutinho, que abordaremos posteriormente.
223 MACEDO, Ana M. C. – Teatro Circo: oito décadas de um projecto colectivo na cidade de Braga. Braga: Mínia, 3ª Série, Ano III, 1995, p. 114 224 Vd. Estatutos do Theatro Circo de Braga. Braga: Typographia de “A Opinião”, 1909; Correio do Minho, 17.12.1907 e a sua alteração Vd. Sociedade do Teatro Circo de Braga – Estatutos. Braga: Oficinas Gráficas Augusto Costa & Cª Ldª, 1943. O seu capital social era de 35 contos, divididos em 700 acções de 50$000 réis, aumentado depois com mais 300 acções e capital social de 50 contos.
225 AMB - Livro de Actas, de 1906-1909, Sessão de 30.12.1907, fl. 170v. 226 AMB - Livro de Actas, de 1906-1909, Sessão de 9.12.1907, fl. 162v. 227
Presidente da CMB - Bacharel Domingos José Soares, irmão mais velho do Dr. Arthur José Soares, accionista e Director do Teatro-Circo. 228 CARNEIRO, Luís Soares – O. c., p.649.
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entre 1907 e 1911.229 O intuito desta demolição parece óbvio, pois o recinto foi aproveitado para a
abertura de uma nova avenida (Av. Conselheiro João Franco, de seguida Av. Marechal Gomes da Costa e depois Av. da Liberdade), em substituição da rua das Águas, ligando o centro da cidade ao bairro de S. João da Ponte, junto ao rio Este.230 Logo, numa quarta-feira, dia 20 de Novembro [1907], deu a
Câmara princípio de demolição do mirante da Rua das Águas, depois de aprovado o projecto da nova Avenida. A imprensa conservadora censurou o espírito demolidor do município, (…): “Construir um Teatro na cerca dum convento, e destruir a igreja para uma travessa dispensável, é cousa que ofende a
nossa consciência.”231
A possibilidade de um Concurso para o projecto de um teatro-circo não está posta de lado, embora poucas referências a essa situação tenham sido feitas. Na comemoração dos quarentas anos do teatro diz-se que em 1907 abriu-se concurso para o projecto do edifício. Escolheu-se o de João de
Moura Coutinho de Almeida de Eça.232 O arquitecto José Marques da Silva terá entregue à sociedade
alguns desenhos para um teatro233, por iniciativa própria ou no «pressuposto do concurso». – Porém o
trabalho estaria já entregue ao Arqº Moura Coutinho.234
Em Assembleia dos Accionistas do Teatro Circo, em Abril de 1909, o projecto de Moura Coutinho foi aprovado, sendo incumbido de organizar o projecto. A entrega do projecto directamente a
João de Moura Coutinho não é de surpreender pois era um homem ligado a Braga (era da Direcção das Obras Públicas do Distrito), e devia ter boas relações locais como o demonstra a sua posterior ligação à gestão e administração do Teatro-Circo. De resto, confrontando-se o seu projecto com os desenhos da proposta de Marques da Silva, admitimos facilmente que terá sido por mérito que o
trabalho lhe terá sido confiado.235
Possivelmente para uma aprovação mais segura, a Direcção da Sociedade consultou Ventura Terra e José de Figueiredo, para darem os seus pareceres sobre o projecto. Numa ida a Lisboa para apresentar a solução, MC e um representante da Direcção, Cândido Maria Martins, recebem, por escrito, uma declaração de Ventura Terra, não se sabendo sobre o que terá dito José de Figueiredo. Manuel Monteiro, no seu artigo sobre o Teatro-Circo para A Arquitectura Portuguesa, apresenta-nos o que disse Ventura Terra e sublinha a escolha do projecto de Moura Coutinho: artista, que se vinha
229 Tendo muitos dos seus materiais sido vendidos em leilão público; alguns foram parar a várias igrejas e capelas. In OLIVEIRA, Eduardo Pires de – Arte Religiosa e Artista em Braga e sua Região (1870-1920). Braga: Ed. APPACDM Distrital de Braga, 1999, p. 103.
230 Também possibilitou a abertura da Rua Pereira Caldas, actual Dr. Gonçalo Sampaio, dando o Teatro Circo a sua fachada lateral para esta rua. 231 In FEIO, Alberto – Coisas memoráveis de Braga e outros textos. Braga: BPB-UM, 1984, pp. 33-34.
232 In Os Quarenta Anos da Vida do Teatro Circo de Braga. Braga: Conselho de Administração do Teatro Circo, 1955, p.4.
233 Estes desenhos, Plantas, Cortes e Alçados, desenhados a nível «Estudo Prévio» à escala 1:200, coloridos, existem no Instituto Arquitecto José Marques da Silva, e estiveram em exposição, em 2006. Vd. MESQUITA, Mário J. (coord.) – Marques da Silva/O Aluno, O Professor, O
Arquitecto. Cat. Porto: IAJMS e FAUP, 2006, pp. 82-83.
234
CARNEIRO, Luís Soares – O. c., p.649. 235 CARNEIRO, Luís Soares – O. c., p.649.
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affirmando em successivos trabalhos, tanto na cidade como no districto de Braga, conquistando honestamente um nome, exhibiu a sua concepção, que desde logo mereceu o applauso dos competentes, Ventura Terra na vanguarda, asseverando-a “como uma admirável obra architectónica
que, devidamente executada, produziria um dos theatros mais bellos e mais confortáveis do paiz.”236
Em Setembro e Dezembro de 1909, a Direcção do Teatro Circo apresenta à Câmara o projecto da fachada para apreciação e licença de construção, respectivamente, registado em actas camarárias237,
mas sem indicação se a autorização foi ou não concedida. A falta de outra documentação, e especificamente os desenhos, dificulta a tarefa de comprovar quando terá sido o arranque da obra.
Em meados de 1911 a obra já estaria bastante avançada, quer pelo que se percebe do artigo de Manuel Monteiro publicado na revista A Arquitectura Portuguesa, pois a cúpula em ferro estava já quase montada; quer pelo requerimento à Câmara da Direcção do Theatro Circo, arrematante dos
materiais do extincto convento dos Remédios, pedindo para levantar o depósito que fez, como caução, ao cumprimento do contracto, de oito obrigações externas, terceira série do empréstimo portuguez, substituindo-o pelo edifício do Theatro, já em construção adeantada, e pela responsabilidade pessoal de cada um dos membros da direcção, visto também restar muitíssimo pouco a demolir para o
compromisso creado.238
As obras prolongaram-se até 1914, faltando os acabamentos e decorações, que ficaram a cargo de Viriato Silva, na modelação da sala de espectáculos; dos pintores Benvindo Seia, na pintura do tecto da sala de espectáculos, e Domingos Costa, que pintou o pano de boca de cena; dos escultores Zeferino Couto e Narciso Costa, na realização das máscaras da fachada principal, e os cenários realizados pelo cenógrafo Mergulhão, terminando-se a obra em 1915, com inauguração no dia 21 de Abril.
O projecto de Moura Coutinho, de que temos conhecimento em 1ª mão pelos desenhos publicados no artigo de Manuel Monteiro, quando o teatro estava ainda em construção, apresenta-nos uma solução de teatro-circo, de palco à italiana e de inspiração Renascentista. De planta rectangular com dois pisos, sobrepujados por cúpula em ferro, a cobrir a sala de espectáculos, e um corpo vertical saliente, no limite oeste do edifício, correspondente à teia e caixa do palco.
O terreno escolhido para a construção do teatro media 42 metros de largura por 51,50 metros de profundidade, no gaveto da então nova Av. da Liberdade com uma rua que liga ao Lg. do Hospital, a actual rua Gonçalo Sampaio. Esta proximidade a duas ruas que estavam ainda em construção, num local vazio, permitia ao teatro definir a própria envolvente, sendo sua a escolha da relação entre a
grande sala e as vias com que se relacionava, tal como a forma e a expressão com que se mostrava à
236 In A Architectura Portugueza - Theatro-Circo de Braga, Ano V, nº 5, Maio de 1911, p. 17. 237
AMB – Livro de Actas de 1909-1911, Sessões camarárias de 6.9.1909, fl.34 e de 6.12.1909, fl. 51v. 238 AMB – Livro de Actas de 1909-1911, Sessões camarárias de 29.6.1910, fl. 118v.
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cidade.239 Por razões económicas, de facilidade de construção e sobretudo por uma visão urbana, a
escolha recai sobre uma estratégia de fragmentação, valorizando-se essencialmente a fachada principal, na descrença que o crescimento de Braga justificasse a nobilitação da rua lateral. No entanto, com o novo teatro em construção, iniciar-se-iam uma série de novas edificações na Av. da Liberdade, principalmente do lado do teatro para norte, na qual Moura Coutinho projectou vários outros edifícios de arquitectura civil eclética, que mais tarde abordaremos.
O alçado principal do Teatro Circo, voltado para este e para a avenida, está composto por três corpos escalonados, de dominante vertical: o corpo central, saliente em relação aos corpos laterais, em granito e de volume avançado, destaca-se com as suas três portas em arco de volta perfeita, coroadas por quatro estribos que sustentam quatro meias colunas jónicas, que enquadram três janelas altas em varanda corrida. O recorte do edifício termina num entablamento em granito, com um friso onde se inscreve a legenda Theatro Circo, ladeado por duas máscaras, da Comédia à direita e da Tragédia à esquerda, e sobreposto por platibanda, coroada por urnas, que esconde as coberturas de telhados em quatro águas, não se vendo a cúpula a partir da rua.
Os corpos laterais, pétreos no 1º registo, são mais sóbrios, de panos lisos, pintados de rosa, com duas janelas em cada piso, sendo as do rés-do-chão rematadas por arcos de volta perfeita e as do 1º piso rectas com fecho saliente em granito. O estylo do frontispício, a que tem de subordinar-se toda a
edificação, é um dos que no século XVIII fugazmente reinou com a pallida revivescência e basilar
adaptação dos elementos clássicos, jamais de todo esquecidos após a Renascença.240
O alçado sul, voltado para a rua Gonçalo Sampaio, anterior Pereira Caldas, tem um pequeno desnível em relação ao eixo da planta, justificada por Manuel Monteiro, Pela necessidade perfeitamente
moderna de conglobar na mesma construcção as installações e dependências accessorias do Theatro,
onde tem de decorrer a vida complementar dos entreactos.241 Para integrar esse desvio no alçado
principal, MC acrescentou na esquina do edifício um corpo em curva, ao nível do r/c, com varanda e balaustrada. Dessa forma permite uma continuidade no alçado lateral e não desequilibra a fachada principal, permitindo uma composição simétrica com o portão, à direita da fachada, que por imposições legais de passagem ao ar livre tinha de existir. Este jogo de volumes permite contraste de planos e perfis, tão ao gosto de MC, conhecedor do valor dos effeitos.242 A fachada é ritmada por uma série de
vãos, de arco de volta perfeita no r/c e rectos no 1º piso, entablamento e cornija saliente.
Umas palavras breves para o alçado norte, uma vez que não são conhecidos os desenhos e
239 CARNEIRO, Luís Soares – O. c., p.650.
240 In A Architectura Portugueza - Theatro-Circo de Braga, Ano V, nº 5, Maio de 1911, p. 18. 241
In A Architectura Portugueza - Theatro-Circo de Braga, Ano V, nº 5, Maio de 1911, p. 18. 242 In A Architectura Portugueza - Theatro-Circo de Braga, Ano V, nº 5, Maio de 1911, p. 18.
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estando actualmente a fachada “escondida” pelas construções adjacentes, torna difícil a sua leitura. Analisando as plantas, é curioso observar que MC terá votado alguma preocupação com este alçado, pese embora não estivesse visível ao público, a não ser em caso de sinistro que se usava a passagem ao ar livre. As razões, para além das questões de segurança, prendem-se com a preocupação de MC em iluminar e ventilar as dependências anexas e de circulação à sala de espectáculos, e ao mesmo tempo, rematando com alguma qualidade mesmo aquilo que não se vê. Para além da Varanda de Socorro para refúgio no 2º pavimento, preocupação ainda evidente com a segurança, o nº de vãos é considerável, a ver pela única fotografia que conhecemos desse alçado, ainda com o teatro em construção.243
Analisando as plantas, que Manuel Monteiro divulgou na imprensa da época, na entrada nobre deparámo-nos com um grande Átrio, ladeado pelo Café, à esquerda, e o Escritório e Bilheteiras (voltadas para o exterior), à direita, seguido por quatro colunas em mármore (Peristilo), a porta central e os corredores laterais que dão acesso à Sala de Espectáculos. Do Peristilo partem duas escadas laterais que nos levam ao Avant-Foyer, ao Foyer-Salão para Festas e ao Fumoir, do 1º piso. Do Avant-Foyer acedia-se ao corredor da 1ª Ordem de Camarotes. Para a 2ª Ordem, que aproveitava o duplo pé direito, acedia-se por uma escada em L que ficava entre as escadas principais e o corredor da 1ª Ordem.
Na entrada secundária, as portas centrais permitiam o acesso do público ao Átrio, e as entradas laterais ao Vestiário, WC, Tabacaria, Copa, Bufete e Café, à direita, e ainda o acesso ao Foyer dos artistas e aos Camarins, à esquerda. No andar superior, os três vãos centrais, dão para o Pequeno Foyer, e as adjacentes para a Direcção e Camarins, à esquerda, e aposentos para a Toilette das Senhoras e outro Bufete, à direita. Destaque à grande janela no 1º piso que dá para os Camarins, permitindo abundante iluminação.
A vasta Sala de Espectáculos, com 21 metros de diâmetro, é composta pela plateia e bancadas
envolventes da geral, subjacente a duas ordens de camarotes, que assentam em vigamentos de ferro suspensos em altas columnas metallicas, estructuraes, e nas circundantes paredes de alvenaria, é coberta por uma calota, metallica também, com os tentáculos radiantes das asnas articuladas ao cubo nodal e poisando oppostamente na linha peripherica, onde se levantam em semi-circulo as lucarnas de
illuminantes.244 As lucarnas semi-circulares que serviam para a entrada de luz na sala durante o dia eram
uma novidade em Portugal, mas já se faziam em França para a cobertura das salas de espectáculo com estruturas em ferro.
Segundo o projecto do arquitecto, a cúpula e toda a estrutura da sala deveriam ter sido em betão, mas por dificuldades administrativas substituiu-se por ferro, sem grandes alterações ao projecto, que
243 Fotografia que mostra a construção do teatro e a colocação da cúpula em ferro divulgada In A Architectura Portugueza - Theatro-Circo de Braga, Ano V, nº 5, Maio de 1911, p. 20.
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repetia na província o modelo do Coliseu lisboeta.245 Moura Coutinho trabalhou em conjunto com os
engenheiros de uma empresa especializada, chegando à solução definitiva ao fim de seis meses de estudos, apresentando uma solução que lembra a cobertura em tenda, típica dos circos. A cúpula
airosamente lançada na alternância das suas [doze] nervuras racionalmente adaptadas aos pontos de resistência conjugada com a sua pressão é tão habilmente distribuída e definida com tanta justeza e graça, que constitui sem dúvida o trabalho mais bello e importante que no género se tem feito em Portugal, honrando a sua indústria, e que documenta não só a valia do architecto, mas ainda a do
illustre engenheiro da Empreza Industrial Portugueza, o Sr. Vicente Ferreira.246
Os materiais utilizados foram o granito, na estrutura e nos elementos decorativos; estuque pintado sobre as paredes rebocadas; mármore nas colunas do átrio e nas escadas e pavimentos; madeira nas portas e caixilharia das janelas; ferro nas grades das varandas, dos balcões e frisas e nas colunas do auditório; bronze na inscrição do friso na fachada principal; e telha marselhesa na cobertura exterior.
O Teatro Circo podia funcionar quer como Circo, com pista central redonda, quer como
Teatro, dispondo cadeiras voltadas para o palco, na Plateia.247
O Teatro tinha capacidade para aproximadamente 1.500 pessoas, distribuídas pelos Camarotes com 276, nas Galerias com 200, 450 na Plateia e cerca de 530 na Bancada Geral. Por questões de segurança, foram concebidas várias saídas no rés-do-chão, para sul, norte e leste, para dar escoamento eficaz em caso de sinistro. As escadarias de três lanços eram suficientemente largas para permitir uma evacuação rápida e o palco foi delineado de forma independente, com saída para as traseiras e que assegurava luz e ventilação.
O palco, não sendo muito grande, era dos maiores no país248, medindo 11m de largura de boca,
11m de fundo e 17,5m de largo, além de altura suficiente para recolher cenários sem necessidade de os enrolar. Também o subpalco era amplo, com dois níveis, coisa rara entre nós e, na altura, dizia-se,
muito bem equipado.249
A norte da caixa do palco, no r/c, com acesso à passagem para a avenida, ficavam as Cavalariças, com dez baias, selaria, arrecadação para o material e pátio de ventilação. No piso superior o depósito dos cenários e a casa do guarda. Estas zonas laterais ao palco tinham acesso directo para a Sala de Espectáculos, revelando-se fundamental quando funcionava como Circo.
A organização e a distribuição dos espaços, que davam apoio ao palco, revelam um Moura Coutinho não apenas interessado pelo teatro em geral, mas conhecedor dos interesses e necessidades de
245 In FERNANDES, José Manuel – Arquitectura modernista em Portugal. Lisboa: Gradiva – Publicações Ldª, 1993, p. 16. 246 In A Architectura Portugueza - Theatro-Circo de Braga, Ano V, nº 5, Maio de 1911, p. 19.
247 CARNEIRO, Luís Soares – O. c., p.652. 248
Superado apenas pelos teatros S. Carlos e S. Luiz, e com as mesmas dimensões do Politeama. 249 CARNEIRO, Luís Soares – O. c., p.652.
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artistas e técnicos em particular, pois a largueza dos espaços, incluindo o pé-direito dos Camarins, a abundante iluminação, a monumentalidade e sofisticação, aliadas ao luxo do mobiliário, faziam deste teatro um chamariz para atrair as companhias de Lisboa, Porto e mesmo estrangeiras, pois eram raros os teatros com estas condições, resultando em lucros para a Sociedade do Teatro Circo. …perfeitamente
compreensível em quem seria, a partir de 1918, Gerente, Director, Empresário e homem providencial