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Reconstruction tridimensionnelle de l’interface métal/oxyde

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Chapitre IV. Étude de l’interface métal/oxyde

I. Interface métal/oxyde à 1060°C

I.3.2. Reconstruction tridimensionnelle de l’interface métal/oxyde

Foram três meses – abril, maio e junho de 2010 – revisitando e transformando criativamente alguns dos exercícios experimentados em 2009 durante nosso laboratório de prática em torno da metodologia de Gelewski, totalizando agora mais 48 horas de atividades79. Aqui, pudemos experimentar as formas retilíneas e curvas e todas as suas derivações em diferentes espaços cênicos – na natureza e em palco de teatro – bem como explorar os espaços internos e externos abertos para nós pelo dançarino-professor para compor cenas e partituras de movimentos.

Como já havíamos usado o método de Estruturas Sonoras 1 e 2 para iniciar ou para finalizar os encontros de nosso laboratório prático, buscando, do primeiro método, a concentração e o esvaziamento que antecedem à criação, e do segundo, incorporar os exercícios de uma forma mais concentrada e contemplativa, partimos justamente dessa proposta para iniciar nosso processo de criação... Ouvindo o som e percebendo os movimentos internamente, para logo a seguir experimentar mover o corpo a partir desses sons-silêncios-músicas-palavras-versos e gestos que iam surgindo espontaneamente. Foi neste jogo entre escuta e execução, espontaneidade e estruturação, criação coletiva e direção compartilhada que conduzimos o processo criativo para a composição da obra Três momentos

de contemplação, cujos princípios de movimentação e composição aparecem delineados a

seguir.

A partir desse esvaziamento contemplativo-criativo e embaladas inicialmente pelo silêncio e logo após pelo som de uma flauta meditativa de bambu, eu e Patrícia (ambas, além de dançarinas, praticantes de yoga e meditação), passamos a “coreografar livremente”, ainda

79 O laboratório de criação foi acompanhado por Sandra Meyer e realizado no Centro de Artes da UDESC, em Florianópolis.

que conscientes de estarmos resgatando o trabalho de formas e espaço do laboratório de prática. Aqui, buscamos priorizar menos o paralelismo das formas e mais a escuta do fluxo interno gerador dos movimentos que acabaram se sincronizando com a repetição e, inversamente ao que imaginávamos, compondo uma sequência de movimentos que gradativamente foi se estruturando em torno de algumas figuras temáticas, as quais fui anotando e devolvendo ao longo do processo criativo. Uma vez que nós duas tomamos consciência de alguns desses desenhos revelados pelos próprios movimentos e de algumas temáticas que se enunciavam dessa dança meditativa, selecionamos e fixamos algumas partituras de movimentos que foram posteriormente agrupadas em cenas e nomeadas, por exemplo: Colhendo flores e contemplando a Lua; Contemplando a si mesmo e ao cosmos,

Aproximação e afastamento, Interiorização e expansão, Individuação e reconhecimento,

dentre outras. Fui organizando as cenas e experimentando outras músicas ao longo do processo que, neste caso, eram utilizadas somente após a configuração das partituras corporais. Foi assim que surgiu o primeiro quadro do processo criativo que, de alguma forma, incluiu todas essas proposições e foi denominado Contemplando a Lua – conforme detalho no próximo subcapítulo.

O processo criativo resgatou, ainda, nosso experimento com o material Ver Ouvir

Movimentar-se: dois métodos e reflexões referentes à improvisação na dança (GELEWSKI,

1973). Nesta parte, improvisamos em três – eu, Diana e Patrícia. Aqui, partindo do primeiro método de improvisação estruturada de Gelewski, iniciamos os exercícios de composição a partir de improvisações livres sobre a escuta de uma determinada música pré-selecionada, e gradativamente fui sugerindo uma pré-estruturação dos movimentos a partir do conhecimento tanto formal quanto histórico e sensorial da música escolhida, para só depois criarmos e situarmos as partituras corporais em sincronia com o corpo sonoro. Numa segunda cena, eu e Patrícia improvisamos a partir da possibilidade de deixar a palavra-poesia brotar de nossos corpos ou, inversamente, partindo de um corpo-poéticofalado ou musical para dar o start da movimentação espontânea. É importante lembrar que Gelewski também usava a palavra falada, declamada ou, ainda, enunciava algum trecho de poemas místicos ou de escrituras sagradas hindus como os Vedas, ou mesmo trechos de Sri Aurobindo e d‟A Mãe para tematizar seus solos espontâneos. Essa inter-relação entre música e movimento, e entre palavra e movimento, foi a matriz geradora de nosso segundo quadro – uma homenagem simbólica à minha amiga, pianista e compositora Maria Ignez Mello, que faleceu enquanto eu realizava esta pesquisa e cujas composições gravadas no CD Tempo composto foram utilizadas tanto para a experimentação do método de improvisação de Gelewski no laboratório

de prática como também aqui no laboratório de criação. Neste caso, escolhi a faixa Valsa

alento como corpo sonoro de nossa improvisação em três, mergulhando as criadoras na

temática da saudade – tanto a minha em torno da perda da amiga, com quem compartilhei tantas músicas e danças, quanto as saudades sentidas pelas outras duas dançarinas-criadoras argentinas. No caso de Diana Gilardenghi, que, ao ouvir a valsa, se lembrava da mãe tocando piano, enquanto ela própria compunha suas primeiras coreografias. Já Patrícia tocava a memória tanto próxima (afetivamente) quanto distante (geograficamente) de seu país de origem. Por fim, alguns trechos do CD Poemas místicos do Oriente foram experimentados, e escolhi apenas um para uma composição solo envolvendo som-palavra-movimento. Incluí, ainda, um trecho do poema Deserto, do antropólogo e sacerdote cristão Jean-Yves Leloup, para abrir, costurar e nomear este segundo quadro: Contemplando o deserto.

No terceiro e último quadro da composição cênica, quis partir das referências artísticas-biográficas e corporais de cada dançarina, promovendo um diálogo destas com a dança espontânea de Rolf Gelewski. A sugestão inicial era que cada uma performatizasse um pequeno solo para trazer à cena as linguagens de dança contemporânea que mais marcaram a trajetória artística de cada performer. A partir da criação desses solos, buscaríamos um diálogo com a dança espontânea. Com o objetivo de promover uma interação entre as três dançarinas e destas com Rolf Gelewski, escolhi a imagem de uma mandala como tema central deste quadro – por simbolizar o encontro do dançarino com Mira Alfassa, A Mãe, que provocou o desenvolvimento da poética espontânea na trajetória dele. Foi a partir dessa proposta que Patrícia Santos compôs um pequeno solo de Butô, enquanto Diana Gilardenghi criou uma dança com desenhos nítidos e precisos revelando, entre outras, a influência da dança moderna norte-americana em sua trajetória, especialmente do método Martha Graham. E eu, treinada há mais de 20 anos nas técnicas corporais orientais (sobretudo tai chi e yoga) e na dança moderna/contemporânea, e mergulhada completamente na poética da espontaneidade, performatizei um solo, precedido da voz de Rolf, em torno da mandala escolhida, com músicas selecionadas a partir de CDs dos Encontros da Casa Sri Aurobindo. No final desta dança, sugeri a entrada das outras duas performers para um diálogo espontâneo presencial, marcando o momento exato de suas entradas em trechos específicos da música. Só num último experimento, dialoguei com as imagens de solos do próprio Gelewski projetadas sobre tela, buscando compor com ele, mimetizando ou transformando seus movimentos no exato momento de execução desta “nova dança”. Chamei posteriormente este quadro de

Contemplando o alvorecer. Agora, assistindo às cenas já filmadas e refletindo mais

espontaneidade na dança de Gelewski, considero renomear o quadro para Contemplando a

aurora. Faço isto em alusão a Sri Aurobindo – que inspirou o nome da cidade de Auroville (a

cidade da Aurora), construída pela Mãe como um espaço laboratório de vivência do yoga integral – cuja arte, filosofia e princípios foram incorporados por Gelewski para a criação- configuração de sua poética espontânea. Recriamos, assim, simbolicamente, o ambiente que permitiu a transfiguração desse yoga em linguagem artística e em dança.

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