Eu entrei na universidade em 1991, eu já tinha toda uma caminhada política. Eu entrei acho que tinha uns vinte e três anos, era um pouquinho acima da média das pessoas que entravam com dezoito, dezenove anos. Eu já tinha toda uma caminhada de organização, principalmente em comunidades mais pobres. Fui educadora social de meninos e meninas de rua, atuei um pouco na pastoral do menor que era bem politizada na década de 1980. Eu vim pra Ciências Sociais querendo instrumentalizar minha prática. Como fui da primeira turma de Ciências Sociais sei da importância para os cursos de graduação ter seus Centros Acadêmicos, a questão de organizar um Centrinho era vital.
No sentido de organização como um todo, o curso de Ciências Sociais não tinha um Centro Acadêmico e era a primeira turma, eu tenho essa veia meio de querer organizar, participar, porque eu via na UFSCar as coisas são muito politizadas, as coisas são muito discutidas, muito debatidas.
Logo no primeiro ano teve uma greve de cem dias, os professores foram nas classes explicar o motivo da greve. Os estudantes não tinham uma relação direta com a
greve dos professores, mas se reuniram e fizeram uma assembleia, toda essa movimentação impelia pra gente continuar, me fascinava um pouco no sentido de estar participando de alguma coisa.
Bem, daí tem duas coisas, era uma época, a década de 1991, estávamos no segundo ano do governo Collor e 1992, agora não me lembro da data, foi o impeachment. Tinha duas coisas, participação da vida política da universidade como um todo e a participação mais específica que era o Centro Acadêmico de Ciências Sociais. No final do ano, depois de uma greve de cem dias, redução da turma, mas mesmo assim conseguimos organizar o Centrinho que era vital porque assim que abrem os cursos nem sempre a universidade dá toda a estrutura, não tínhamos laboratório de informática, livros, então precisávamos nos organizar.
Precisávamos também ter um espaço para o Centrinho e nos organizamos e, por conta, disso no final do ano conseguimos constituir o CAJAR, Centro Acadêmico José Albertino Rodrigues, que era o professor e cofundador do curso de Ciências Sociais, mas que havia falecido num acidente na rodovia quando estava vindo dar aula pra gente. Ele foi fundador do DIEESE, foi presidente do SBPC, era um cara super atuante e decidimos que esse seria o nome do Centrinho.
Quando chegou a segunda turma sofremos um processo de impeachment (risos), agora olhando foi muito trágico, nos organizamos no final do ano, mas foi um ano muito conturbado e chegou a segunda turma, estabelecemos um prazo de seis meses até todo mundo se ambientar pra fazer as eleições e a outra turma chegou achando que a gente não tinha legitimidade.
Havia uma diferença entre a minha turma e a segunda turma, na minha turma não existiam pessoas de lideranças políticas, filiadas a partidos políticos, eu era simpatizante do PT, participava das coisas do PT, mas não era militante do PT. Na outra turma tinha gente do PSTU, PCdo B, tinha gente da Convergência Socialista, eu acho que nessa época a Convergência Socialista ainda estava dentro do PT e eram caras, assim, extremamente manjados, malandros no sentido, assim, não de malandragem, mas no sentido de articular e de colocar o embate, os argumentos. Só sei que no final foi muito questionada nossa presença na diretoria, nós éramos vinte alunos da primeira turma e quarenta da outra e vamos colocar em votação, quem perdeu? (risos). Daí o que aconteceu depois disso a gente sofreu... Impeachment. Não sei se foi assim porque não tinha nada contra a gente.
Foi uma derrubada do poder, ainda hoje eu brinco com algumas pessoas que agora são amigas, “Jonas, vocês deram o golpe”, “vocês são golpistas” (risos) porque não tinha justificativa, mas eles queriam, eles queriam organizar.
Os partidos sempre têm uma posição aqui na universidade de politizar um pouco e eu acho que tem sua coerência, de politizar o movimento estudantil no sentido de dar uma sigla: “ah, então esse Centrinho é do PT”, “esse centrinho é do PCO”, “quem está na diretoria do DCE é da Convergência”, “a Convergência saiu, agora é a Causa Comunista” [havia essa ação] de colocar sobre a tutela do movimento estudantil um partido e uma direção do partido, e daí vêm as bandeiras do partido e era mais ou menos isso que eu sentia, uma instrumentalização, e fomos nós depostos do poder. Tentamos nos organizar porque não tínhamos nenhuma proposta, nos articulamos, eu continuei “não vou largar o osso, vamos articular”. Articulamos uma célula, um composto de pessoas da primeira turma [e] da segunda turma, quem tinha essa visão eu não sei se “mais ingênua” da política, que também se tornariam pessoas politizadas, pessoas com opinião política fora daquela chancela do partido e daquelas pautas que já vinham prontas.
As pautas eram “fora FMI, fora...” Acho que tem que estar sintonizado, esse é um exercício político também, a gente se organizar enquanto universidade, enquanto coisas para a universidade, enquanto adquirir coisas para instrumentalizar o curso, para o curso ficar melhor, são demandas mais próximas, mas para muitos participantes do movimento estudantil são demandas menores e pra eles caiam no apolítico, no irrelevante.
A nossa proposta era seguida de um pouco da visão política de esquerda, mas era um pouco mais separada de partidos políticos, a outra proposta era politizada, com vinculação de partido político. Nos organizamos e ganhamos o Centrinho, começamos a nos organizar, reivindicar sala pra reuniões pra termos uma história do Centrinho, possibilidades de atuar aqui na universidade como também um espaço fomentador de debate, era a nossa intenção.
Nesse grupo eu fiquei acho que mais uns dois anos, depois eu saí porque entrava numa fase mais complicada a atuação nossa em relação à política maior, que era a política da universidade, mas sempre tivemos uma participação crítica das coisas, por exemplo, a situação, o movimento estudantil na época ele estava partidarizado, não sei se está agora, vou dar um exemplo só pra se ver o ambiente que a gente tinha com as bandeiras partidárias.
Começaram em 1992 as manifestações Fora Collor pra pedir o impeachment e lógico que a Universidade Federal, sempre muito politizada, um ambiente muito politizado, muito gostoso em que você está de igual para igual com os professores, fora da sala de aula você tem uma hierarquia, mas em alguns ambientes aqui você tem um embate de igual para igual, lógico que a gente dentro da nossa possibilidade de um aluno que estava chegando à universidade, descobrindo todo esse mundo de política, toda essa questão da governabilidade, das políticas de governo... Tínhamos uma participação restrita, era estimulada a participação, isso era legal. Começaram com essas questões do Fora Collor, fizemos algumas passeatas e teve um dia que foi ímpar, todo mundo saiu pra rua e marcamos de também sair às ruas de São Carlos, e foi um dia muito importante porque o Brasil inteiro saiu. E o que aconteceu? O DCE era do PCO, o caminhão de som era do sindicato que era da Convergência, eles não se entenderam. E quem vai levar a bandeira? O DCE é do PCO e nós vamos levar, o PCO que está levando os estudantes para a rua, os dirigentes do caminhão de som eram da Convergência, a Convergência tem que aparecer! No embate eles não se entenderam, na organização [tampouco], e o que aconteceu? Não teve a manifestação.
Na realidade o DCE centralizava a organização da passeata, mas, por desentendimento das próprias organizações, elas ficavam inimigas entre si, a posição política frente a passeata e reivindicar que bandeira levar, tudo isso era um empecilho para uma causa maior. A ideia central era fazer uma passeata Fora Collor, ligar o movimento com o Brasil inteiro, uma Universidade Federal como o campus de São Carlos, que era muito politizada e participou de muitos movimentos, e de repente não leva a passeata para a rua porque o carro de som é de um partido, o DCE é de outro e isso se resume em “nós não vamos fazer”.
Nós fizemos uma carta protesto, eu fiquei indignada e chamei uns amigos pra fazer uma carta protesto, mas sem representação do Centrinho, para demonstrar a indignação das pessoas com a situação... Por conta de situações menores não fizemos uma manifestação que seria geral e que seria importante pra a história, pra cidade, uma forma de participação junto com a massa que pedia o Fora Collor. Escrevemos o manifesto, tínhamos pouco dinheiro porque a máquina para tirar xerox sempre estava atrás de uma bandeira, nós, como estudantes pobres (risos), era difícil juntar dinheiro pra isso, mas levamos pra panfletar .
Outro fato importante são as lideranças. Aqui tem outro tipo de liderança que estava interessada também na vida estudantil, nas coisas que a gente podia adquirir,
essa liderança do partido achava que não era politizada, mas é uma contradição. Eu acho que esse é um espaço que você aprende a fazer política para mudar as coisas como, por exemplo, pra colocar uma rampa de acesso pra quem é cadeirante, esse é o mote, é lógico que você tem uma referência de mundo, uma referência política, mas não dá pra fazer do movimento estudantil um movimento só de ideias macros. E também tinha toda uma questão do RU, em se aumentar o preço ou fechar o restaurante por conta do governo com o Collor... Nem falo, e depois o Itamar, o Fernando Henrique... A universidade sofreu muito, teve muito corte, a gente não tinha dinheiro pra nada, não tinha bolsa de iniciação científica, não tinha nada, a gente dependia do RU [e] tinha dia que eles davam arroz com feijão e linguiça, e terminava [era] arroz, feijão e ovo. O corte das verbas era em todas as áreas e nós pensávamos “Fernando Henrique foi criado na USP e faz isso com as universidades”... Nós vivemos tempos muito difíceis na universidade.
Existiam demandas que eram próprias da vida universitária e que o movimento tinha que estar ali, porque ficava um discurso esquizofrênico: tinha um monte de aluno, tinham dois mil alunos e cem estavam presentes na assembleia. De certa maneira tem vários fatores, não é uma mão única, tem a questão da despolitização dos interesses, mas também porque não colocava na pauta, não tinha uma educação política, de convencimento... Era uma postura muito agressiva, que não tinha argumentação, uma conversa única e isso afastava muita gente no sentido de não compor. Esse é o maior exemplo do que acontecia em relação a não compor. Claro, você tinha diferenças, diferenças pequenas e não compunha para atingir um objetivo maior, no caso a manifestação. Dizia-se: “ah, não vou fazer alianças espúrias” e você via [que] a diferença era mínima. Eu lembro até de um aluno que participou da chapa do DCE e depois dos colegiados do CU, do CEPE e da CANOA, que são órgãos deliberativos aqui da universidade [e] que são compostos por professores, funcionários e alunos numa proporção. O CU hoje é o CONSUNI, então na época era o CEPE, não o CU que era o Conselho Universitário, o CEPE [é] que cuidava de questões mais pedagógicas e a CANOA, eu acho, que era dos recursos. E nesses conselhos você poderia ter a participação dos estudantes, mas os lugares não tinham seus devidos representantes, havia uma crítica principalmente por parte das lideranças do DCE que nessa época estava com a Convergência Socialista e, depois, foi pra Causa Operária, de que se não tem paridade nós não vamos participar porque os professores oprimem os alunos, engavetavam a pauta e não vão ter na pauta os nossos interesses. Era difícil pra gente,
porque como não participar de um espaço legítimo que é teu. Foram eleitos pela comunidade estudantil e não ocupavam as cadeiras de direito, nem pra informar o que estava acontecendo no âmbito de cada conselho, você não tinha essa informação ou pra levar pautas de reivindicação. O que eles diziam sobre levar as pautas no CU era uma forma de invasão no conselho.
Eu tenho por mim que a gente só politiza a partir da problematização dos fatos da nossa vida, as gerações vinham cada vez mais arredias de organizações como de partidos políticos na minha época... Da minha geração pra frente teve um momento que o movimento estudantil era muito partidarizado e as pessoas faziam questão de ser do PCdoB, ser do PC, e teve a reabertura e a geração ficou meio fluida, o partido como uma forma ruim, mas hoje também eu vejo que as pessoas são mais livres, não sei se é uma coisa que deveria ser aprofundada, quais são os limites de uma atuação mais fluida sem partido, por exemplo, e quais as consequências e as vantagens de uma posição política mais marcada, mas eu acho que falta criar uma demanda, uma pauta da universidade, ainda que seja sobre a chancela de um partido partidarizado ou não, a pauta tem que ser da vida acadêmica, lógico que não pode ficar só na vida acadêmica, porque senão vira uma corporação. A universidade ela está numa sociedade, ela está num todo, dentro desse todo você tem que optar [sobre] quem você é, mas eu acho que essa equação nós nunca conseguimos resolver.
E, particularmente, a minha trajetória é cheia de ingenuidades. Na realidade eu fui militante na pastoral do menor, na época em que estava se articulando para levar a emenda parlamentar que deu origem ao ECA (Estatuto da Criança e Adolescente), era uma coisa mais de comunidade, de tentar juntar a comunidade, nós fazíamos encontros ecumênicos do menor. Várias religiões como presbiterianos, protestantes, católicos, gente de outras denominações católicas, mas como uma pauta única, o código do menor. Por conta da situação não se sustentar, as diferenças eram deixadas de lado, estávamos unidos por um mote em comum, as diferenças enriqueciam as discussões e a causa comum era a luta pelas crianças e adolescentes. Havia uma certa tolerância entre os discursos, você não era destratado pela sua posição, era uma coisa mais dialogada, era comunitária... E você entra aqui e eu vejo uma estrutura que eu desconhecia de partidarismo, de ter que bater de frente o tempo todo... O consenso não existe porque uma ideia sobrepõe a outra e você não tem um diálogo com as pessoas, entre as lideranças. Saí de um mundo totalmente diferente, foi um aprendizado. Eu
nunca fui de impor minhas ideias, nunca me coloquei numa posição radical, eu acho que a política você também faz no diálogo.