CHAPITRE 2 REVUE DE LITT´ ERATURE
2.4 Recherche op´ erationnelle et planification
A senhora precisou esperar mais alguns anos para desenvolver suas idéias. Como persuadiu o governador Carlos Lacerda a adotá·las?
Só conheci Carlos Lacerda pessoalmente em
1954.
Assim mesmo, superficialmente, durante a campanha. Eleita vereadora, acompanhei toda a sua atuação política e passei a considerá-lo uma figura excepcional. Foi a maior figura pública da23 César Maia foi prefeito do Rio de Janeiro entre 1993 e 1997,
sendo eleito novamente em 2000
Sandra Cavalcanti •
metade do século passado Quando meu mandato terminou, em 1 958, a experiência como vereadora havia sido muito ruim Me decepcionou muito. Decidi retomar minha carreira no magistério. Mesmo assim, até 1 960, participei ativamente do grupo de educadores que ajudou o então deputado Carlos Lacerda a elaborar o novo projeto das Diretrizes e Bases da Educação. Desse grupo faziam parte d. Lourenço de Almeida Prado, professor Gladstone Chaves de Melo, professor Flexa Ribeiro, padre Atur Alonso, professor Coelho de Souza e o professor Edgard da Malta Machado Foi um belo
trabalho, que resultou numa excelente legislação, abeta e democrática, aprovada pelo
Congresso já em 1 96 1 . Eu pensava em retornar às atividades de magistério, mas tive de mudar de idéia. Faltando 23 dias para a eleição de governador do novo estado da Guanabara e de sua Assembléia Constituinte, Carlos Lacerda foi à minha casa para me convencer a disputar uma vaga na chapa da UDN A campanha dele foi feita com uma plataforma bem simples: transformar a Guanabara no melhor estado do Brasil. Já que, diziam, não servíamos mais para ser a capital do país, queríamos ser o estado mais
avançado e mais moderno. Com isso, ele devolveu um sentimento de auto-estima aos cariocas e, vencedor, conseguiu de fato realizar o seu sonho. Depois dele, o Rio sofreu muito. Prefeitos fracos, a fusão, a perda de sua identidade, e, mais tarde, as duas administrações desastrosas do período brizolista. Só recentemente, em 1 992, é que o Prefeito César Maia conseguiu, de novo, dar aos cariocas uma certa sensação de valor e
respeito 23
As favelas constituíram um dos carros-chefes da campanha de Lacerda.
A senhora discutiu sobre a polltíca a ser adotada com o sociólogo José Athur Rios, nomeado coordenador de Serviços Sociais?
Não Nem durante a campanha, nem depois. Tínhamos posições antagônicas. Como temos até hoje. Na época, ele não aceitou a idéia de uma visão prática em relação
às favelas. Nossa posição era diferente. Não tínhamos teorias nem ideologias sobre
favelas. Para nós a questão era simples e objetiva. Se a favela estava em área de risco, tinha de ser reassentada em outro local. Se invadia a Mata Atlântica, tinha de ser retirada dali. Se poluía margens de rios, lagos e lagoas, ou se ficava à mercê de marés, também tinha de ser deslocada. A urbanização não era nem dogma nem regra, como veio a acontecer depois
José Athur Rios era ligado à Igreja Católica?
Era. Principalmente a d Hélder. Nossas divergências já vinham desde esta data. Quando vereadora, não concordei com a instalação da Cruzada São Sebastião, ali no Leblon. Considero, até hOje, que cometeram um erro gravíssimo Lembro-me bem de que, na ocasião, chamei a atenção para vários conflitos que o projeto iria criar,
principalmente para os próprios favelados. O bairro era formado por uma comunidade
economicamente bem-sucedida la ser difícil entrosar a população da noite para o dia. Haveria, certamente, um choque de culturas, desejos e aspirações Como de fato ocorreu. Vejo hoje que estava certa. A Cruzada ainda é hoje um enclave. As pessoas não
mudaram de v',da, nem foram assimiladas. O problema é sério.
• o que fazer com a população pobre? A favela ns anm 60
Nossas dificuldades com d. Hélder aumentaram depois, quando ele se engajou na criação das Comunidades Eclesiais de Base. Na verdade, elas passaram a ser centros de preparação de ativistas políticos, de linha nitidamente marxista. Embora nós, da UDN, não tivéssemos qualquer dificuldade em conviver com correntes de esquerda, porque a própria UDN tinha sido formada junto com a Esquerda Democrática, Z4 ficava impossivel tratar com ativistas que buscavam demolir nossa incipiente democracia para instalar, aqui, o sonho cubano. Era de lá que vinham as instruções e o apoio.
Ao longo de toda a campanha, em 1960, ficou clara esta tensão entre as propostas de erradicação e as de conservação e urbanização das favelas?
Não. Esse assunto não foi dominante na campanha. Ele só apareceu depois, quando o governador Carlos Lacerda traçou seu primeiro plano de governo. Principalmente quando, com a presença de Doxiadis entre nós, os problemas urbanos foram mais amplamente discutidos. Nunca houve propostas antagônicas. Sempre que fosse possivel urbanizar, isso seria feito. Como foi o caso da favela de Brás de Pina. O projeto foi começado pelo Athur Rios, ainda como coordenador de Seviço Social e terminado por mim. Ele foi o coordenador desde dezembro de 60 até maio de 62. Brás de Pina só não ficou melhor porque o lote anexo, que queriamos utilizar para expandir o assentamento, era terreno federal, que o presidente João Goulat não nos quis transferir.
A solução escolhida pelo governador Carlos Lacerda, e depois por mim, foi a de buscar a integração daquelas pessoas ao tecido urbano normal, de uma forma prática Cada favela deveria ser um caso, pois elas eram sempre diferentes. Uma ficava em área federal, em terreno da Central do Brasil Outra ocupava fundos de terrenos de particulares, como a do Pasmado Uma ameaçava despencar. Outra ameaçava alagar. Essa era a realidade.
Por tudo isso, nunca tracei uma diretriz única para todas as favelas. Na
imprensa, porém, imperavam os slogans: "Sandra só admite a remoção de todas as favelas" . Não é verdade. Nunca fui radical nessa questão. Tanto que urbanizei a Vila Vintém e a Vila da Penha entre inúmeras outras, menores.
Havia muitos critérios a serem analisados, no caso de cada favela. A urbanização de algumas favelas utilizou estes critérios. Se ela não podia e não devia sair
dali, aMamos uma rua principal, calçávamos muitas vias internas, iluminávamos,
levávamos rede de água e amenizávamos a questão do esgoto. Só agora, muitos anos depois, é que esses serviços públicos puderam ser melhorados. Mas o desafio continua valendo para muitas outras: como instalar rede de esgotos no emaranhado de casas e apartamentos em que elas se transformaram hoje?
O caso da favela da Mangueira foi exemplar. Ninguém cogitou, um dia sequer, em tirar os moradores da Mangueira de lá, ao contrário. Ao lado, erguia-se uma fábrica de carretéis, de propriedade de um português, que estava cercada pela favela. Ele se queixava muito de sua vizinhança. O governo foi até ele e propôs uma troca, Deu a ele um terreno em Santa Cruz e ele transferiu sua fábrica para lá. Desapropriamos o terreno antigo, que passou a ser usado como quadra de ensaios da escola de samba, e está lá até hoje.
24 A Esquerda Democrática foi um IO formado dentro da UON em 1 945, e em 1950 � Origem ao
,.
Sandra Cavalcanti com o govenador Carlos Lacerda na Mangueira, em agosto de 1964
Sandra Cavalcanti .
Quando a �rea favelada era de alto risco, tanto do ponto de vista ambiental (invasão da Mata Atlântica, destruição de manguezais), como do ponto de vista de insalubridade, ai não tinha jeito. Faziamos a remoção. Tirei, de dentro da Mata Atlântica, três ou quatro favelinhas que, instaladas praticamente no Alto da Boa Vista, já começavam a devastar a Floresta da Tijuca, que é uma das coisas mais preciosas do mundo.
As favelas de João Cândido, Maria Angu e metade da Maré foram removidas porque eram construídas em palafitas, em cima de lama Um aterro ali, para urbanizá-Ias, seria caríssimo e destruiria os manguezais. Fizeram isso depois, na Vila do João, e eu não vi nenhum ambientalista protestando .. O preço do metro quadrado, em um aterro desses, chega quase ao mesmo valor de um na Vieira Souto Ali havia manguezal e turfa, ou seja, você aterra, aquilo afunda, você põe mais terra, torna a afundar. Todo dia afunda, todo dia racha uma casa
t
um horror.José Athur Rios saiu do governo fazendo criticas, acusando interesses da especulação imobiliária?
Ele fez, de fato, várias criticas. Acho que ele esperava ser o secretário de Serviços Sociais. Até aí, tudo bem. Mas me magoou a menção de que estávamos ligados à especulação imobiliária. Todas as vezes em que houve especulação com os terrenos de onde foram removidas favelas, isto ocorreu depois do nosso governo. Nunca durante o
nosso. Que especulação teria acontecido na nossa gestão? Removemos a favela do
Pasmado, e está lá um parque.
É
verdade que quiseram erguer, lá em cima, um hotel Hilton. Foi uma proposta apresentada através do Roberto Campos e do Jorge Oscar de Melo Flores. Mas foi recusada. O governador Carlos Lacerda era um amante de áreas verdes. Basta ver o Parque do Flamengo, para entender por que ele preferiu arborizar OPasmado, conservando a visão original da baia da Guanabara.
Tiramos a favela da rua Macedo Sobrinho, no Humaitá, e reflorestamos tudo. Quem, anos depois, usou a área para erguer um Ciep foi O senhor Leonel Brizola. Removemos a favela do Esqueleto, a maior de todas. Quem ocupou a área imensa que foi liberada) O campus da Universidade do Estado da Guanabara, UEG, na época Foi uma idéia e uma decisão do governador Lacerda. Un presente fantástico, não é? Pois é, mas o campus da UERJ se chama Campus Negrão de Lima ... Coisas da natureza humana!
Removemos também a favela da Maré e a do João Cândido Uma ficava em palafitas e outra em terreno seco. Não tínhamos condição de discriminar. Para os
moradores dessas duas favelas, a solução foi excelente Eles já moravam na avenida Brasil A área liberada com a saída deles pertencia à União. Eram terrenos da marinha. Foi uma dificuldade conseguir que o governo federal os entregasse ao estado da
Guanabara. Foi uma luta danada, mas acabamos conseguindo Instalamos ali o Mercado
São Sebastião, que deu emprego para aquela regIão toda, o que foi muito importante, uma fábrica de bolsas de couro, a Kelson's, e mais umas duas ou três empresas.
s áreas de outras favelas, pequenininhas, que estavam
instaladas
em áreas de Mata Atlântica, foram todas reflorestadas. E era nossa intenção fazer isso com as de• o que fazer com I populaçao pobre? A favela nos anos 60
Santa Teresa, além de Formiga e Borel, na Tijuca, partindo sempre do mesmo raciocínio: primeiro, porque são pirambeiras; segundo, porque estavam em plena Mata Atlântica, criando um problema ambiental terrível para a região, Quanto à Rocinha, nem passava pela nossa cabeça a idéia de fazer daquilo uma cidadezinha do interior, como é hOJe Até a cota 40, poderia ser construido um condomínio do tipo da Vila Kennedy. Da cota 40 em diante, como manda a lei, é área non aedifícandí ... Tem de ser reflorestada
Como pode ver, as alegações do Arthur Rios não tinham procedência, O episódio da favela da Praia do Pinto, que sofreu um misterioso Incêndio e foi removida em seguida, esse já ocorreu depois. E a área liberada, entregue a várias carteiras hipotecárias de militares e a algumas cooperativas Essa sim, foi objeto de uma operação imobiliária. Não obrigatoriamente uma especulação, a meu ver ...
O fato é que, Já no governo Negrão de Lima, as idéias do professor Rios foram vitoriosas. Ele conseguiu criar um órgão chamado Codesco (Companhia de Desenvolvimento de Comunidades) e convenceu a todos que as favelas deviam ser todas urbanizadas e Jamais removidas O resultado é esse que está aí.
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