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RECENSION DES ÉCRITS

Dans le document Cégep de Sherbrooke (Page 30-50)

Quando penso na relação do indivíduo com a coletividade em nossa sociedade, logo lembro-me do fato já relatado neste trabalho: o processo de escolha de turmas nas escolas públicas do DF. O professor que trabalha com anos iniciais do ensino fundamental escolhe a turma com a qual quer trabalhar até o final do ano letivo e tal fato favorece o surgimento de três elementos: sentimento de posse, a competitividade e o isolamento.

Do sexto ano em diante do ensino fundamental, o profissional de cada área específica tem uma quantidade de aulas semanais para ministrar em cada turma. Aquele que trabalha com Arte tem duas aulas por semana, o que geralmente implica em um total de quinze turmas para fechar a carga horária semanal de trinta horas-aula em sala de aula. Desse procedimento resulta a prática isolada em que cada professor preocupa-se com o conteúdo de sua área de conhecimento. Com isso, a coordenação sente dificuldades em propor trabalhos coletivos e interdisciplinares, pois todos querem cumprir o programa curricular.

A prática de escolha de turmas estimula a competição e provoca animosidade entre os profissionais. Início do ano, momento em que se dá esse processo, há uma verdadeira disputa de tempo de serviço, diplomas, títulos e certificados que são contados como pontos de classificação para enfileirar todos no ranking da escolha. Apesar de estar inserida em um contexto considerado educativo, esta prática entra em total contraste com a ideia de coletividade. Tudo isso porque as turmas são organizadas por idade. Usualmente, as primeiras turmas recebem estudantes que nunca reprovaram. São atribuídas letras na ordem alfabética a cada uma. As últimas turmas agrupam educandos que apresentam maiores dificuldades de aprendizagem e comportamento.

Quando cheguei à escola para realizar a pesquisa de campo, notei duas coisas diferentes que não existiam nos anos em que trabalhei na instituição: câmeras na sala da coordenação disciplinar e uma vitrine situada no corredor central da escola que exibe os troféus e medalhas conquistadas pelos profissionais da Educação Física e pelos estudantes em diversos eventos de competição esportiva. Para mim, a valorização do espírito competitivo não combina com a coletividade. Mesmo que exista o trabalho em equipe em um grupo esportivo, penso que a ideia de coletivo não é coerente com a de competitividade.

Para ilustrar a noção de coletividade, recorro aos saberes da cosmovisão Ubuntu, formulada a partir da sabedoria dos povos zulu e shona – falantes de línguas do tronco

linguístico bantu da África subsaariana (SOW & ABDULAZIZ, 2010, pp. 650-656). Esses saberes são retratados por Munyaradzi Felix Murove em seu artigo intitulado “Ubuntu” (2013). Murove diz que a palavra Ubuntu é a abreviação para a expressão Umuntu ngomuntu ngabantu. Traduzido de forma direta significa: “uma pessoa é uma pessoa por causa das outras pessoas” (MUROVE, 2013, p. 37, tradução nossa31) ou ainda “Sou quem sou por aquilo que todos somos”, conforme tradução de Lia Diskin (2008, p. 21). Nesse contexto, a identidade da pessoa é definida a partir de seu pertencimento a um coletivo e da sua relação com a alteridade.

O reflexo da prática educativa centrada na coletividade sob a perspectiva Ubuntu é ilustrada na anedota contada por Raimor Panikkar no livro Espírito da Política (2005, p. 216). O autor relata que uma pessoa, primo de um de seus estudantes, participou de uma ação governamental estadunidense em um povoado africano para dar aulas de ginástica. Um dia, ele propôs um jogo que considerava inofensivo. Levou uma porção de doces e disse que daria as guloseimas àquele que ganhasse uma corrida. Riscou no chão as linhas de saída e chegada, explicou as regras e todos se posicionaram para brincar. Quando deu o grito de largada, para seu grande espanto, as crianças deram-se as mãos e correram todas juntas em direção ao cesto onde estava o prêmio. Todas sorrindo com cuidado para chegarem juntas, pois não poderiam ser felizes sem a felicidade dos outros.

A naturalização da competição no sistema capitalista simbolizada pelos enfileiramentos entra em contraste com a simbologia do “dar as mãos para alcançarem juntos à linha de chegada onde a felicidade é coletiva”. Na ética da filosofia Ubuntu, a responsabilidade está ligada à idéia de que o indivíduo é moralmente responsável pelos outros, ou seja, o sentido de responsabilidade é baseado nas relações que o indivíduo tem com a comunidade e não na autonomia individual(MUROVE, 2013, p. 39).

Outra característica do individualismo no pensamento europeu é explicitado por Murove quando diz que a racionalidade produz conhecimento a partir de um individualismo que lhe confere autoria. Tal premissa determina a identidade sem vinculação com a coletividade. “Penso, logo existo” como princípio cartesiano se contrasta com o “eu sou porque nós somos” da ética Ubuntu (MUROVE, 2013, p. 38).

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“Ubuntu is well captured in the adage which says Umuntu ngomuntu ngabantu (Zulu) – a person is a person because of other persons. Hence, failure to act humanely towards other people is thus considered as a lack of humanness or lack of Ubuntu” (MUROVE, 2013, p. 37).

No contexto da dinâmica colonialista, Murove aponta a adoção do currículo centrado em valores eurocêntricos nas escolas missionárias. Os procedimentos escolares desconstruíram tradições africanas. Para ele, o missionário na África foi o primeiro a separar a pessoa do seu grupo social em atividades comuns para serem realizadas individualmente. A escolarização aplica conteúdos das ciências em grupos com a busca da resolução das atividades propostas feitas de forma individual. Vistas assim, as bases do pensamento europeu e suas práticas pedagógicas se sobrepõem sobre as da cultura Ubuntu e representam uma violência simbólica. Estão fundamentadas na ótica hierárquica pautada na necessidade de instrução feita pelos ditos superiores aos seres considerados inferiores (MUROVE, 2013, p. 42).

O conhecimento de si e do mundo emana das interações com o outro conforme os ensinamentos Ubuntu, o que coincide com os estudos etnocenológicos. Armindo Bião afirma que sem coletivo não há pessoa (2009, p. 129). É a partir da relação entre o sujeito e a alteridade que ele define as noções de teatralidade e espetacularidade. Para o autor, a teatralidade está relacionada com as pequenas interações do cotidiano, nas quais o sujeito age em função do interlocutor, do olhar do outro, “[...] de modo mais ou menos consciente e confuso, sem distinção clara entre ‘atores e espectadores’, por desempenharem, aí, todos, simultaneamente os dois papéis.” As interações extraordinárias são relacionadas com a espetacularidade: fenômenos organizados coletivamente para o olhar de muitos, onde estão determinados claramente os papeis de atores e espectadores (BIÃO, 2009, p. 61).

Ritos, rotinas, rituais e espetáculos são performances da vida individual e coletiva, são a forma sensorial e perceptível pela qual experiência e expressão reúnem-se, são jogos que se fazem com a alteridade, em todos os sentidos, com todos os sentidos, são comunicação (BIÃO, 2009, p. 128).

Segundo Bião, os rituais religiosos, a procissão, os festejos públicos, as competições esportivas, as manifestações políticas, as práticas teatrais, a performance são fenômenos sociais que reúnem coletividades e promovem a respiração social. São definidos pelo etnocenólogo como práticas espetaculares e comportamentos humanos espetaculares organizados, conceito usado para analisar as manifestações socioculturais ampliando os estudos teatrais (BIÃO, 2009, p. 128).

Sob a perspectiva da Etnocenologia, analisar uma manifestação expressiva cultural requer diálogos com inúmeros discursos expressos de formas diferentes que permeiam a práxis e extrapolam limites das categorias definidas nos estudos teatrais. A multiplicidade de expressões culturais brasileiras evidenciam as cosmovisões africanas, marca a presença de

diversos povos oriundos das áfricas e se materializa na diversidade de religiões que deslizam entre as fronteiras do hibridismo. Dentre tantas religiosidades, os candomblés reafricanizam rituais na tentativa de se manter o mais próximo possível dos saberes africanos.

Os candomblecistas compartilham a concepção de que os seres humanos fazem parte da natureza, ideia com força viva e latente no continente africano e se manifesta, por exemplo, em um provérbio Ubuntu que diz: “seu filho é meu filho”. A expressão proverbial aponta para uma prática educativa pautada na sabedoria que tem profundas raízes na coletividade, não só humana, mas formada na continuidade orgânica natural.

Na visão Ubuntu, todos da comunidade são responsáveis pela educação das crianças. O costume de tratar todas as pessoas do grupo por pai ou mãe revela a ampliação das relações de parentesco em muitas tradições da África. O tratamento dado aos membros da comunidade se estende às relações com os deuses. As divindades africanas são personificações das forças da natureza que simbolizam as tempestades, as águas do mar e dos rios, o devir presente em todas as coisas, o fogo, a terra, as matas e muitas outras. Nos terreiros de candomblés, o costume herdado da matriz afro exige o uso do tratamento de parentesco no relacionamento com os deuses, como por exemplo: minha mãe Oxum na tradição ketu, meu pai Azauane na nação jeje, minha mãe Matamba na cultura bantu.

Do conceito de coletividade sob a visão da cultura zulu e shona, podemos identificar a relação do sujeito com a coletividade em que o “eu sou porque nós somos” norteia os valores sociais. O pertencimento refere-se que o ser humano está inserido na natureza. Se olharmos sob o ponto de vista do eurocentrismo, encontraremos o mito separa seres humanos e natureza estabelecendo hierarquias que respaldam a exploração dos recursos naturais, inclusive o humano.

A justificativa da permissão de explorar predatoriamente o globo terrestre encontra-se na narrativa fundante mítica judaico-cristã em que o homem aparece como um ser superior na natureza que deve se multiplicar e dominar todos os seres viventes da Terra. As práticas religiosas de origem africana que chegaram ao Brasil pensam de maneira diferente. A unidade entre humanos e os demais elementos naturais está presente no culto aos deuses africanos em uma dimensão de continuidade orgânica revelada por em uma profundidade mítica e ao mesmo tempo identitária. Assim, na perspectiva das culturas africanas, entendo que coletividade vai além das relações entre sujeito e sociedade. Ela agrega também as relações com os demais elementos naturais.

Sendo assim, a prática da escolha de turmas no DF desarticula qualquer tentativa de produção de uma coletividade na escola. O isolamento, a competividade, a possessividade desenvolvidos na instituição desconstroem o sentimento de pertencimento.

Dans le document Cégep de Sherbrooke (Page 30-50)