Segue-se a poesia schmidtiana nos anos de 1951 e 1953, com a publicação de
Ladainha do Mar, Morelli e Os Reis. Depois, atravessará os anos de 1956, 1958 e 1959,
com a preparação de Poesias Completas, Aurora Lívida e Babilônia, encerrando-se em 1964, com a obra O Caminho do Frio. Esses últimos livros da carreira literária de Schmidt vão surgir no contexto de transição da política de Vargas para a de Juscelino Kubitschek de Oliveira, indo até depois do final do governo deste. Tal momento da vida
do escritor é marcante, pois assume uma posição estratégica no governo JK, tido como desenvolvimentista e atraente ao capital estrangeiro. O lema era 50 anos em 5, conforme aparecia em um dos discursos do então Presidente da República, escritos por Augusto, que acabou se tornando assessor do Chefe de Estado. A temática da solidão volta a fazer parte das páginas de Aurora Lívida, simbolizando um instante da periodização histórica brasileira em que a nação sente-se abandonada, sem um rumo certo a trilhar, necessitando de um guia. Este vem reestruturar o caráter socioeconômico do Brasil nas eleições de 1955. O mineiro JK tomaria posse no cargo de novo Chefe de Governo e de Estado do país em 1956, dando início a um mandato progressista e cheio de realizações nos campos da diplomacia e do urbanismo (a construção de Brasília em pleno Planalto Central). Babilônia, talvez seja um livro que retrate a chegada desse novo quadro da História do Brasil. Os sonetos que o compõem retomam os temas bíblicos e têm como personagem um profeta. A saga dessa figura mítica é um prelúdio àquele ano de 1958, no qual ideias simpatizantes com a diplomacia globalizadora de JK estimulariam o poeta a resgatar do imaginário a possibilidade de se concretizar a chamada Operação
Pan-Americana.
O projeto consistia em promulgar, em parceria com os Estados Unidos da América, um acordo econômico que salvaria as nações latino-americanas do subdesenvolvimento e da crise diplomática que atravessavam naquele momento. Lógico que isso implicaria mudança no atual quadro da economia da América Latina, todavia, referente à política fiscal e econômica, pois o que se exportava do Brasil, por exemplo, não era valorizado além de suas fronteiras. Da mesma forma, enfrentavam problemas os outros países latinos. O próprio Augusto Frederico Schmidt, em seu artigo Memórias
políticas, copilado em sua Antologia política, nos põe informados sobre o audacioso
plano:
A operação Pan-Americana, para dizer exatamente a verdade, tem sua raiz mais profunda no medo de uma frustração histórica. As nações deste hemisfério, amarradas ainda a uma infraestrutura econômica frágil e insuficiente para a construção de uma verdadeira atividade industrial, as nações mais ou menos líricas, jurídicas, libertárias, eloquentes e sensíveis prioritariamente a questões de prestígio – começaram só há pouco a tomar exato conhecimento do que se passava no mundo. […] As nações latino- americanas – exportadoras de matérias-primas ou produtos primários – foram forçadas a se dar conta de que não ocupavam qualquer lugar de relevo na
atualidade, de que não podiam ter chão firme, pois os preços de suas mercadorias principais baixavam continuamente em virtude de combinações dos mercados compradores ou das próprias leis naturais e das condições de conjuntura. Além disso, o próprio poder tecnológico de que dispunham os países desenvolvidos tornava ameaçadoramente precária a estabilidade das economias que se baseavam no café e outras especialidades semelhantes, as quais de uma hora para outra poderiam encontrar concorrência em sintéticos (SCHMIDT, 2002, p. 147).
A ousadia dessa ação diplomática durante o governo JK alavancou crises no Ministério das Relações Exteriores, resultando na demissão do Ministro Macedo Soares, que viria depois a ser substituído por Negrão de Lima, amigo próximo de Schmidt. Tal episódio se deu devido a acusações da Imprensa Nacional de que o Ministro desconhecia os objetivos dos planos da política exterior. A chegada ao Brasil do embaixador americano Jon Foster Dulles naquele ano de 1958, para debater frente ao Presidente da República a proposta da OPA, foi o estopim disso. Um Comitê para levar adiante as negociações foi criado. Schmidt seria o seu chefe e lideraria outros jovens diplomatas que participariam dele. Autran Dourado foi um integrante, uma vez que já operava no governo no cargo de Secretário de Imprensa da Presidência da República. Os americanos mostraram-se, a princípio, desinteressados, e propuseram, por meio do embaixador, que apenas agregassem os dois países, Brasil e EUA, no Mercado Comum da América, desencorajando o presidente brasileiro a continuar com o pan- americanismo e os investimentos nos países latinos. Assim, os EUA poderiam ajudar o Brasil a resolver seus principais problemas econômicos. Schmidt não ficou satisfeito e ameaçou abandonar o projeto. Outra exigência era que os brasileiros declarassem o seu anticomunismo ao lado dos norte-americanos, e novamente o autor de O caminho do
frio (livro de poemas que viria a ser publicado em 1964) recusou o alvitre. Disse que
seria melhor discutir uma nova democracia para a América Latina e para o mundo. Da tentativa diplomática entre JK e o presidente norte-americano Eisenhower, brotaria a Conferência dos 21 em Washington, em novembro e dezembro de 1958. Schmidt foi um dos delegados a defender veementemente que o maior escopo da OPA era o aumento da renda per capita das nações da América Latina. Renda essa que seria dobrada no prazo de vinte anos. O jornal carioca O Globo, do qual era colunista, foi usado para expressar várias opiniões sobre os rumos do plano de metas. Nas reuniões
diplomáticas, procurou enfatizar que, sem um programa de desenvolvimento econômico para os povos latino-americanos, o Comunismo da Rússia não demoraria a contaminar as mentes destes, e a Guerra Fria acabaria se tornando um assunto verdadeiramente incontestável. Com o agravamento da situação de Cuba, prestes a entrarem uma Revolução, os Estados Unidos apoiaram o programa, desde que incluísse em sua pauta a criação do Instituto Interamericano de Desenvolvimento Econômico; negociações específicas com todo o auxílio técnico e a cooperação econômica entre Estados Unidos e América Latina; estabilização dos preços das mercadorias e um acordo para a promulgação de mercado comum regional americano.
Para todos os assuntos que tinham como questão a OPA, Schmidt foi designado pelo governo para ser o chefe da delegação brasileira na Conferência dos 21, convocada no “Comitê dos 21” e realizada em Buenos Aires, em 1959. Por causa de sua atuação, foi nomeado embaixador especial perante o Mercado Comum Europeu, o que lhe garantiu uma posição estratégica na condição de articulador, proferindo conferências em vários pontos da Europa e chamando sempre a atenção para os problemas que os países latino-americanos estavam enfrentando. A partir daí, ficaria mais claro o sentido da Operação Pan-americana: formar uma mentalidade e organizar uma doutrina para o desenvolvimento. Para o autor de O Galo Branco, não haveria desenvolvimento sem uma base na cultura e um povo instruído para que se pudesse imprimir funcionamento a esse sistema pan-americano. Vejamos parte do discurso pronunciado no Itamaraty, no dia 07 de dezembro de 1959, e publicado no dia 11 daquele mesmo mês e ano em O
Globo:
Sobre nossos ombros pesam responsabilidades que devemos considerar detidamente. A primeira se traduz numa exigência de ordem, de repúdio a toda a sorte de excessos e desequilíbrios. Quem tem o dever de libertar muitos milhões de seres de uma escravidão que já durou demais, pois se prolonga até uma era em que a técnica oferece possibilidades de produção suficiente ao sustento de todos os seres humanos; quem já sabe o que deve fazer para alcançar seus objetivos, não pode perder-se em vagos devaneios. A Operação Pan-Americana, surto de afirmação continental, não é apenas um conjunto de providências econômicas. É um despertar de consciência; é um trabalho de uma nova geração de homens decididos a não consentir que nos aproximemos cada vez mais das zonas dominadas pela incultura e pelo atraso e cada vez mais nos deixemos distanciar pelos países que lograram oferecer aos seus povos um alto teor de vida (SCHMIDT, 2002, p. 92).
O empreendimento sofreu críticas das mais acirradas por ainda causar ceticismo em muitos. Augusto Frederico Schmidt ainda tentou argumentar nas páginas do Globo os benefícios que a OPA traria ao continente, respondendo, ademais, as afirmações do jornalista Eugênio Gudin sobre o fracasso do plano desenvolvimentista. A ênfase sobre uma das realizações foi a criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD). Este financiaria diversos planos de produtividade agrícola, bem como a construção de indústrias que gozariam do que havia de mais sofisticado no que se discutia sobre tecnologia de ponta. Apenas continuava em estudo um acordo sobre a estabilização dos preços de produtos primários no continente, no entanto, o embaixador estava otimista, e a atualização política, segundo ele, promovida pela OPA, já dava sinais de força com algumas associações em países europeus, empenhados em colaborar com o Brasil. Resultado: o empreendimento se desgastou, e, em 29 de dezembro de 1960, Schmidt entregaria sua carta de renúncia ao cargo de embaixador perante o Mercado Comum Europeu ao presidente Kubitschek. Ainda continuou no comando do “Comitê dos 21” apenas como presidente até que nesse mesmo ano as eleições gerais revelassem à nação seu novo líder, Jânio Quadros. A total falta de vínculo com o novo governo enterraria para sempre o sonho da OPA, pois, sem o menor interesse de prosseguir com a política internacional de seu antecessor, Jânio entregou-se inteiramente ao domínio dos americanos do norte, ignorando os acordos diplomáticos do governo brasileiro predecessor. Essa atitude deu margem para que o presidente eleito nos EUA em 1961, John Kennedy, lançasse o programa de desenvolvimento para a América Latina, conhecido como Aliança para o Progresso, que trazia ao palco internacional alguns preceitos da OPA, porém, com índole mais assistencialista. O ambicioso programa, que livraria os latino-americanos da sombra do subdesenvolvimento, teve o seu fim sem sequer ter germinado suas sementes.