Como já referi no início deste capítulo o projeto de intervenção-investigação desenvolvido foi implementado numa perspetiva de educação para o desenvolvimento sustentável (EDS).
Segundo o relatório de Brundtland pode definir-se como o desenvolvimento sustentável, isto é, o desenvolvimento que satisfaz as necessidades da geração presente, sem contudo comprometer as necessidades da geração futura satisfazerem as suas (UNESCO, 2005).
A assembleia geral das nações unidas decidiu que 2005-2014 seria a década da educação para o desenvolvimento sustentável. O objetivo desta década é “enfatizar a importância de ações combinadas para assegurar que os padrões do desenvolvimento sustentável ofereçam qualidade de vida para todos, tanto para as gerações presentes quanto para as futuras” (UNESCO, 2005, p. 37).
O conceito de desenvolvimento sustentável é um conceito muito abrangente e neste existem três áreas interligadas, sendo elas a sociedade, o meio ambiente e a economia. Estes três elementos supõem um processo de transformação permanente, uma vez que o conceito de desenvolvimento sustentável é um conceito dinâmico que reconhece que a sociedade está em constante transformação. Este conceito prende-se eminentemente com questões sociais e económicas. Desta forma a parte humana é crucial para existir um caminho que alcance o desenvolvimento sustentável (UNESCO, 2005).
A parte humana devido a toda a sua complexidade tem um papel fundamental para o desenvolvimento sustentável. Daí a importância da educação no processo do desenvolvimento sustentável, uma vez que a educação é o ponto de formação cívica de qualquer ser humano. Assim e tornando-se essencial o desenvolvimento sustentável a educação torna-se uma das melhores ferramentas para formar e educar indivíduos com valores e princípios orientados para um mundo sustentável. A educação é um dos grandes motores de funcionamento de uma sociedade daí que seja um dos pontos cruciais para desenvolver nas crianças (que no futuro serão cidadãos com voz ativa na sociedade) valores que respeitem e vão ao encontro dos objetivos e das finalidades do desenvolvimento sustentável (UNESCO, 2005). De acordo com Vieira, Tenreiro-Vieira e Martins (2011) “argumenta-se que a educação em ciências deve ajudar todos os alunos a desenvolverem os conhecimentos, as capacidades de pensamento requeridos para a promoção de um desenvolvimento sustentável a nível local, nacional e internacional para que todos possamos ter vidas e gozar de qualidade de vida” (p.8).
Assim torna-se ainda crucial “educar” os contextos educativos e os profissionais que nestes trabalham para a importância da EDS no desenvolvimento futuro do nosso planeta.
A EDS tem algumas características específicas tais como: é um processo contínuo, isto é, não é apenas para um momento ou fase da vida, mas sim para toda a vida. Esta também deverá desenvolver-se em espaços formais, não formais e informais de ensino e de aprendizagem. A EDS deve ser inter, multi e transdisciplinar, como Morin afirma “num mundo onde os problemas são cada vez mais pluridisciplinares, transnacionais, globais e planetários, os saberes divididos, compartimentados e isolados são insuficientes para a compreensão da verdadeira dimensão das problemáticas que enfrentamos” (1999, citado por Sá, 2008). É importante esta ligação entre as várias áreas científicas, para que as crianças tenham um contacto com evidências, valores e controvérsias e desta forma construam ideias relativamente aos problemas mais próximos do real (Sá, 2008; UNESCO, 2005). A EDS deverá ser também assente em valores bem definidos de forma
a promover o respeito pela dignidade e direitos humanos das gerações presentes e futuras e pela diversidade cultural e biológica. É necessário que a educação se assente em valores, para que as crianças construam um respeito pela educação sustentável. Esta construção do respeito leva ao interesse comum em detrimento do pessoal, a uma maior equidade, respeito e compreensão do mundo à sua volta. É necessário promover nas crianças o respeito pelas necessidades e interesses comuns e não pelas individuais, e é necessário educar as nossas crianças neste sentido, por forma, a no futuro, se tornarem cidadãos conscientes das suas responsabilidades (Sá, 2008; UNESCO, 2005). A EDS deve também ser capaz de desenvolver o pensamento crítico e a capacidade de resolução de problemas nas crianças desta forma estas estarão mais preparadas para os problemas que mais tarde terão de enfrentar, neste mundo com constantes desafios no qual vivemos. A EDS defende a utilização da diversidade metodológica e não apenas um único método no processo de ensino e de aprendizagem, uma vez que há métodos que captam muito mais a atenção das crianças do que outros e há determinados métodos que envolvem as crianças nas questões estudadas como é o caso do projeto e do ensino experimental. Por isso mesmo o professor/educador deve optar pela diversidade metodológica e utilizar os métodos que mais se adequam as atividades que planifica (Sá, 2008; UNESCO, 2005).
Posto isto é importante as crianças terem um contato com diversos métodos por forma a tornar as suas aprendizagens mais ricas e significativas para si mesmas. Segundo Sá (2008) “Metodologias ativas e participativas, que impliquem a contextualização e problematização das questões, a discussão criativa e a reflexão crítica são instrumentos poderosos para a (re)orientação da educação no sentido da sustentabilidade” (p. 80). Outra das características da educação EDS é a “participação ativa, consciente e responsável” das crianças, isto é, a participação destas no processo de tomada de decisões relativamente à sua aprendizagem (Sá, 2008, p.81).
A EDS deverá ainda levar a promover a compreensão científica e tecnológica das problemáticas abordadas. É através da educação que as crianças serão capazes de desenvolver a sua compreensão relativamente às questões sobre ciência. A capacidade de adotar decisões fundamentadas exige conhecimentos para pensar nas consequências a médio e longo prazo (Sá, 2008; UNESCO, 2005). A EDS deverá defender uma visão holística dos problemas, isto é encarar os problemas numa visão ampla e integradora e não fragmentada, só desta forma será possível encontrar soluções para os problemas que afetam a sociedade na qual vivemos e é necessário que as crianças compreendam isso mesmo e lidem com esse tipo de situações (Sá, 2008; UNESCO, 2005). A EDS deve ser
localmente relevante, isto é deve-se preocupar em ter em conta os problemas que afetem os aspetos locais tanto como se preocupa com os problemas globais, por isso mesmo os professores deverão utilizar uma linguagem que vá ao encontro daquela que os alunos utilizam diariamente e que melhor compreendem. A EDS deverá estabelecer-se numa cidadania planetária, isto é assentar numa “ética ambiental e de responsabilidade” que não se preocupe apenas com as necessidades da geração atual mas que tenha em conta preocupações com as necessidades das gerações futuras (Sá, 2008; UNESCO, 2005). É urgente criar esta mentalidade de cidadania planetária nos indivíduos e nada melhor do que começar desde cedo (educação pré-escolar), para que se tornem indivíduos com preocupações planetárias conscientes e que as suas atitudes demonstrem essa mesma consciência. Por vivermos num planeta de constante incerteza, imprevisibilidade e complexidade torna-se ainda mais complexa a situação e por isso mesmo é tão importante incutir nos indivíduos esta preocupação com as questões planetárias, por forma a termos cidadãos informados e por isso mesmo as suas decisões também serão muito mais conscientes e adequadas às necessidades da vida no Planeta (Sá, 2008).
Posto isto, para ser possível construir uma educação para o desenvolvimento sustentável é necessário que os cidadãos que constituem a sociedade em que vivemos possuam literacia científica, isto é sejam literatos.