Chapitre I Contexte
I.3 Dynamique de l’aimantation
I.3.1 Rappels
As promessas do mercado de consumo em relação à construção de qualquer aparência “ao gosto do freguês”, tem contribuído para a formação de uma sociedade essencialmente narcisista. As possibilidades de divulgação dessa imagem artificialmente construída através de diversos recursos disponíveis pela internet é um incentivo sedutor para que os olhares se foquem numa estética corporal artificialmente construída e na formação de um perfil que indique poder aquisitivo. A arte também tem se colocado a
serviço do marketing, quando ela mesma não se transforma em objeto de consumo. Logo, o dinheiro é quem define os padrões de beleza aos quais deveremos nos inspirar e adotar. Esse contexto social tolhe a liberdade de pensamento e criação fazendo com que as artes, de forma geral, coloquem em segundo plano a liberdade de expressão e padrões de qualidade em função do comércio. A filosofia de Michel Foucault especula sobre o que ele denomina “sociedade de controle” – a atual configuração social - observando que os níveis de controle do poder sobre o comportamento das pessoas aumentam cada vez mais o campo de domínio e sua precisão (ANTUNES, 2010). Uma sociedade controlada não desenvolve o espírito crítico e a individualidade necessários para desenvolver diálogos íntimos com obras de arte.
A arte é e sempre foi uma expressão humana provocativa. Segundo o psicanalista Carl Gustav Jung, isso ocorre porque a arte transita pelo universo simbólico e é através dos símbolos que a comunicação “via” inconsciente se estabelece. Por natureza o inconsciente é autônomo, mas há como acessá-lo através da linguagem simbólica que provoca sensações que trarão à luz alguns aspectos que virão na consciência (JUNG, 2008). Jung também afirma que é inacessível a consciência da totalidade dos conteúdos que o inconsciente comporta (STEIN, 2006). O pintor flamengo Hierônimus Bosch – seu primeiro retrato data de 1572 (BOSCH, 2011) - é um exemplo extremo. Na idade média, sua arte desconcertava e incomodava profundamente as pessoas. “Olhares perturbadores”, “espíritos sombrios”, “entranhas do inferno”, “representações loucas”, “criaturas fantásticas entremeadas ao fogo, fumaça e outros efeitos atmosféricos”, faziam com que a sociedade de sua época o considerasse “possuído pelo demônio”, perturbado e louco. Boch prenunciou um estilo de pintura que se desenvolveria como tendência apenas a partir do séc. XX, o surrealismo, estilo que consagrou a pintura de Salvador Dalí (DALÍ, 2011). Esse estilo se caracteriza por dar vazão a impulsos provenientes da mente inconsciente. O surgimento da psicanálise foi decisivo para que os artistas explorassem esse universo, até então não investigado cientificamente.
Uma sociedade controlada reprime a expressão de tudo o que não for conveniente à ordem do poder. Assim vivemos num período em que uma parcela mínima da população é instruída e educada para caminhar no sentido de individualizar- se ao ponto de questionar os padrões estabelecidos pelos interesses do poder. Quando a maioria das pessoas necessita de referenciais externos para formar opinião, teme ser
excluída socialmente por expor seus pontos de vista ou até se torna incapaz de desenvolver uma opinião própria acerca dos fenômenos que a afetam diretamente, percebe-se a devastadora ação do poder sobre corpos e mentes na atualidade.
Outro aspecto importante a ser considerado é que o envelhecimento ocorre de forma processual sendo o resultado de como se viveu as outras fases da vida. Contudo, a constatação da velhice é interpretada de diversas formas e pode ser deflagrada abruptamente em determinado momento da vida de um indivíduo. A velhice em si não tem o poder de transformar o significado da vida por representar a aproximação da morte. Ao contrário, de acordo com Serres (2003), o diálogo interno que se estabelece a partir da tomada de consciência da finitude é o que promove o início da busca pelos valores que levarão os indivíduos a transformações que resultarão no aumento de satisfação em relação a tudo que envolve suas vidas.
A velhice por si só, pode ser um forte motivo capaz de produzir uma espécie de vazio existencial e torna justificável o surgimento de estados depressivos. Cícero (44 a.C.) afirma:“Os que não obtém dentro de si os recursos para viver na felicidade acharão execráveis todas as idades da vida.”(CÍCERO, 2008, p.9).
Dessa forma, Cícero prenuncia que o vivenciar da velhice decorre de um processo que o antecede. Bobbio reitera o pensamento de Cícero ao ressaltar que:“A velhice não está separada do resto da vida que a precede. (A velhice) Reflete nossa visão da vida e modifica nossa atitude em relação a ela, segundo a maneira pela qual a concebemos...” (BOBBIO, 1997, p.29).
Em relação ao processo de envelhecimento, Messy observa que: “O envelhecimento, como processo normal, é a expressão da temporalidade da pessoa, adere à história de sua vida. Envelhecemos como vivemos, nem melhor, nem pior.” (MESSY, 1999, p.16)
Assim como Ângela Mucida (2003), Maud Mannoni, inspirada na psicanálise freudiana afirma que “quando a velhice se apossa de alguém o faz de forma inesperada.” (MANNONI apud MESSY, 1999, pg. 23). Segundo a psicanalista, a velhice não se aproxima gradualmente para quem a vivencia, de forma que os indivíduos consigam percebê-la aos poucos e processualmente. Na cultura ocidental é comum observar que a maioria das pessoas toma consciência do próprio envelhecimento de forma instantânea, em decorrência de algum fato que deflagra essa realidade. Perceber-se “velho” cada vez mais desconcerta e incomoda, pela imagem
social que tem se construído em torno desse tema, acentuada pelos atributos depreciativos que a mídia imprime para favorecer ao mercado de consumo. Esse insight - a tomada de consciência da velhice – como mencionado anteriormente, pode partir tanto de algum fenômeno que o leve a essa auto-constatação, como de processos de espelhamento nos outros que com ele “envelheceram”.