Quando o banho termina, o bebé durante os 10 minutos subsequentes apresenta uma expressiva descida da sua temperatura corporal. Assim, de forma a evitar complicações, a literatura aconselha que o bebé deve ser de imediato enrolado numa toalha para o secar sem esfregar, e de seguida vestido com roupa não húmida. Porém, se antes desta etapa é verificado que a pele do bebé possui algum tipo de secura, fissura ou descamação um emoliente deve ser aplicado [27].
Uma pele seca, escamosa e/ou fissurada nos bebés, sobretudo nos recém-nascidos é muito comum. Atualmente reconhecem-se muitos fatores que contribuem para a hidratação da superfície da pele, contudo as alterações ambientais (tempo seco, frio ou vento) ou o próprio banho parecem ser os fatores que mais aceleraram a perda da hidratação do estrato córneo [25, 27]. No caso das alterações ambientais, um estudo na Turquia, refere mesmo que estas são responsáveis pela sazonalidade de determinadas condições dermatológicas: prevalência de infeções fúngicas no Verão, prurido no Outono e maior perda de água transepidérmica no Inverno [27].
Um emoliente parece, assim ser a solução para a prevenção, e em alguns casos de tratamento, a estas e outras condições dermatológicas. Estes têm sido usados durante séculos para proteger a integridade do estrato córneo e para manter a função de barreira da pele. Quando os emolientes são adequadamente formulados estes podem preservar, proteger e melhorar a barreira da pele do bebé, por fornecerem ao estrato córneo água, lípidos e ajuda para reduzir a perda de água transepidérmica. Os emolientes também podem fornecer lípidos (incluindo o ácido linoleico) aos queratinócitos epidérmicos, os quais serão utilizados como componentes para construir uma barreira epidérmica funcional. Porém, apesar de muitos serem os profissionais de saúde e cuidadores que reconhecem a utilidade da incorporação de produtos de limpeza de base lavante suave durante a rotina do banho, muito menos são aqueles que reconhecem a importância ou benefícios do uso de emolientes para aplicação sobre a pele saudável de um bebé [20, 25, 27]. Um estudo recente mostrou que 90% das mães entrevistadas acreditavam que a pele do seu filho não padecia de qualquer tipo de secura, contudo a avaliação clínica revelou que mais de 63% dessas crianças apresentavam sinais clínicos de baixa a moderada secura da pele [41].
Uma vez também esclarecida a necessidade para o uso de um emoliente nos cuidados diários da pele do bebé, importa agora abordar quais os requisitos que os mesmos devem possuir atendendo à natureza especial da pele dos mesmos.
O primeiro requisito a mencionar trata-se da segurança que estes produtos devem oferecer. Neste campo, os maiores alertas são direcionados à inclusão de determinados óleos nas formulações que podem prejudicar a integridade cutânea. Óleos vegetais, como azeite, óleo de soja ou mostarda, apresentam normalmente alguns ácidos gordos insaturados livres que atuam como promotores de penetração cutânea, um efeito que pode conduzir a dermatite de contacto quando o bebé passa à fase adulta [42-44]. Ainda de referir que muitos destes óleos apresentam uma elevada instabilidade que os tornam suscetíveis a hidrólises e oxidação. Com os resíduos destas vias de degradação, estes produtos favorecem o crescimento microbiano e causam efeitos indesejáveis especialmente numa pele que ainda está a sofrer maturação e não tem a função imune inata completamente desenvolvida [25, 45].
Em oposto aos óleos referidos no parágrafo anterior, o óleo mineral representa um componente ideal para os hidratantes a utilizar na pele de um bebé. De facto, o óleo mineral é um óleo estável, até em climas húmidos/quentes, e inerte. Para além da sua inocuidade e estabilidade, o óleo mineral é um óleo semioclusivo, pouco viscoso e menos denso que a água, que torna a sua aplicação fácil e agradável. Mais se acrescenta que aliado a estas propriedades físicas favoráveis, o óleo mineral consegue manter o estrato córneo mais hidratado, com consequente melhor aparência da superfície da pele, por redução da perda de água transepidérmica (ver figura 2) [25, 45].
Ainda dentro do tema segurança, a literatura ressalva que na escolha do produto também se deve considerar o tipo de embalagem apresentada. Sendo que produtos com doseador mantêm a esterilidade do produto e portanto são possivelmente mais seguros [46, 47].
O segundo critério a que estes devem obedecer, e possivelmente o mais importante, refere- se à sua capacidade em manter a barreira da pele funcional e saudável, ou seja, com comprovado efeito hidratante. Neste sentido as recomendações indicam que produtos com um equilíbrio lipídico semelhante ao fisiológico (3:1:1:1 ratio molar de colesterol:ceramida:palmitato:linoleato) serão aqueles que melhor suportam o metabolismo lipídico ativo e mantêm estas procuradas características da pele [20, 25]. No entanto, devido à natureza complexa das formulações e às diferentes necessidades individuais, projetar um emoliente ideal, adaptado às características de um bebé ainda se revela hoje uma tarefa difícil com necessidade de investigação [25].
Por fim, relativamente à frequência de aplicação a literatura aponta para aplicação de duas vezes ao dia durante a permanência dos sinais, podendo-se equacionar a aplicação após o banho como forma de prevenção (aplicação suave na direção do crescimento do pelo). Uma outra estratégia ainda possível de ser assumida passa pela escolha de agentes de limpeza líquidos para o banho com emolientes na sua composição (ex: Mustela / Cold Cream Gel Lavante Nutri-Protetor®, Uriage/Crème lavante®, Klorane Bebé/Gel lavante nutritivo®) [25, 46].
Figura 2: Efeito do óleo mineral na pele. Do lado esquerdo encontra-se uma representação de um corte histológico da pele sem a aplicação do produto e do lado direito com o produto. É possível constatar que o óleo mineral provoca uma redução da perda da água transepidérmica (TEWL) (imagem adaptada de: [25]).