10.S. The Expression Statement
10.11. Random File Access
As redes sociais, em suas múltiplas esferas (familiares, amizade, profissionais, religiosas ou associativas), contribuem, de forma privilegiada, para a compreensão das relações sociais, em geral complexas, estabelecidas entre indivíduos e instituições nas
sociedades contemporâneas.103 Dizem respeito às interações produzidas, entre as pessoas,
por uma convivência de longo período (MARQUES, 2010 e 2012). No espaço urbano, em que há uma concentração, e emaranhado, de grupos sociais altamente diversificados, as redes têm sua capacidade de ação ampliada. Entrementes, o contexto (regional, social, etc.) em que estão inseridas determina, de um jeito ou de outro, sua forma de atuação. As “redes religiosas”, por exemplo, demonstram grande força e penetração nas periferias urbanas (ALMEIDA, 2004; BARRERA, 2012),
Desse modo, as práticas associativas, discutidas anteriormente, potencializam as relações em “rede” que ganham força e espaço tanto pelas aproximações que a realidade, em toda sua complexidade, permite, como pelo potencial de ganho que os vínculos duradouros, gerados ao longo do tempo, proporcionam. Relações de parentesco, amizade, vizinhança, religiosa, entre outras, se revelam eficazes na obtenção de favores – com peso significativo à população mais pobre –, nas relações de troca, ou no acesso às estruturas de oportunidade (LOMNITZ, 2001; MARQUES, 2009, 2010 e 2012).
Redes sociais: formação de vínculos e trocas de favores
Lomnitz (2001), na obra Redes sociales cultura y poder, cuja abordagem do tema se baseia em experiências latino-americanas, identifica, no âmbito de uma antropologia econômica, três padrões básicos e recorrentes de relações em rede: “reciprocidade”, “redistribuição” e “intercâmbio de mercados”. Entre os casos pesquisados e analisados pela autora, destacamos o compadrio e as barriadas.
O compadrio constitui em uma espécie de norma cultural, e estabelece um contrato entre parentes, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, membros de Lojas maçônicas ou partidos políticos, na classe média urbana no Chile. Esta comporta um intercâmbio de favores e amizades, estabelecendo uma relação de reciprocidade (empregos ou vagas em escola de alta reputação) que podem significar, àqueles/as que as frequentam, inserção em respeitados círculos sociais. Os favores devem ser retribuídos na forma de outros favores (LOMNITZ, 2001).
103 Cabe registrar, pertinente às “redes midiáticas de relacionamento” (hospedadas na internet), bastante
evidenciadas pelos meios de comunicação, e comumente chamadas de “redes sociais”, que é um fenômeno relativamente novo – não mais que 10 anos – que estabelece uma relação “virtual” entre seus participantes. Não devem ser confundidas com as inúmeras formas de aproximação “concretas”, baseadas em mecanismos de reciprocidade e intercâmbio, por sua vez, objeto do presente estudo.
A rede social mexicana é composta por famílias nucleares vizinhas que praticam intercâmbios sistemáticos entre si. Vivem em locais denominados barriadas (bairros ou vilarejos) povoados, em grande parte, por migrantes camponeses, em geral, oriundos dos setores mais pobres do campesinato, em sua maioria “sem terras”. Entre os objetos de intercâmbio estão informações, ajuda para emprego, empréstimos de dinheiro, serviços, apoio moral em situações de casamento, batismo ou funeral. Ocorrem dentro de relações de confiança, igualdade de carências e proximidade residencial (LOMNITZ, 2001).
Um aspecto a ser considerado – observando as barriadas – são as redes formadas no processo migratório. Com exceção dos pioneiros – os primeiros de uma mesma família a se deslocarem –, a migração é estimulada pelo fato de haver aqueles que já deixaram seus locais de origem, formando redes que possibilitam a vinda de outros migrantes. Mas, a formação de redes no processo migratório, não se constitui de um fenômeno marcado pela fixidez, ao contrário, as redes, nesse contexto, podem se constituir e se modificar pelo caráter provisório das relações sociais (MARQUES, 2010; MOYA e MARQUES, 2012). Destaque-se, no entanto, a formação de mecanismos de “ajuda mútua” e “solidariedade”, entre as comunidades de origem e destino, permitindo criação “redes de apoio e oportunidades” para os que se deslocam (FONTES, 2008; FOERSTER, 2010).
As redes sociais podem atuar em diversos campos. O Estado, ao promover políticas públicas, pode gerar redes que ligam moradores de comunidades “segregadas” a instituições públicas e privadas. Mesmo que a partir de concepções diferenciadas, como partidos de esquerda ou de direita, possibilitam, em algum grau, a geração de “vínculos” entre os diversos atores sociais envolvidos (MARQUES, 2003; PAVEZ, 2005). Também os movimentos sociais podem estimular a criação de redes sociais. Castells (1980 e 1983), por sua vez, analisa o “movimento de citadinos” na Espanha e dos “pobladores” no Chile e aponta para a importância dessas redes, na década de 1970, na organização política da “vizinhança” em associações de bairro para reivindicações, e conquistas, no âmbito da moradia popular.
Redes Religiosas em situações de homofilia
Em que medida, as redes sociais são capazes de contribuir para que se acumulem, no conjunto da sociedade, parcelas maiores de capital econômico ou simbólico? As redes são relevantes nas periferias urbanas, considerando seu afastamento, sócio espacial, dos
grandes centros? Por reunirem determinadas condições, entre elas um considerável isolamento social (segregação), as periferias imputam, aos seus moradores, relativa homogeneidade de condições econômicas, como pouca diferenciação em termos de formação escolar ou profissional. A situação é mais intensa em determinados grupos sociais com respeito à cor/raça, gênero ou faixa etária, que apresentam elementos específicos de vulnerabilidade social.104
Em situação de homofilia, há uma grande tendência para que os indivíduos formem redes (familiares, vizinhança, profissionais) locais, centradas ao redor do próprio grupo, e pouco diversificadas (MARQUES, 2010; MOYA e MARQUES, 2012). Embora isso fortaleça os vínculos entres os participantes, os afastam de estruturas de oportunidades que residem para além do próprio grupo. Questão que nos remete ao conceito de “fraqueza dos laços fortes” (GRANOVETTER, 1973).
Os laços fracos são indispensáveis na construção de oportunidades, como para a integração da comunidade para além do seu próprio espaço circunscrito. Contraditoriamente, os laços fortes podem levar a fragmentação e concentração social. Ao se moverem em ambientes diversos, os indivíduos tendem a se conectar a um mundo diferente do que está habituado a viver, obtendo novas informações e acesso a novas estruturas de oportunidade (ibidem). As redes sociais formadas no espaço periférico podem ter papel fundamental para a obtenção de emprego na medida em que possibilitam a ampliação de contatos e, por conseguinte, o acesso a informações e oportunidades de trabalho (GUIMARÃES et al., 2012).
É nesse contexto que se destacam as redes sociais. Para esse estudo, a importância está nas redes de caráter religioso (ALMEIDA e D’ANDREA 2004). Já tivemos a oportunidade de destacar o impacto que as redes religiosas produzem para os moradores de favelas (por exemplo, Paraisópolis) instaladas ao lado de bairros nobres (por exemplo, Morumbi). Possibilitam, por vezes, acesso a empregos, visto que uma pessoa que consiga trabalho em uma residência no bairro, poderá indicar membros de sua igreja para outras residências. Mas, há os elementos simbólicos envolvidos. Estudos em favelas no Rio de Janeiro destacam as redes religiosas, especialmente no campo evangélico, como alternativa de integração social, ou mesmo “moral” no interior de uma “sociabilidade
104 Quando falamos em “homogeneidade” de condições sociais não afirmamos que as “periferias”, em seu
conjunto, sejam caracterizadas por problemas semelhantes. A ideia aqui contida é que as pessoas, em determinadas circunstâncias de segregação, podem assumir condições sociais similares.
violenta”, em que a população convive, diariamente, com o tráfico (MACHADO DA SILVA, 2008; MESQUITA, 2009).105
Na próxima seção, apresentaremos as redes sociais em Rio Grande da Serra. Cabe lembrar, que, conforme indicado nos capítulos anteriores, há diferenças socioeconômicas entre os moradores da cidade, como situações desiguais em termos de vulnerabilidade social entre as regiões (bairros). O objetivo, daqui por diante, será analisar como as redes sociais, dentro e fora do campo religioso, contribuem para o aumento do capital social (o que aprofundaremos no capítulo 4) dos participantes das diversas regiões na cidade.