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PARTIE II: DEROULEMENT DU STAGE

3.2. Objectifs

3.3.6. Radio-anatomie

Sendo o trabalho de campo ferramenta das mais pessoais e um dentre os importantes estágios dos processos etnomusicológicos93, estudos sobre ele têm sido desenvolvidos ao longo do estabelecimento desta área de conhecimento que demonstram, entre outros aspectos, que a passagem do tempo trouxe transformações na maneira como estes processos são realizados94, na busca de adequação à mudança de pensamento ocorrida com o amadurecimento da etnomusicologia enquanto disciplina. Definições variadas do termo etnografia foram dadas ao longo do desenvolvimento dos estudos etnomusicológicos, tais como “a etnografia da música é escrever sobre as maneiras como as pessoas fazem música”95

(SEEGER, 1992, p. 89) ou, ainda, a concepção de Nettl (2005, p. 13)96, que acredita ser o

93 “[...] fieldwork is the most personal task required of the ethnomusicologist. Fieldwork is also the most

critical stage of ethnomusicological research-the eyewitness report, the foundation upon which all result rest. (MYERS, 1992, p. 21).

94 Para exemplificar essas transformações, mais especificamente aquelas ocorridas no campo da música, cito as

coletas realizadas por viajantes, comerciantes, padres e religiosos em geral e também por curiosos, geralmente europeus, que embarcavam a serviço de instituições de seus países de origem ou por sua própria conta, para diversos países, sobretudo fora do continente europeu, alguns deles suas colônias. Durante estas viagens, muitas vezes eram colhidos dados, confeccionados relatos que satisfaziam curiosidades tanto de governos como de cidadãos comuns, nos quais constavam as mais diversas informações, incluindo música, que só pôde ser gravada em campo a partir da criação do fonógrafo de Edison, no ano de 1877 (LUHNING, 1991; MYERS, 1992). Esta prática perdurou até o final do século XIX (PINTO, 2008). Posteriormente, estes materiais foram organizados e, a partir disto, foram criados vários museus e arquivos sonoros (HORNBOSTEL, 2000; PEGG et al., 2001; SACHS, 1910). Destacam-se os esforços dos pesquisadores Erich Honsborstel (1909), Curt Saches e Carl Stump.

95 “The ethnography of music is writing about the ways of people make music”.

96 “Principally, ethnomusicology is study wiht the use of fieldwork. We believe that fieldwork, direct

111 trabalho de campo o meio de confrontação com a concepção, produção, consumo, criação musical e performance. Estas modificações conceituais foram sendo incorporadas com o passar do tempo ao seu escopo epistemológico.

As reflexões sobre a realização e a importância da pesquisa de campo, que vinham sendo feitas desde a viagem de Bronislaw Malinowski, em 1926, ao Pacífico Sul, culminaram na absorção desta ferramenta de trabalho pela Antropologia, influenciando também pesquisadores/as em etnomusicologia na América Latina, e se encaminharam, por sua vez, para território brasileiro (ARETZ, 1980; BASTOS, 2005; BÉHAGUE, 1999; PINTO, 2008). Atualmente, acompanhamos uma mudança dos procedimentos tecnológicos bem como das definições dos processos etnográficos que se deram com a chegada das discussões sobre etnografia virtual (AMARAL, 2009; CAROSO, 2008; LYSLOFF, 2003; MAYANS I PLANELLS, 2002).

O relato feito acima apresenta este capítulo, que trará uma descrição e análise dos processos etnográficos realizados durante esta pesquisa. Além disto, serão relatadas as visitas realizadas aos arquivos de documentos antigos da cidade de Salvador, para a coleta de informações sobre os jazes em jornais e revistas. Os materiais encontrados também serão mencionados.

O processo de entrevistas se iniciou com minha mãe, Maria das Dores de Ana da Silva, informalmente, com as histórias contadas quando eu era criança. Ela, mulher negra, nascida na cidade de Salvador, Bahia, onde mora até hoje, aos 71 anos, desenvolveu gosto por contar histórias em um curso para confecção de teatro de sombras, no período em que foi professora no município de Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador (RMS). Exerceu

consume music, is essential, and we prefer concentration on intensive work with small numbers of individual informants to surveys of large populations”

112 esta profissão até se aposentar, há vinte anos. Nestas histórias, vez por outra, o nome “jaze” se fazia ouvir.

A não existência de jazes em atividade em Salvador no momento em que as histórias me eram contadas e a saudade que emanava das lembranças trazidas por minha mãe me fizeram encantada por eles, também. Mais tarde, os jazes voltaram a ser mencionados por outras mulheres, majoritariamente negras, em entrevistas realizadas no período em que era estudante de iniciação científica, em um projeto de pesquisa que tratava de memórias musicais do Engenho Velho de Brotas, também localizado em Salvador.

As memórias produzidas por essas mulheres se mostraram importantes para a realização deste trabalho, haja vista a menção aos jazes por parte de Nivalda Souza97, parda98, idade não revelada, que diz que os jazes tocavam muito bolero, samba-canção, fox e também

samba. [...] Era bolero, valsa, samba-canção... E continua, ligando, através deste repertório,

estes grupos musicais a outros movimentos: A porta-estandarte [um dos elementos componentes dos ternos de reis] era a pessoa que sabia dançar valsa, tango e samba-canção.

Se não soubesse, não saía! Sublinho a informação racial destas mulheres que trouxeram

importantes contribuições para esta pesquisa tendo em vista que, especificamente as negras produziram práticas, experiências e modos de interpretação diferenciados marcados por suas realidades diferenciadas, produzindo discursos diferenciados (CARDOSO, 2012; WERNECK, 2007).

Juntas, as histórias que lembrava ter ouvido de minha mãe e, tempos depois, no período em que era estudante voluntária no projeto de iniciação científica acima mencionado, o surgimento de falas de outras mulheres também negras como minha mãe, me mostraram a importância dos jazes enquanto movimento musical relevante para a compreensão de um

97 Nome fictício.

98 As declarações raciais se deram de forma espontânea. As pessoas que não se sentiram à vontade para declarar

113 momento da história cultural e musical da cidade. Este aspecto e minha condição, também, de mulher negra e instrumentista, atuante em filarmônicas e em uma banda de samba na cidade de Salvador99, me levaram a considerar o tema para um maior aprofundamento durante a realização das pesquisas integrantes do período de mestrado do qual esse trabalho faz parte.

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