Voltemos às precisas análises feitas por Ricoeur (2015) sobre o conceito de ideologia. Nelas, o autor afirma que a obra “A ideologia Alemã” é fundamental para a construção de um léxico próprio de Marx. Ela marca a transição entre o uso de conceitos idealistas, ainda que com o intuito de crítica, para a construção de um vocábulo materialista que tem seu acabamento em” O Capital”.
Talvez o grande acréscimo a esse léxico, nos diz Ricoeur (2015), seja a substituição de termos como espírito, ideias e outros comuns a gramática idealista por: relações de produção, meios de produção, classe etc. O que antes era apenas afirmado como base real se torna “infraestrutura” e a ideologia passa a ser analisada a partir da “superestrutura”.
Do ponto de vista geral, nesse texto, Marx e Engels (2007) debruçam-se sobre as análises pós-hegelianas da dinâmica social da Alemanha personificadas na figura de três pensadores: Ludwing Feurbach, Bruno Bauer e Max Stiner. Não é nosso objetivo uma análise minuciosa das ideias destes. Trataremos aqui sinteticamente do pensamento pós-hegeliano na figura da ideia de representação.
Os pressupostos de que partimos não são pressupostos arbitrários, dogmas, mas pressupostos reais, de que só se pode abstrair na imaginação. São os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de vida, tanto aquelas por eles já encontradas como as produzidas por sua própria ação. (MARX; ENGELS, 2007, p. 87)
A crítica central apresentada reside sobre o conceito de representação (Vorstellugens). De acordo com Ricoeur (2015) o pensamento pós-hegeliano dedicava-se a crítica das condições ideias contidas no interior das representações que os homens fazem de si. Para Marx e Engels (2007), porém existe uma discrepância entre a crítica das representações e a crítica das reais condições de organização social em sua dimensão histórica e antropológica.
Devemos lembrar a larga importância dada por Hegel a metafísica e a teologia. Marx e Engels (2007) atacam os filósofos alemães precisamente neste excesso. Segundo eles tais pensadores subsumiam a crítica da realidade na crítica das representações oferecidas pelo sistema filosófico hegeliano. Marx e Engels (2007, p. 84) questionam se “A nenhum desses filósofos ocorreu a ideia de perguntar sobre a conexão entre a filosofia alemã e a realidade alemã, sobre a conexão de sua crítica com seu próprio meio material.”
O termo material é a premissa da composição do léxico o qual nos referimos anteriormente. Ele assume caráter de real, em sua acepção de realidade, e faz oposição às noções idealistas, dentre elas as representações. O crivo da verdade que se opunha à dimensão imaginária de uma representação é a história. A ideologia, portanto, não tem em si uma história. Ela é a distorção, precisamente inversão como no conceito de alienação, da história dos meios materiais de produção.
A moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, bem como as formas de consciência a elas correspondentes, são privadas, aqui, da aparência de autonomia que até então possuíam. Não têm história, nem desenvolvimento; mas os homens, ao desenvolverem sua produção e seu intercâmbio materiais, transformam também, com esta sua realidade, seu pensar e os produtos de seu pensar. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. ( MARX; ENGELS, 2007, p. 95)
É necessário entender, contudo, a abrangência do conceito de “produção”. Trata- se da produção dos meios de vida e não de mercadorias, como uma análise simplista pode levar a crer. Nesse sentindo, “De um lado os homens agem para produzir as suas condições de existência e, de outro, são igualmente dependentes dessas condições.” (RICOEUR, 2015, p. 96). Aqui é possível identificar uma forte ruptura com um conceito já apresentado: o de objetivação.
Lembremos que tal conceito faz referencia a uma externalização. A materialização das ideias no mundo social. Em oposição esta ideia, internamente a própria elaboração dos autores, surge à concepção de “forças produtivas”.
Os homens são os produtores de suas representações, de suas ideias e assim por diantea, mas os homens reais, ativos, tal como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde, até chegar às suas formações mais desenvolvidas. A consciência [Bewusstsein] não pode jamais ser outra coisa do que o ser consciente [bewusste Sein], e o ser dos homens é o seu processo de vida real. Se, em toda ideologia, os homens e suas relações aparecem de cabeça para baixo como numa câmara escura, este fenômeno resulta do seu processo histórico de vida, da mesma forma como a inversão dos objetos na retina resulta de seu processo de vida imediatamente físico. ( MARX; ENGELS, 2010, p.94)
Não há um abandono radical da representação. Esta passa a ser produto da atividade humana e não mais produtora. Podemos, então, enunciar um conceito mínimo de ideologia para Marx ela é: “a inversão da história”. Esse conceito sucinto, e passivo de crítica, nos serve para operar a seguinte proposição: a ideologia é uma inversão da história na medida em que aliena a atividade humana a representações que não tem correspondência com a realidade material. Vejamos a proposição de Ricoeur (2015, p. 101)
Para Marx, a ideologia é o que se reflete pelo viés da representação. É o mundo das representações enquanto ele se opõe ao mundo histórico cuja consistência própria deve a atividade humana, as condições da atividade, a história das necessidades, a historia da produção, etc.
Essa proposição nos conduz a outro termo importante do léxico marxista: o “materialismo histórico”. É bem verdade que não existe essa expressão na obra de Marx sendo ela cunhada pelo marxismo posterior. Entretanto, parece claro que a combinação dessas duas palavras, enquanto um sintagma, explicita de maneira precisa o procedimento de Marx em sua crítica das representações.
Uma crítica à ideologia, logo, é necessariamente uma crítica materialista, pois opõem às condições objetivas da realidade as condições ideias da noção de representação. E histórica, pois busca elementos antropológicos como dado de factualdiade. Nestes elementos antropológicos reside outra importante observação sobre o conceito de ideologia e sua crítica em Marx: o problema da ideologia é, também, um problema da consciência.
Para o idealismo alemão, e para os pós-hegelianos, a consciência é ponto de partida para a compreensão dos fenômenos sociais. Em sua crítica à ideologia, Marx e Engels (2007) apontam essa noção como invertida. Não se trata de partir de uma consciência projetiva, mas de chegar a uma. “Desde o início, portanto, a consciência já é um produto
social e continuará sendo enquanto existirem homens.” (MARX; ENGELS 2007, p. 37). Voltemos a alguns trechos de citações anteriores para melhor explicitar essa ideia. Por exemplo, quando os autores afirmam que “A consciência [Bewusstsein] não pode jamais ser outra coisa do que o ser consciente [bewusste Sein], e o ser dos homens é o seu processo de vida real.” ( MARX;ENGELS, 2007, p.95).
A consciência não é anterior ao homem ela é produto da realidade histórica. Não há, para esses autores, uma consciência enquanto uma entidade metafísica que se autoenuncia. Sua determinação é produção e, como já vimos, produção, no capitalismo, é alienação, logo: “A moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, bem como as formas de consciência a elas correspondentes, são privadas, aqui, da aparência de autonomia que até então possuíam” ( MARX;ENGELS, 2007, p.95).
A consciência esta intimamente ligada ao interior das representações que são oferecidas historicamente para acessar a realidade. Não nos aprofundaremos na ontologia da consciência na “Ideologia alemã”, mas é de fundamental importância saber que nessa concepção sua determinação é histórica e produto da “divisão do trabalho”. Antes dessa a consciência é apenas uma percepção empírica do imediato. Com a divisão do trabalho a consciência, em sua interação com os meios materiais passa operar sobre estes, mas não sem que as condições históricas de sua existência já estejam previamente dadas.
Chegamos, com isso, ao final de nossa elaboração sobre a ideologia em Marx e Engels. De onde vem as representações que produzem uma consciência que,como produto do trabalho, se aliena a estas? Aqui é necessário introduzir um dos principais conceitos da obra de Marx; o conceito de “classe”. Devemos entender, basicamente, uma classe social como sendo o produto da divisão do trabalho. Marx e Engels (2007) chamam de classe dominante aquela que tem o controle sobre os meios de produção.
Uma vez que o conceito de produção faz referência a própria produção da realidade, a classe dominante de controle sobre a produção da realidade. Essa tautologia simples é fundamental para o fim de nossa explanação sobre a Ideologia.
As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual. As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante, são as ideias de sua dominação. Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também
consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que eles o fazem em toda a sua extensão, portanto, entre outras coisas, que eles dominam também como pensadores, como produtores de ideias, que regulam a produção e a distribuição das ideias de seu tempo; e, por conseguinte, que suas ideias são as ideias dominantes da época. (MARX; ENGELS, 2007,p. 47)
Devemos, por fim, agregar uma última noção ao termo ideologia. Ela é produção de um tipo de consciência que acessa ideias (representações) previamente produzidas pelos interesses de uma classe dominante. Não sendo estas representações condizentes com a realidade material histórica elas são falsas representações. Seu produto, portanto, é uma consciência alienada a essas falsas representações: uma “falsa consciência”.