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Discussion

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Segundo Vasconcelos (2010), o conceito de ideologia na obra de Marx vai gradativamente sendo acoplado ao conceito de fetiche da forma-mercadoria. Ela passa a ser incorporada aos mecanismos econômicos descritos em O Capital. Em uma acepção final, na obra de Marx, ideologia passa a ser o antônimo de ciência econômica. Não nos aprofundaremos nessa ideia aqui, será dedicada outra sessão para esta análise quando nos dedicarmos ao fetiche da mercadoria. Por agora, vejamos duas acepções do termo após Marx, mas que fazem uso de categorias semelhantes às encontradas na obra deste autor.

Alguns pensadores são importantes na atualização da ideologia, bem como sua crítica, nos primeiros anos do século XX. Particularmente Lênin, Gramsci e Lukács. O nosso interesse recai aqui sobre o filósofo húngaro Gyorgy Lukács12 e um de seus mais proeminentes continuadores Istvan Mezaros. Tal escolha se deve a tentativa de atualização do conceito de ideologia de maneira interior a obra de Marx. Com isso não dizemos que os outros dois não o fizeram.

Entretanto, a linha aqui escolhida para tratar do tema privilegia críticos que se debruçaram sobre a ideologia na relação íntima com o binômio verdadeiro/falso. Como já dissemos, para Gramsci, por mais fundamental que seja a noção de ideologia ela é parte constituinte do conceito de hegemonia. Desta maneira, a discussão verdadeiro/falso é lateral

12 Devemos aqui uma menção a Karl Meheime e seu debate sobre a relação entre a ideologia e a sociologia do conhecimento. Menheim (1987) cunha um conceito denominado “ideologia total” que refere-se a todas as ideias de verdade produzidas por uma cultura em uma época. Tal conceito é profundamente influenciado pelo pensamento de Georg Lukács, apesar de possuir significativas diferenças. Esse é um dos motivos pelos quais não deteremos em Menheime. Para além, não é objetivo nosso uma profunda discussão sobre o debate ideologia e ciência. Para isso ver Menheim (1987).

para o autor italiano. Já no caso de Lênin, este influencia profundamente Lukács. Correriamos o risco de uma profunda redundância ao tratar desses dois autores.

Assim, queremos expor este conceito como ele apresentado, principalmente, em duas importantes obras: História e consciência de classes publicado em 1923 e O poder da ideologia originalmente de 1989. São duas obras que sintetizam de maneira precisa a retomada da ideologia e sua crítica no campo do marxismo. Uma nas primeiras décadas do século XX e a outra em seu final.

Lukács (2003), influenciado pelos movimentos revolucionários na Rússia e seus primeiro anos exitosos e, também, pela segunda internacional13, dedica-se a reafirma, no interior da crítica marxista ao capitalismo, o potencial revolucionário da classe operária. Em termos gerais Eagleton (1997, p. 90) apresenta uma precisa síntese do pensamento do filosofo húngaro escrevendo que, para ele

Todas as formas de consciência de classe são ideológicas, mas algumas, por assim dizer, são mais ideológicas que outras. O que é especificamente ideológico na burguesia é sua incapacidade de compreender a estrutura da formação social como um todo por causa dos efeitos nefastos da reificação. A reificação fragmenta e desloca nossa experiência social de modo que, sob sua influência, esquecemos que a sociedade é um processo coletivo e passamos a vê-la meramente como este ou aquele objeto ou instituição isolada.

Analisemos mais delicadamente a síntese apresentada nesta citação. Konder (2002) apontar que a grande contribuição de Lukács ao conceito de ideologia e sua crítica, além da reafirmação do operário, é o aprofundamento da noção de reificação e seus efeitos na estrutura social. Segundo Bottomorre (2012, p.464), em seu “Dicionário do pensamento Marxista”, este termo

É o ato (ou resultado do ato) de transformação das propriedades, relações e ações humanas em propriedades, relações e ações de coisas produzidas pelo homem, que se tornaram independentes (e que são imaginadas como originalmente independentes) do homem e governam sua vida. Significa igualmente a transformação dos seres humanos em seres semelhantes a coisas, que não se comportam de forma humana, mas de acordo com as leis do mundo das coisas. A reificação é um caso “especial” de ALIENAÇÃO, sua forma mais radical e generalizada, característica da moderna sociedade capitalista.

13 Vale esclarecer que a influencia desses movimentos sobre o filosofo húngaro é bastante ambígua. Pois, se de um lado existe, na obra “História e consciência de classe” uma espécie de elogio à classe operária enquanto elemento fundamental da revolução comunista. De outro, Lukács é, também, conhecido por trazer para dentro do marxismo tendências menos ortodoxas como a sociologia de Weber ou mesmo uma releitura da noção da “Consciência em si” de Hegel (1997b) em sua “ Fenomenologia do Espirírto”.

Tal definição é um lugar comum ao pensamento marxista. A contribuição de Lukács (2003) reside na proposição de que todas as relações sociais dentro do capitalismo são relações sociais reificadas. A consciência da classe burguesa, que sustenta tais dinâmicas, também o é. Deste modo, aprisionada nas relações mercadológicas a burguesia limita-se a reproduzir formas sociais pré-existentes. Sobre isso o autor escreve

O trágico e o dialético da situação de classe da burguesia revela-se no fato de que não somente é de seu interesse, mas é, até mesmo, uma necessidade imprescindível para ela adquirir, sobre cada questão particular, uma consciência tão clara quanto possível de seus interesses de classe, mas que se torna fatal para ela, se essa mesma consciência se estender à questão da totalidade. (LUKÁCS, 2003, p. 167).

Para ele, a consciência burguesa é incapaz de perceber a totalidade dos fenômenos sociais. Ela resumiu-se à produção de um mundo particularista que sustenta seus interesses. Segundo Eagleton (1997) a ideologia para Lukács é a incapacidade de perceber a totalidade do social que é substituída pelos interesses particulares da consciência burguesa. A ideologia, com isso, não é apenas uma falsa consciência, mas uma consciência que, diante de sua incapacidade da percepção do todo, se limita a sua particularidade e admite, erroneamente, esta como total.

Caberia ao proletariado à superação desta situação ideológica que impede a percepção da totalidade. O valor atribuído à consciência da classe proletária é tamanho que Lukács (2003, p. 174) afirma que “o destino da revolução (e com ela o da humanidade) depende da maturidade ideológica do proletariado, da sua consciência de classe”.

Essa consciência capaz, porém é, ainda, apenas um potencial na classe trabalhadora. Segundo Konder (2002) em “História e consciência de classe” existem duas perspectivas da consciência da classe proletariada. A primeira é a “real” ela é reificada por ser produto da dinâmica do capitalismo. A segunda é a possível. Esta, quando atingida permitiria a classe operária a totalização dos processos sociais. “A ‘consciência possível’ do movimento operário ultrapassa, então, os limites da perspectiva parcial e da fragmentaridade e supera as distorções ideológicas.” (KONDER, 2002, p. 96).

Tanto para Konder (2002) quanto para Eagleton (1997) a crítica à ideologia em Lukács (2003) é utópica. O segundo comentador é mais duro com o filósofo húngaro sugerindo que suas ideias conversam perigosamente com ideias idealistas. Lukács (2003) dedica parte importante do seu trabalho a trazer conceitos kantianos e hegelianos para sua crítica.

Eagleton (1997) afirma, por exemplo, que Lukács substitui o conceito de absoluto de Hegel pelo conceito de totalidade. Longe de entrar nessa querela, o pensamento de Lukács influenciou profundamente os movimentos críticos que o sucederam, principalmente sua ideia de que a reificação não é um fenômeno estrito à economia, mas da vida social. Ela é, talvez, em uma leitura menos ortodoxa deste autor, o laço social estabelecido pela consciência burguesa no capitalismo.

É a partir dessa leitura que podemos situar a questão da ideologia para Istvan Mezáros. Este filósofo, também húngaro, segue relativamente à mesma linha de elaboração conceitual de Lukács. Vejamos, já de imediato, a definição de ideologia segundo ele,

Na verdade, a ideologia não é uma ilusão nem supertição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada. Como tal, não pode ser superada na sociedade de classe. Sua persistência se deve ao fato de ela ser constituída objetivamente (constantemente reconstituída) como consciência prática inevitável da sociedade de classes, relacionada com a articulação de conjuntos de valores estratégicos rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus principais aspectos. Os interesses sociais que desenvolvem ao longo da história e se entrelaçam conflituosamente manifestam-se, no plano da consciência social, na grande diversidade de discurso ideológicos relativamente autônomos ( mas, é claro, de modo algum independentes), que exercem forte influência sobre os processos materiais mais tangíveis do metabolismo social. (MEZÁROS, 2014, p. 65)

Nessa citação podemos ver algumas manutenções, alguns acréscimos e alguns rompimentos em relação as proposição de Lukács (2003). Devemos perceber que mantém-se a tese de que a ideologia é a estrutura relacional da sociedade de classes, ou seja, é a estrutura relacional da burguesia: a reificação. A isso podemos acrescentar que, para esse autor, a própria noção estrutural da sociedade deve ser complexificada. Devemos pensar, agora, a partir da noção de matabolismo social.

Para Mezáros (2011) o capitalismo funciona, metaforicamente, tal qual um organismo que metaboliza a substância social a partir de uma socioeconomia. O sociometabolismo é o controle vital das funções do capital. Poderiamos dizer que é a hierarquização da organização social. Não se trata apenas de uma luta entre duas classes, mas admitir que, internamente as classes, são travadas lutas hierárquicas pelo poder político.

Assim, as ideologias conflitantes de qualquer período histórico constituem a consciência prática necessária em termos da qual as principais classes da sociedade se inter-relacionam e até se confrontam, de modo mais ou menos aberto, articulando sua visão da ordem social correta e apropriada como um todo abrangente. (MEZÁROS, 2014, p. 65).

O problema da totalidade esta em questão nessa nova forma de se compreender a ideologia, porém agora como uma disputa pela totalidade. Ela deixar de ser, somente, uma questão de uma verdade em oposição a mentira da reificação da classe burguesa e passa a ser a relação entre o binômio verdadeiro/falso com a história. Podemos observar aqui que a crítica de Eagleton (1997) parece não se aplicar. Não se trata mais de um absoluto no sentido hegelinao, mas de formas históricas de organizações sociais.

As ideologias são, portanto, determinadas pela história de duas maneiras: 1) produzindo as orientações conflituosas que se tornam o objeto de resolução das organizações sociais, mas que são intrínsecas a essas organizações. Devemos pensar aqui em um ciclo vicioso que sustenta a luta de classes. Essa luta ocorre pelo estabelecimento de formações políticas hegemônicas. Cada época tem seus problemas a ser superados e constructos ideológicos que apontam as soluções deste; 2) Os problemas e os constructos resolutivos visam, em geral, a organização do metabolismo social. Este aparece como uma estrutura organizacional da produção. (MEZÁROS, 2014).

Derivadas dessas determinações históricas das ideologias é possível afirma, segundo o autor, três posições ideológicas típicas: 1) uma posição acrítica sobre a ordem vigente. Entende-se, nessa posição, que tal ciclo é estrutura comum a vida em sociedade; 2) Apontar a irracionalidade da organização social de classes como elemento de sua superação, estamos aqui no campo do esclarecimento e 3) Adotar uma postura de negação da ideia de classe, pois uma vez que se fala em classes parece não haver mais sentido na manutenção do velho conceito marxista de luta de classes.

É necessário notar que nas proposições de Mezáros (2014), ainda, estamos no campo da falsa consciência, talvez agora, como falsas consciências. Fala-se agora não em totalidade, mas em tentativas de controle político e econômico desta. Estamos em um campo mais complexo de produção da verdade, mas ainda no campo da produção da verdade.

As estruturas de inteligibilidade, por si, não são capazes de supera a ideologia uma vez que ela é produto da organização em classes, mas ainda são necessárias para a elaboração deste conceito. Elas, em ultima instância, são ideias que, mesmo dando um passo decisivo em relação ao binômio falso/verdadeiro, estão ligadas a ideia da verdade de uma classe. É possível, com isso, perceber um contínuo entre Marx, Lukács e Mezáros. Podemos resumir com a seguinte formula extraída da crítica de Eagleton (1997), ainda que o autor se refira somente aos dois primeriros. Nos três casos trata-se de uma questão cognitiva, ou seja, de produção de modos de inteligibilidade da realidade. Em Marx a partir do conceito de

Superestrutura ou como a economia-política organiza os meios materiais de produção. Em lukács a partir da ideia de reificação ou como se organiza, no capitalismo, o controle do capital sobre a consciência. Por fim, em Mezáros, trata-se da manutenção do sistema sociometabólico do capitalismo a partir das disputas por hegemonização de determinadas práticas de regulação do sociometabolismo do Capitalismo.

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