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De acordo com Châtelet (1994), Hegel teria sugerido que René Descartes é o filósofo inaugurador da era moderna. Horkheimer (1990, p. 95) complementa a proposição hegeliana afirmando que “Na historiografia da filosofia mais moderna, entende-se por Racionalismo a tendência que teve início com Descartes”.

Como já dito anteriormente o Racionalismo, em nossa perspectiva, deve ser entendido como uma matriz cultural que produz ações racionais. É bem verdade que é possível falar, assim, em um pensamento racional grego que tem o logos como fundamento. Entretanto, diferente da ideia grega, a inauguração do cogito cartesiano coloca no centro de todas as coisas a certeza do pensamento. Nisso reside a radical transição da filosofia clássica para a moderna. “até Descartes a filosofia faz esta pergunta: o que é o ser? Como ele é? Descartes pergunta: o que é o conhecimento ?” ( CHÂTELET, 1993 p. 63).

Garcia-Roza (2007) elucida essa ideia ao propor que até a ascensão do cartesianismo a filosofia estava preocupada com a substância. O logos era um meio para se chegar a substância das coisas. Vimos que para Platão, com sua hipótese das ideias, a substância que compunha os objetos do mundo encontrava-se na ideia desse objeto. Já para Aristóteles, tal substância era produto da relação lógica entre essência e aparência.

Esse não é o problema que Descartes se propõem a resolver, porém ele não prescinde das questões levantadas pelos gregos e, segundo Garcia-Roza (2007), é na figura de Platão que o pensador francês tem sua principal referência. O pensador grego sugere que o mundo sensível é um mundo de copias e que sua verdadeira substância é ideativa e somente acessada através do logos. Estamos aqui, novamente, diante da diferença entre doxa e episteme, porém reconfigurada na incerteza da veracidade da realidade construída doxologicamente. Diante desta incerteza, e como fundamento de sua filosofia, Descartes anuncia sua mais celebre sentença: cogito ergo sum. (GARCIA-ROZA, 2007).

Cottighan (1995) aponta que essa expressão é enunciada pela primeira vez em 1637 na obra “O discurso do método”. No texto cartesiano o problema acima colocado, o problema da incerteza da doxa, é imediatamente evocado antes da enunciação da certeza do pensamento. Nas palavras de Descartes (1996, p. 38)

Depois, examinando atentamente o que eu era e vendo que não podia fingir que não tinha nenhum corpo e que não havia nenhum mundo, nem lugar algum onde eu existisse, mas que nem por isso podia fingir que não existia: e que, pelo contrário, pelo próprio fato de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, decorria muito evidente e muito certamente que eu existia: ao passo que, se apenas eu pare de pensar, ainda que tudo mais que eu imaginara fosse verdadeiro, não teria razão alguma para acreditar que eu existisse: por isso reconheci que eu era uma substância, cuja única essência ou natureza é pensar, e que, para existir, não necessita de nenhum lugar nem depende de coisa alguma material.

Hokheimer (1990) indica que Descartes, para a manutenção lógica de seu axioma, deve assumiu propositivamente a independência entre a substância espiritual e a realidade física. Tal ideia se expressa nas últimas palavras da citação de Descartes. Garcia-Roza (2007)

propõe um complexo desdobramento dessa ideia. Para ele o que está posto é a universalidade da substância espiritual como fundamento do cogito. A certeza de que “O logos individual nada mais é do que um momento do logos universal e supra-individual” ( GARCIA-ROZA, 2007 p. 15).

Nesse sentindo, a garantia do pensamento se dá como uma condição. Todas as dúvidas somente são possíveis uma vez que o duvidar da existência não esteja colocado em jogo. Como já apontado, o interesse de Descartes não é propriamente sobre a substância das coisas (relação essência/aparência), mas sobre os limites do conhecimento possível sobre os objetos do mundo.

O lugar aquém da dúvida deve estar garantido. Tal ideia fica clara em sua segunda meditação. Nela Descartes (2004) explica a relação por ele proposta entre pensar e existir. Primeiro deve ser pressuposto a existência de uma tendência enganosa dos sentidos, o que o autor denominou de “deus maligno e enganador”, para diante da impossibilidade da certeza do mundo se enunciar a certeza de existir enquanto se pensa.

Mas, há um enganador, não sei quem, sumamente poderoso, sumamente astucioso, que, por indústria, sempre me engana. Não há duvida, portanto, de que eu, eu sou também, se me engana: que me engana o quanto pessoa: nunca poderá fazer, porém que eu nada seja, enquanto eu pensar que sou algo. De sorte que, depois de ponderar e examinar cuidadosamente todas as coisas é preciso estabelecer, finalmente, que este enunciado eu, eu sou, eu, eu existo é necessariamente verdadeiro todas as vezes que é por mim proferido ou concebido na mente. ( DESCARTES, 2004 p. 25)

Cottighan (1995) explica essa passagem sugerindo que a certeza não se encontra em si na existência, pois essa, para Descartes, não é um tipo de universal atemporal como o número matemático. A certeza de existir é garantida pelo processo de pensar, pois o ato do pensamento, o instante do pensamento, garante que algo esta existindo naquele exato momento.

Inaugura-se nessa relação pensar/existir a noção de sujeito cognoscente. O sujeito como aquele que pensa e por isso existe e pelo seu pensamento a ele é garantida a capacidade de abstração. Figuereido (1991) vê nesse evento o nascimento da ciência moderna via o questionamento contínuo somente permitido pela capacidade de pensar. A esse, dito método do pensamento moderno, denominou-se de “dúvida metódica”.

Uma análise dos textos cartesianos nos mostra que este é, em geral, composto pela rápida e contínua associação de proposições e dúvidas com o intuito de chegar a uma conclusão mínima que, caso não seja a própria condição do pensar, será novamente colocada a prova pelo primado do cogito.

A dúvida metódica “é o rótulo amiúde aplicado ao procedimento pelo qual Descartes tenta remover do caminho, com a finalidade de estabelecer uma base metodológica confiável para sua nova ciência, as pedras que constituem os preconceitos e opiniões preconcebidas.” Cottighan (1995, p.56).

O procedimento cartesiano de dúvida ao, necessitar de uma máxima, ou seja, um logos universal para se validar resguarda com isso muitos elementos da racionalidade grega. Châtelet (1993, p.66) diz que a nova racionalidade moderna trata-se de

[...] legitimar o discurso que todo homem de boa fé possa aceitar. Trata-se, sempre, de demonstrar, de constituir o campo no qual a verdade é administrada por via demonstrativa e não, como na religião por via da revelação, ou, como no mundo empírico, por via puramente experimental, no sentido mais fraco da palavra.

Na figura do cogito cartesiano a Razão encontra sua legitimidade na modernidade. O homem dotado da capacidade de pensar, conhecer, abstrair e dominar se torna o centro do novo universo e senhor da natureza. Estão lançadas, com isso, as bases do que Vietta (2015) sugeriu ser o império da racionalidade.

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