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R´ e´ ecriture des formules de substitution

6.3 G´ en´ eration des substitutions B

6.3.2 G´ en´ eration des op´ erations

6.3.2.4 R´ e´ ecriture des formules de substitution

Norbert Elias e Eric Dunning60 se perguntam quais os principais atrativos que o esporte pode fornecer aos seus espectadores. Embora o esporte e o lazer em geral sejam comumente associados como formas dissipadoras das tensões cotidianas causadas pelo excessivo estresse na modernidade, os autores observam o esporte como mais causador de tensão do que de alívio. Porém, o esporte traz uma tensão benéfica, atrativa e importantíssima em um mundo que uma porção da população mundial já não vive mais as tensões associadas à escassez de recursos básicos para a vida humana e a inexistência de firme segurança na manutenção da vida diante das mais diversas catástrofes e violências contra animais e outros humanos. Na modernidade surge uma esfera mimética capaz de provocar novas tensões em situações mais controladas, os riscos da derrota do esporte são iminentes, ainda assim, nunca vividos como perigos reais para a continuidade das vidas humanas quando são assegurados os recursos básicos de uma forma muito mais contínua e os confrontos violentos consideravelmente diminuídos em relação à épocas passadas.

Mas se esportes que minimizam os contatos físicos e as possibilidades de lesão se encaixam mais perfeitamente nas descrições de Elias e Dunning, o que se pode dizer

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a respeito de um esporte como o automobilismo? A história do automobilismo está marcada pelos trágicos acidentes fatais acumulados. Um dos maiores ocorreu em Le Mans, na França, durante uma corrida de endurance de duração de 24 horas, 84 pessoas espectadoras do evento mais o piloto Pierre Levegh morreram em trágico acidente. Em poucos minutos, o carro de Levegh tomou seu próprio rumo, sem que o piloto pudesse conduzi-lo de volta à pista, tornando-se uma espécie de projétil móvel, alcançou os espectadores próximos da pista causando a fatalidade de muitas pessoas. O nível de perigo oferecido pela prática automobilística foi rapidamente assimilado por conta de acidentes como esse.

Na Fórmula 1, desde o seu surgimento, as fatalidades foram se sucedendo. Com o tempo foram diminuindo, mas ainda assim, mesmo nos anos 1980 quando foram implementadas as células de sobrevivência nos carros, fatalidades persistiram a ocorrer. Fazia parte, em estado incorporado, o medo, a ansiedade, a agonia, o drama de um esporte perigoso, nas disposições tanto de pilotos quanto de espectadores, eles sabiam que poderiam morrer praticando o automobilismo. As sensações provocadas por esse esporte são peculiares porque justamente em um mundo muito mais autocontido, controlado, dominado pelo Estado com seu monopólio pela violência, a Fórmula 1 e o automobilismo em geral aparecia como uma esfera a parte regulada por tensões já apagadas nos outros domínios da vida. Os preceitos éticos vividos e alimentados, as possibilidades de ascensão à glória, as figurações que aí surgiam (os heróis e os derrotados), mais se assemelhavam a de um período anterior muito mais marcado por guerras constantes, na qual existia outra modelação humana a qual encarava a morte de outra maneira61.

Esses traços de alta periculosidade definiam alguns dos contornos do espaço social automobilístico durante o século XX e o diferenciavam dos diversos outros espaços sociais na modernidade. Assim, mesmo no contexto da modernidade, um de seus espaços, o espaço social automobilístico, ainda propiciava a emergência de figuras ideológicas como os mitos e os heróis, em seus combates contra os mais diversos perigos. O espaço social automobilístico funcionava como uma espécie de

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Essa configuração social específica aparece transfigurada no filme Grand Prix de 1966 em que os criadores do filme produzem uma percepção daquela época acerca de um esporte muito marcado pela sua alta periculosidade e assim puderam oferecer uma oportunidade de demonstração empírica do espírito daquela época presente na Fórmula 1, bem como as representações produtos de princípios de visão e de divisão pertencentes à aquele momento histórico.

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reminiscência de um mundo que aparentemente só existia no passado. Deste modo, aquilo que emergia no passado poderia continuar a emergir no presente do século XX.

O confronto com a alta periculosidade foi uma constante na carreira de Ayrton Senna na Fórmula 1. Seu estilo de pilotagem era considerado bastante agressivo. Nas disputas por colocações e nas situações de ultrapassagem, Senna não se sentia incomodado a se colocar em risco. Ao final de uma longa reta, aproximando-se do ponto de frenagem de uma curva, era comum ver Senna se colocar lado a lado de seus rivais em uma situação ao qual apenas um dos pilotos poderá seguir pelo traçado ideal da pista, obrigando assim seus adversários a pisarem no freio para evitarem o choque e acidentes incalculáveis. Senna se mantinha firme e forte, com alta coragem, e seus rivais, temendo a probabilidade de um acidente grave e fatal, freavam deixando o brasileiro ultrapassá-los.

Os anos de carreira de Ayrton Senna na Fórmula 1 foram definidos e demarcados pela sua condução de alta periculosidade em confronto com outros pilotos menos dispostos a se colocarem em situações de risco. Ayrton Senna transfigurava em suas práticas com os seus rivais os princípios de divisão do espaço social automobilístico de sua era, sendo um dos seus exemplos mais bem acabados justamente por ter se estruturado nesses próprios espaços. Sua morte, passados mais de vinte anos, também marca o fim de uma era, não somente por ter sido a última fatalidade a ocorrer na Fórmula 1, mas sobretudo porque ele aparece ao público como o último modelado naquelas condições que não voltaram a se repetir. A denominação de romântico dada à Ayrton Senna na obra Pilotos: lendas da Formula 1 não se faz em vão. Entre vários fatores, Senna se colocava ao lado daqueles que o amor pelo esporte e pelo automobilismo e a sede por vitórias se tornavam prioridades que muitas vezes se colocavam acima de suas próprias vidas.

Esses homens não eram apenas pilotos. Por meio da competição automobilística, eles buscavam outra coisa além de sucesso, dinheiro e glória. Sua busca era mais absoluta, seu olhar ia mais longe. Quando Senna contou, por exemplo, que durante uma volta de classificação lhe ocorreu talvez passar para o outro lado do espelho, entrar em outra dimensão, os jornalistas que o rodeavam não compreenderam. Esse tema ultrapassava a competência deles. Mas eles ouviam Senna atentamente e liam em seu olhar brilhante que o brasileiro não tinha voltado intacto dessa viagem.62

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CAHIER, Bernard; CAHIER, Paul-Henri; CHIMITS, Xavier. Pilotos: lendas da Fórmula 1. São Paulo: Larousse do Brasil, 2009. P. 69.

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A descrição sobre os românticos prossegue até que se chega a uma conclusão: “Uma vez que eles não tinham limites e recusavam a seguir regras, suas carreiras em geral foram breves. Quando não suas vidas. Mas, na memória coletiva da Fórmula 1, outros pilotos, disciplinados foram esquecidos. Os românticos, estes sim permanecem. Geralmente intactos, pois a morte precoce os preservou da corrosão do tempo.” E o público os admirava justamente por se desligarem desse mundo, dos seus imperativos, por se confrontarem com as normas e etiquetas, por ousarem fazer aquilo que os comuns não faziam, estarem de certo modo, à parte das convenções, sem no entanto, serem acusados de transgressores da moral. Pelo contrário, faziam parte de um seleto grupo a se servir de exemplo como ideais de vida. Porque embora tenham tido vidas muito curtas, certa vez Bruce Mclaren, ex-piloto e construtor no automobilismo morto em sua própria prática esportiva disse: “A vida é medida por realizações e não por anos.”63

Eles realizavam o excepcional num mundo de ordinariedades.

Concomitante às conquistas realizadas nesse circuito marcado pela alta periculosidade, Ayrton Senna hasteava a bandeira brasileira ainda em seu carro após suas vitórias. E este vem a ser o segundo ponto a ser colocado em questão ao longo deste capítulo. Vê se invadir no esporte mais que uma mera disputa pessoal entre indivíduos quando eles passam a transfigurar também disputas entre nações. Especialmente na Fórmula 1, vale considerar que a despeito de não existir uma disputa entre nações numa forma direta, como se vê nas Olimpíadas modernas, na Copa do Mundo de Futebol e em outros esportes, no espaço social automobilístico internacional também se colocam em disputa as nacionalidades, ilustradas principalmente através das disputas entre pilotos de diversas locais do planeta. Os momentos de vitória de um piloto de Fórmula 1 passam a ser compreendidos e, principalmente, sentidos – e eu gostaria aqui de realmente enfatizar esse último ponto, considerando o entrelaçamento entre e a incorporação de disposições relativas à identidade nacional e as estruturas afetivas – como vitórias de uma nação. Ainda que naqueles momentos mais uma vez o Brasil se reinventasse e se fazia e refazia a partir dos hasteamentos da bandeira brasileira, as comemorações tanto do próprio atleta Senna quanto do público são referidas como vitórias do Brasil, tais atos só se faziam significados dentro de um contexto histórico em que a ligação entre o esporte e as formações de nacionalidades já

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FRASE. Disponível em: <https://quemdisse.com.br/frase/a-vida-e-medida-por-realizacoes-e-nao-por- anos/101372/> Acesso em 18 de fevereiro de 2019.

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havia sido muito bem consolidado. Os conteúdos das narrativas heróicas que se construíam em torno dos feitos de Ayrton Senna se somavam as narrativas de identidade brasileira que se desenhava na modernidade. O público brasileiro, em especial, só podia se comover pela figura de Senna não apenas por uma espécie de afinidade eletiva entre os traços disposicionais do atleta e dos espectadores, como poderia ocorrer a um público de outro país que também admirou Senna. Mas decisivamente porque o que realmente aproximava o público brasileiro e o piloto era a resolução das tensões internacionais que se davam através das confrontações dos pilotos de diferentes nacionalidades em uma espécie de campo de disputas globais, como normalmente acontece em qualquer esporte, na modernidade, em que existam atletas de vários locais do planeta. O alívio provocado pelas vitórias de Senna diante das incertezas de sucesso que se davam antes e durante as competições que ocasionavam em tensões nervosíssimas, também era um alívio do Brasil, ou melhor, do público brasileiro que observava as disputas internacionais participando do lado de fora do espetáculo ao mesmo tempo em que participam do lado de dentro fornecendo os componentes simbólicos os quais dão significação a tais vitórias aos competidores. Não se trata de ato cínico, puramente interessado, os hasteamentos da bandeira brasileira, as diversas menções ao povo brasileiro e a toda a nação brasileira eram atos sinceros de alguém que incorporou para si os sentidos do esporte enquanto palco de disputas globais. Essa sinceridade uniu Senna ao público brasileiro, não só por ser sincera, mas por seu conteúdo mesmo sempre relacionado à nacionalidade brasileira. Era como se o Brasil, não representado, mas mimetizado, pudesse vencer através de Ayrton Senna.

A busca pela excitação foi incessante ao longo de todo o século XX entre os grupos apreciadores do automobilismo fascinados pelas altas velocidades proporcionadas pelo universo automotivo. Durante os anos 1980 a FIA alterou as homologações das competições de turismo, criando entre elas, o Grupo B. Venho aqui destacar a competição de rally com carros de turismo modificados respeitando as regras da homologação do Grupo B para exemplificar a relação que os participantes ativos e passivos da competição automobilística possuíam com o alto nível de periculosidade dessa prática esportiva.

A imagem de um carro saltando o solo de terra e areia em alta velocidade envolto por uma multidão de pessoas que se colocam a centímetros de distância da pista

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pode aparentar ser uma imagem bastante antiga, como que pertencente a uma era bastante remota, anterior a qualquer processo de modernização contemporâneo. Mas ela é bastante recente, dos anos 1980. Em meio a pesados investimentos nos setores tecnológicos em prol do aumento de performance nas pistas e a otimização dos carros às mais variadas condições terrenas, no Grupo B podia se observar carros que representavam o ápice do desenvolvimento tecnológico colocados nas condições mais perigosas e arriscadas, pré-civilizatórias. A busca incessante por vitórias motivou a construção de carros com desempenho exagerado para se correr em pistas muito estreitas cercadas muito vezes por vegetação muito densa, por pedras duras ou até mesmo por precipícios que significavam que qualquer erro, por mínimo que seja, poderia culminar em uma morte instantânea. Não bastando, o público se aproximava o mais que pudesse para sentir a velocidade dos carros passando e o ronco dos motores superalimentados. Em alguns momentos o público se colocava na própria pista se retirando dela apenas no momento de aproximação dos veículos. Fotógrafos e cenógrafos ousavam as mais arriscadas posições em busca dos mais inusitados ângulos. Os vencedores dessas competições não se consagravam apenas por suas competências técnicas, mas, sobretudo porque não diminuíam nenhum um pouco o ímpeto pelos tempos mais baixos mesmo sabendo que a linha que separava a perfeita condução e um desastre automobilístico era bastante tênue. “WRC is for boys, Group B was for Men.”64

Juha Kankkunen, quatro vezes campeão do Word Rally Champioship, assim definiu o tipo e o caráter de pessoa que participaram de dois momentos distintos das competições automobilísticas de rally. O Grupo B era a prova de que técnica sem afetividade não era nada. Na realidade, a técnica em si mesma era pura afetividade. Ela aparecia na forma de velocidade, de roncos de motores e sentidos outros que despertavam a adrenalina do público. O motor de um carro pulsa, como um coração que bate em ritmo sem parar, ele apresenta-se como um ser vivo em sua forte vibração. Os intensos esforços na direção do ganho de potência através dos turbo compressores fizeram somente com que esses motores não ganhassem maior performance, mas uma potência que facilmente se fazia reconhecer através de berros escandalosos. Estes não eram escutados na maior passividade como um efeito indesejado na produção de

performance. São considerados muitas vezes como verdadeiras melodias pelos amantes

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9GAG. Disponível em: <https://9gag.com/gag/aVDMN8M/wrc-is-for-boys-group-b-was-for-men-juha- kankkunen> Acesso em 18 de fevereiro de 2019.

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do universo automobilístico. A ironia da produção instrumental automobilística é que de nada serviria essa técnica se ela não pudesse ser apreciada enquanto um signo, enquanto algo a se gostar, algo a despertar emoções no corpo.

Essas imagens, a coragem dos pilotos, o esporte encarado sob o ponto de vista de muito além de uma competição (o que costuma bastar em muitos casos para provocar a emoção e o delírio em disputas muito acirradas, mas completamente asseguradas) como uma disputa pela vida e pela sobrevivência contrastam com as imagens mais contemporâneas. Dessa diferença que só pode emergir através dessas simbologias os pilotos daquela época são colocados à parte, distinguidos e caracterizados como dotados de disposições especiais. Tecnicamente, talvez os pilotos de hoje possam ser tão habilidosos quanto os do passado. A diferença reside nem tanto em sua técnica, mas com o fato de que eles têm que lidar tão somente com os deveres competitivos e automobilísticos. Eles continuam a alimentar os signos da esportividade em rivalidades uns com os outros. Precisam obter toda a técnica do que é próprio ao automobilismo, tanto na condução quanto no acerto dos ajustes de seus carros. Mas já não tem recorrentemente que lutarem pela continuidade de suas próprias vidas.

2.2 A TÉCNICA ENQUANTO SENTIDO E A FÓRMULA 1 ENQUANTO ÁPICE