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4.2 D´ efinitions d’attributs

4.2.1 Langage

4.2.1.2 D´ efinition d’attribut non cl´ e

As interpretações do cristianismo se dividem em duas, a partir de Rudolf Bultmann35. Este teólogo criou uma nova interpretação do cristianismo que poderia conviver lado a lado com a razão científica moderna do seu tempo. Essa é a sua principal motivação para uma teologia em que os preceitos do cristianismo continuariam verdadeiros a despeito da historicidade dos fatos contados na Bíblia. Para Bultmann36, a historicidade não importa e sim a mensagem. As interpretações teológicas cristãs são então bifurcadas: ou seja, entre aquelas que reivindicam a historicidade dos

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Gumbrecht classifica os estádios esportivos como lugares quase sagrados. GUMBRECHT, Hans Ulrich. "Perdido numa Intensidade Focada": esportes e estratégias de reencantamento. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, Belo Horizonte, v. 15, PP. 11-19, 2007.

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Teólogo responsável por uma revisão teológica na interpretação dos textos bíblicos cristãos. Em suas próprias palavras: “A cosmovisão bíblica é mitológica e, portanto, inaceitável para o ser humano moderno, cujo pensamento é moldado pela ciência natural e por isso não tem nada mais de mitológico.” (2203, p. 634 Rudolf Bultmann deixa claro nessa curta passagem a oposição entre a cosmovisão bíblica e a moderna. Bultmann tenta trazer uma nova justificativa teológica para que os escritos bíblicos cristãos possam também contar com uma justificativa epistemológica moderna, para tanto ele desenvolve o que nomeia de demitologização. “Demitologizar não significa rechaçar em sua totalidade a Escritura ou a mensagem cristã, mas sim a cosmovisão bíblica, que é a cosmovisão de uma época passada, com demasiada freqüência mantida ainda na dogmática cristã e na pregação da Igreja. Demitologizar significa negar que a mensagem da Escritura e da Igreja esteja vinculada a uma cosmovisão antiga e obsoleta”. p. 63. BULTMANN, Rudolf. Jesus Cristo e Mitologia. São Paulo: Novo Século, 2003.

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textos bíblicos tendo suas razões em função dessa historicidade e entre outros que estariam mais interessados nesses textos como transmissores de uma mensagem que independeria de uma historicidade.

Não é difícil ver em Bultmann e no diálogo subsequente um traço marcante da modernidade. Gumbrecht37 traça um panorama semelhante para as humanidades no século XX. Pouco a pouco nas ciências humanas a hermenêutica vem a deixar de preocupar-se com aquilo que Gumbrecht denomina produção de presença. O autor se serve do exemplo bíblico para explicar sua teoria focada na produção de presença. Segundo Gumbrecht, antes de Bultmann os teólogos concordavam que Jesus Cristo veio ao mundo presencialmente como figura encarnada para realizar a operação de salvação do mundo. Se sua existência não fosse confirmada, o mito bíblico se desfacelaria, pois é através dele que a missão bíblica é realizada. O cristianismo então se apresentaria como uma seita em que o extramundano invadia recorrentemente o intramundano e que todas as realizações míticas decorreriam dessas invasões. Já na teoria de Bultmann, ainda de acordo com Gumbrecht, o extramundano e o intramundano parecem muito pouco conectados. Gumbrecht quer restabelecer a conexão que ficou perdida, durante o século XX, do simbólico em sua razão hermenêutica e sua razão presencial. É presencialmente que o mito Ayrton Senna se fez. Sem dúvidas, toda a historicidade das realizações de Ayrton Senna não pode ser desconsiderada. São a essas realizações históricas que se voltou a pesquisa com o fito de explicar o mito Ayrton Senna. Assim como o cristianismo que reivindica historicidade só consegue enxergar o cumprimento da missão divina em sua realização prática. Isso quer dizer que os textos bíblicos não apenas transmitem uma mensagem, mas eventos históricos em que demonstrem ações divinas que vem a serem realizadas historicamente e presencialmente no decorrer do espaço e do tempo. Nessa visão, a verdade do cristianismo se revela presencialmente e não há um mundo à parte, distante das atuações divinas, que somente a razão científica moderna possa dar conta. É deste mundo que a Bíblia trata. Para retomar ao caso de Ayrton Senna, seu mito não se fez a despeito de suas realizações históricas, como algo que se conta, que se fabula, que se faz uma imagem fantasiosa, aumentativa em cima de fatos comuns, corriqueiros, ou seja, um mito que se criou. O mito vem a existir na sua

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GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio, 2010.

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realização histórica e não fora dela. O processo é concomitante a execução da prática, sendo esta constitutiva das propriedades mitológicas.

Ao longo desta tese pretende-se resgatar o mito em sua extracotidianidade, que o separa e o coloca à parte da vida cotidiana. É a esse sentido que a palavra mito é empregada. São essas qualidades extraordinárias que vem a se realizar em espaços restritos na modernidade, como é o espaço do esporte profissional com sua alta competitividade, que vem a explicar o mito Senna. E é, portanto, a essas qualidades que a pesquisa buscou identificá-las nas corporeidades, interioridade daquele espaço, apta a se realizar nesse mesmo espaço. Esta pesquisa se voltou a um corpo apto a realizar a prática mitológica mobilizando os signos da alta competitividade e transfigurando eles em signos nacionais.

Os ídolos do esporte moderno dizem respeito a realizações históricas intramundanas envolvendo todos os aspectos físicos corpóreos que a ciência moderna pode aceitar, mas que só se atribuem a uma excepcionalidade de seres humanos, um grupo bastante seleto e restrito. Ou seja, os mitos estão atrelados à excelência, à condição mais elevada de competência para realizar práticas raras. Os mitos surgem então quando alguns poucos humanos se separam de outros comuns sem se despreender de suas condições de humanidade, compreendendo aqui este conceito conforme os preceitos das ciências naturais modernas. Ademais, é porque se vê o caráter de excepcionalidade e o grau de competência elevado que os espectadores podem ver o mito se realizar à sua frente, assim como os seus realizadores são aqueles que incorporaram para si em processos de aprendizado (aquilo que no caso do esporte pode ser chamado de treino, uma exaustiva repetição de técnicas e movimentos) uma competência para realizar, mimeticamente, essas práticas carregadas de um simbolismo, constituído historicamente, heróico e mítico. Ayrton Senna é uma dessas figuras heróico-míticas que conseguiu incorporar para si os elementos históricos para em suas práticas realizar e exteriorizar toda essa multiplicidade de signos da alta competitividade e da nacionalidade brasileira. O seu mito se realiza através dele próprio, em um primeiro instante, porque se não surgisse essa possibilidade histórica de um desenvolvimento de um corpo tão apto e tão afinado a sua prática esportiva, esses feitos de que tanto se falam, não se falaria se Senna não os tivesse realizado.

A pesquisa teve de examinar tanto da incorporação quanto da expressão mítica. Por isso que ela teve que se voltar para as condições de existência de Ayrton Senna, da

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historicidade que se projeta em seu corpo e das reverberações em outros que surgem a partir daí, instantaneamente a seus feitos e posteriores a eles. E isto leva a separação de três momentos analíticos que visam primeiro a investigar a história do esporte e a emergência de um espaço de possíveis que permite o surgimento de figuras heróicas e míticas que vem a se transfigurar em nacionais. Deve-se voltar aí a Fórmula 1 e sua ligação com os signos nacionais (e internacionais) e todas as especificidades de um universo automobilístico que se diferencia e se distingue dos outros esportes. O segundo momento analítico tem de voltar para a trajetória mais específica de Ayrton Senna. A terceira tem de dar conta de sua expressão, do momento da realização prática mitológica, do encontro da afinidade de disposições e de instituições.

1.3. DESCRIÇÃO DO OBJETO: A ESFERA SOCIAL DO ESPORTE E